A desertificação já se tornou um dos maiores problemas ambientais enfrentados pelo Brasil, conforme o Instituto Nacional do Semiárido (Insa). Pela primeira vez, existem áreas áridas no País, e a tendência é que isso aumente. No entanto, apesar da aridez e das paisagens parecidas, isso não significa que há desertos brasileiros.
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Foto: Insa/Redes Sociais/Reprodução
Atualmente, a desertificação afeta principalmente o Semiárido brasileiro, que engloba parte do Nordeste do Brasil e Norte de Minas Gerais. Dentre as principais consequências, estão a perda de fertilidade do solo, a escassez de água e o comprometimento da produção agrícola, o que afeta diretamente a vida das comunidades locais.
Conforme o Insa, nos últimos 20 anos, a área do Brasil classificada como semiárida, também chamado de Sertão, aumentou 20,6%, com uma expansão de 160 mil km², o que é alarmante. Existem regiões que antes eram caracterizadas pelo clima úmido, mas agora já enfrentam o subúmido seco, como locais do Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul.
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A nova zona árida do Brasil, com 6 mil km² entre Pernambuco e Bahia, “é um exemplo claro das consequências dessas transformações globais”, afirma o instituto. É a primeira vez que uma área do País é considerada árida.
Segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), as principais causas para a aridez do local estão no aquecimento global e no processo de desertificação do País.
Tendência é que aridez aumente no País
A tendência é que a aridez aumente em todo o País, conforme mostrou um estudo do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden/MCTI) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), publicado no final de 2023.
O mesmo documento descobriu que o Brasil agora possui uma área definida como árida, que fica especificamente no Norte da Bahia. E a previsão dos pesquisadores é que o País fique cada vez menos úmido, consequentemente, mais seco. As exceções para esse processo são a região Sul do Brasil e estados do litoral do Rio de Janeiro e de São Paulo.
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Para chegar aos resultados, foram avaliadas a precipitação e a evapotranspiração entre 1960 e 2020 para calcular o índice de aridez. Foram analisados dados dos períodos 1960-1990, 1970-2000, 1980-2010 e 1990-2020. Foi no último que a área árida do País apareceu.
A evapotranspiração é um processo de transferência da água, que sai da Terra para a atmosfera, combinando a evaporação da água do solo e a transpiração das plantas.
Clima árido x semiárido
Nove estados do Brasil possuem um clima semiárido, totalizando 12% do território nacional, conforme o Insa. As regiões são caracterizadas principalmente pelas irregularidades da chuva e pelas altas taxas de evapotranspiração, o que contribui para o risco de escassez de água.
Entretanto, parte da área também tem chuvas torrenciais, que caem em períodos curtos, mas causam cheias, que revivem os rios e lagos.
A aridez, como foi descoberto em regiões do Brasil em 2023, é resultado da falta de água gerada pela insuficiência da chuva comparado ao potencial de evapotranspiração em um local.
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O que é desertificação
O processo de desertificação pode ser entendido como um ciclo vicioso, com consequências irreversíveis, se tornando mais visível ao longo das gerações.
Ele começa pela ocupação de uma área por homens, que derrubam e queimam a vegetação nativa, utilizando o solo para atividades agrícolas ou pecuárias.
Após três ou quatro gerações da terra sendo usada, com práticas agressivas e sem receber os cuidados adequados, o solo é exposto ao vento e à chuva, que o arrastam e “levam embora o material fértil, empobrecendo ainda mais a área”. Assim, ele perde a fertilidade.
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Por não ter vegetação para proteger o solo, o processo de erosão começa a ganhar força. Com isso, a terra perde a capacidade de reter a água. Assim começa o assoreamento dos rios e açudes, já que o vento e a chuva levam detritos para eles, comprometendo ainda mais o abastecimento.
Apesar do clima influenciar na desertificação, o principal motivo para o problema é o uso inadequado da terra.
Deserto x desertificação
A Insa explica que, apesar de possuem nomes e paisagens semelhantes, o deserto e a desertificação são duas coisas diferentes. O primeiro é um ecossistema natural que ocorre em zonas áridas. Já o segundo, é um processo que resulta da ação humana.
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Consequências graves
O processo de degradação do solo avança rapidamente. O Insa afirma que ele está transformando as paisagens, empobrecendo a biodiversidade e enfraquecendo os ecossistemas.
Com o passar do tempo, o local fica cada vez mais árido e o ciclo se intensifica. “Fontes de água secam, a fertilidade do solo desaparece e a vegetação se torna cada vez mais escassa”, afirma o Insa.
A desertificação faz com que as famílias, que dependem do solo para viver, comecem a sofrer com a redução da produção agrícola, escassez de alimentos e, consequentemente, queda na renda.
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Atualmente, as Áreas Suscetíveis à Desertificação (ASD) abrangem 18% do território nacional, totalizando 1.649 cidades de nove estados brasileiros. Tanto nelas quanto no entorno, 90% do território já registrou ao menos 18 meses de seca severa. Já 50% da região passou mais de 36 meses na situação.
As áreas do País onde os processos de desertificação estão mais avançados são os Núcleos de Desertificação no Semiárido Brasileiro: Seridó, (RN/PB), Cariris Velhos (PB), Inhamuns (CE), Gilbués (PI), Sertão Central (PE), Sertão do São Francisco (BA), conforme o Ministério do Meio Ambiente.
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Problema mundial
A United Nations Convention to Combat Desertification (UNCC) (Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca, em português) afirma que três quartos da Terra estão se tornando permanentemente mais secas nas últimas três décadas.
A UNCC relembra que há diferença entre aridez e seca. As regiões altamente áridas são locais onde a condição climática é persistente e de longo prazo, onde falta umidade para sustentar a maioria das formas de vida.
Já a seca é um período de curto prazo onde há escassez de água, o que afeta a vida de quem mora no local. Frequentemente, ela é atribuída a falta de chuva, altas temperaturas e baixa umidade do ar.
Tem como reverter o cenário?
A resposta é sim. Mas isso vai além das pequenas mudanças no dia a dia. “Combater a desertificação, mais que tudo, implica influenciar ou mudar o comportamento cultural, social, econômico e político da sociedade atual”, afirma a Insa.
O instituto reitera que o sistema econômico atual é incompatível com o esforço para combatê-la. “No entanto, não podemos nos deixar levar pela desesperança”, disse.
“O Semiárido tem grande potencial para se transformar em um exemplo de convivência com a semiaridez, promovendo práticas agrícolas sustentáveis e regenerativas, ao mesmo tempo em que protege a biodiversidade”, afirmou.
Para isso, há a possibilidade de transição para energias renováveis, por exemplo. “Como a energia eólica e solar, que já representam uma parte significativa da matriz energética brasileira.”
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Isso, é claro, deve ser feito em uma gestão que respeite o ecossistema local, assim como os direitos das populações da região.
“A democratização do acesso à terra, a regularização fundiária e a garantia dos direitos territoriais das comunidades quilombolas e indígenas são questões fundamentais para o avanço de um modelo de desenvolvimento mais justo e sustentável”, afirma também.
Desde janeiro de 2023, o Brasil possui o Departamento de Combate à Desertificação (DCDE). Ele é responsável por subsidiar e monitorar a implementação de políticas da UNCC.
Fontes: Insa; SGB; Estudo da Cemaden e Inpe.