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"Corpos estavam sem cabeça": Fotógrafo que acompanhou 24 horas da megaoperação no Rio dá forte relato

Bruno Itan documentou ação policial nos complexos do Alemão e da Penha na terça-feira

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Publicado em: 31/10/2025 às 13h:44 Última atualização: 31/10/2025 às 13h:55
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O fotógrafo Bruno Itan documentou durante 24 horas a operação policial nos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, que resultou em 121 mortos e 113 prisões.

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A ação foi realizada na terça-feira (28) pelas Polícias Civil e Militar contra a facção Comando Vermelho. Até esta sexta-feira (31), 99 corpos foram identificados, segundo o secretário da Polícia Civil do Rio, delegado Felipe Curi.

Rio de Janeiro (RJ), 28/10/2025 - Dezenas de corpos são trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro. Megaoperação contra Comando Vermelho | abc+



Rio de Janeiro (RJ), 28/10/2025 – Dezenas de corpos são trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro. Megaoperação contra Comando Vermelho

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

A operação mobilizou cerca de 2,5 mil agentes policiais e faz parte da Operação Contenção, iniciativa permanente do governo estadual para impedir a expansão territorial do Comando Vermelho na capital fluminense. Segundo reportagem da BBC, o governo do Estado a classificou como “a maior operação das forças de segurança do Rio de Janeiro”, enquanto o governador Cláudio Castro (PL) a descreveu como “sucesso” e “um duro golpe na criminalidade”.

Movimentos de direitos humanos contestam a ação, classificando-a como chacina, e questionam sua eficácia como política de segurança pública.

“No Complexo do Alemão e no Complexo da Penha existiu a pena de morte”

Itan, que cresceu no Complexo do Alemão, acordou por volta das 6h com o celular cheio de mensagens sobre a situação. Ao saber da dimensão da operação, saiu de sua casa na Rocinha, na Zona Sul, e dirigiu-se aos locais afetados.

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“Aqui no Brasil não tem pena de morte. Qualquer tipo de criminoso, independente do que ele fez, ele tem que ser preso, levado à Justiça para a Justiça determinar a sua pena. Mas ontem aqui, no Complexo do Alemão e no Complexo da Penha, existiu a pena de morte”, afirmou Itan. “Quem determinou essa pena de morte foi o próprio policial. Eles decidiram quem iria morrer e quem iria viver.”

Dos 99 mortos já identificados, 42 possuíam mandados de prisão pendentes, 78 apresentavam o que as autoridades chamaram de “relevante histórico criminal” e 40 eram de outros estados brasileiros.

Ao chegar por volta das 10h, o fotógrafo encontrou um cenário de destruição. “Vi o tiroteio, vi os carros queimados, comecei a registrar. Os moradores também relatavam muita truculência dos policiais”, contou.

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A imprensa foi impedida de avançar até a Penha. “Os policiais deram tiros pro alto e não deixaram a gente passar. Eles fizeram uma linha e disseram: ‘Daqui, a imprensa não passa'”, relatou Itan.

Durante a noite, moradores buscaram desaparecidos na Serra da Misericórdia, área que divide os dois complexos. Eles transportaram pelo menos 55 corpos para a Praça São Lucas, na Estrada José Rucas.

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“Os familiares foram por conta própria resgatar os corpos. Eles conseguiram ir lá com motos, carros, levaram lençol para tampar os corpos e para trazer para cá, para a praça aqui no Complexo da Penha”, testemunhou o fotógrafo.

Sobre a chegada dos corpos à praça, ele descreveu: “Chegaram aqui primeiramente cerca de 20 corpos. E aí, cara, não parou mais. Foi 25, 30, 35, 40, 45… São vidas, independente do que fizeram.”

O secretário da Polícia Civil informou que será instaurado um inquérito para investigar a retirada dos corpos pelos moradores, alegando possível “fraude processual”. Segundo Curi, os cadáveres foram manipulados após serem removidos da mata.

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“Temos imagens deles todos [cadáveres] paramentados, com roupas camufladas, com colete balístico, portando essas armas de guerra. Aí apareceram vários deles só de cuecas ou só de shorts, descalços, sem nada. Ou seja, é um milagre que se operou”, afirmou o secretário.

Ele acrescentou: “Parece que eles entraram num portal e trocaram de roupa. Temos imagens de pessoas que retiraram os corpos da mata e colocaram em via pública e tirando a roupa desses marginais”.

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Itan descreveu ter visto corpos com mutilações severas. “[Corpo] estava sem cabeça, corpos totalmente desconfigurados mesmo […] sem rosto, sem a metade do rosto, sem braços, corpos sem perna”, relatou.

O fotógrafo também destacou a presença de ferimentos por arma branca: “E o que me chamou muita atenção são muitos corpos com facadas, tem muitas fotos que dá pra ver que foi arma, efeito de arma branca, entende?”

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A experiência deixou marcas profundas em Itan, que mencionou o “cheiro da morte” como algo persistente: “Onde eu estou agora, não tem mais corpo, mas o cheiro fica até no psicológico”.

Na quarta-feira (29/10), o Ministério Público Federal solicitou ao Instituto Médico Legal do Rio acesso em até 48 horas a todos os dados da perícia dos corpos das vítimas. O MPF também exigiu que o governo estadual demonstre ter seguido as determinações do Supremo Tribunal Federal na ADPF 635, ação que questionava a letalidade policial no estado.

Itan, que já havia documentado a operação no Jacarezinho em maio de 2021, quando 28 pessoas morreram, comparou as duas situações: “Pensei que ali tinha feito a pior operação da minha vida. Nada comparado ao que vi aqui hoje”.

“Fiquei muito impactado com a brutalidade. A dor dos familiares, mães desmaiando, esposas grávidas chorando, pais revoltados…. Eu poderia ser um desses. Se eu não conhecesse a fotografia, de repente poderia ser um deles”, declarou o fotógrafo, fundador do projeto Olhar Complexo, que oferece aulas gratuitas de fotografia para jovens da comunidade.

Nascido no Recife, Itan mudou-se para o Complexo do Alemão aos 10 anos com sua família. Começou a fotografar em 2008, através de um curso oferecido pelo governo federal na comunidade.

Sobre a eficácia da operação, o fotógrafo comentou: “Se a sociedade achou que ganhou, que venceu, acho que todo mundo perde”. E acrescentou: “Eu te garanto que quando morre alguém lá no tráfico, tem uns dois ou três para entrar de novo.”

Para ele, a política de segurança nas comunidades permanece baseada na violência: “Infelizmente, é sempre através da mira do fuzil. Nunca é através de uma ação social, de educação, de moradia, de saúde ou de cultura, que é o que a favela precisa para resgatar essas pessoas.”

“Meu olhar é sempre direcionado para o lado positivo que existe nas favelas e a pluralidade que existe, a cultura que existe na favela. Mas, infelizmente, sabemos que a realidade da favela não é só isso”, afirmou Itan.

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