O preço das passagens aéreas entrou nos holofotes nos últimos dias influenciado pela guerra no Oriente Médio, que atrapalhou o suprimento global de petróleo pelo Estreito de Ormuz. A escassez acertou em cheio indústrias pelo mundo, incluindo a aviação. Ao lado dos fatores geopolíticos, os contratos de compra de querosene de aviação (QAV) e a carga tributária sobre ele encarecem os preços finais dos bilhetes no Brasil.

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“O combustível oscila entre 30 a 35% do custo de todas as companhias aéreas, mas muito mais as brasileiras por conta da pressão tributária que nós temos, o que reduz bastante a competitividade. Então, o QAV é, sim, um custo significativo no preço das passagens”, explica Amandio Furtado, professor de Aviação da Universidade Anhembi Morumbi, com 30 anos de experiência na área. “Estimo algo em torno de 5 a 10% de aumento imediato nos custos das companhias aéreas brasileiras com toda essa volatilidade no mundo com relação ao petróleo.”
A Petrobras produz 80% do QAV consumido aqui, mas o País ainda depende em parte da importação. De acordo com a Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata), o preço do combustível das aeronaves dobrou desde que o conflito eclodiu, em 28 de fevereiro, com ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.
Para a Iata, isso torna inevitável o aumento das passagens aéreas globalmente. No Brasil, a Azul já reajustou seus bilhetes ao menos quatro vezes nas últimas três semanas, em decorrência do conflito, subindo as tarifas em torno de 20% nesse período.
As passagens no País como um todo aumentaram 5,9%, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que divulgou o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo – 15 (IPCA-15) na quarta-feira, 26. Os bilhetes aéreos foram o subitem de maior impacto individual sobre o índice, com uma contribuição de 0,05 ponto porcentual.
Latam e Gol informaram que irão se pronunciar sobre o assunto por meio da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear). A entidade não comentou sobre os dados recentes de aumento de passagem aérea. Em nota, a Abear disse que se preocupa com a volatilidade do preço do barril do petróleo e que acompanha os diálogos com o governo federal.
Negociação e possíveis cenários
O Ministério de Portos e Aeroportos (Mpor) e a Secretaria Nacional de Aviação Civil (SAC) estão conversando com o Ministério da Fazenda para encontrar soluções. Entre as possibilidades estão a redução temporária de tributos incidentes sobre o QAV e a diminuição do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para as empresas aéreas ou do Imposto de Renda sobre operações de leasing de aeronaves (contratos de aluguel de longo prazo).
O professor de Aviação da Anhembi Morumbi imagina um aumento mínimo entre 3% e 5%, se as negociações entre os lados envolvidos na guerra levarem a um rápido cessar-fogo definitivo e à reabertura do Estreito de Ormuz. Furtado imagina dois outros cenários possíveis: o conflito se estende sem danificar a infraestrutura de produção e distribuição do petróleo – “após a guerra terminar, as coisas voltam ao normal muito rapidamente”.
“Se houver um prolongamento (do conflito), afetando a infraestrutura de produção e distribuição, as companhias aéreas não vão conseguir segurar isso. A gente pode ter até um reflexo maior do que no período pandêmico, em que a gente teve um aumento significativo dos custos das companhias. Isso foi repassado para os preços e levamos anos para nos recuperar desse impacto. Nesse cenário pessimista, as passagens podem subir até 30% em médio prazo, de quatro a cinco meses.”
A guerra no Oriente Médio, lembra o especialista, também muda a dinâmica de contratos de hedge, acordos em que a empresa aérea se compromete com a distribuidora a comprar uma quantidade determinada de combustível e paga antecipadamente para garantir o valor acordado e melhorar a margem operacional.
“Se a guerra se alongar, nenhuma companhia aérea vai conseguir preços baixos, porque a distribuidora, sabendo de tudo o que está acontecendo no mundo, não vai querer assumir compromissos futuros a um preço muito baixo. Então, vai jogar o preço lá para cima e as companhias vão ter de se sujeitar a esse tipo de realidade com preços extremamente altos. Automaticamente, repassam isso para o público consumidor.”