Um ano depois do envenenamento de um bolo de reis que levou sete pessoas da mesma família para o hospital e causou a morte de três delas, a Polícia Civil concluiu a investigação sobre a origem do veneno. O arsênio foi comprado através de um site, de uma empresa do Rio de Janeiro. A comercialização não é considerada ilegal. Por isso, não houve indiciamentos.

Foto: Sofia Villela/Ascom IGP
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O crime aconteceu em Torres, no litoral norte. A responsável foi a nora da mulher que fez o bolo. Deise Moura dos Anjos, chegou a ser presa por colocar arsênio na farinha usada por Zeli dos Anjos para fazer o doce. Porém, a suspeita foi encontrada morta na própria cela na Penitenciária Estadual de Guaíba na manhã do dia 13 de fevereiro deste ano. O marido havia feito pedido de divórcio um dia antes. Manuscritos foram encontrados no local.
Com a morte da principal suspeita, a Polícia Civil remeteu o inquérito a partir das apurações realizadas até o falecimento de Deise e ninguém foi indiciado.
Faltava apenas a apuração da origem do veneno. O inquérito que foi remetido à Justiça nesta segunda-feira (22).
“Tal venda não é proibida e ainda esta pendente de regulamentações. Há inclusive dois projetos de lei nº 985/2025 e n° 1381/2025 que foram propostos com o objetivo de corrigir essa brecha, proibindo a venda de substâncias arsenicais a pessoas físicas e criando um controle mais rigoroso sobre a identificação do comprador e a justificativa técnica de uso”, explica a delegada Milena Simioli, titular da Delegacia de Polícia de Proteção aos Direitos do Consumidor (Decon).
Assim, a empresa não será responsabilizada criminalmente. Ela pode, ainda, ter que responder por violação administrativa em relação ao controle pela Anvisa.
Relembre o caso
Era de conhecimento da família que Zeli fazia o bolo de reis para confraternizações. A receita foi preparada na casa da mulher, em Arroio do Sal, e levada para Torres para completar a mesa da reunião no dia 23 de dezembro do ano passado, antevéspera de Natal.
O que não se sabia era que a farinha estava contaminada com arsênio, elemento venenoso que causou a morte de duas irmãs de Zeli: a professora de Canoas Maida Berenice Flores da Silva, de 58 anos, que chegou praticamente sem vida ao Hospital Nossa Senhora dos Navegantes; e Neuza Denise da Silva dos Anjos, 65, que morreu no dia seguinte. A filha de Neuza, Tatiana Denize Silva dos Anjos, 43, faleceu horas antes da mãe em função do envenenamento.
Zeli e o neto, filho de Deise, de 10 anos na época, ficaram internados na casa de saúde. A sogra da investigada teve alta cinco dias após a mulher se presa, apontada como a principal suspeita, já que a Polícia havia descartado a hipótese de intoxicação alimentar.
A idosa chegou a receber visita da nora na casa de saúde, mas nada suspeito foi encontrado pela perícia nos itens levados por Deise. No entanto, a mulher pesquisava sobre o veneno há meses na internet, e a Polícia encontrou inclusive uma nota fiscal que comprovou a compra da substância.
Na época, o delegado Marcos Veloso, que investigou o caso, descreveu Deise como uma pessoa “fria e calculista”. “Com resposta sempre na ponta da língua.”
Com o número de mortes, iniciou-se a desconfiança de que Paulo Luiz dos Anjos, que morreu em setembro de 2024 após consumir bananas e leite em pó levados pela nora, também foi assassinado por arsênio – o que se comprovou com exumação e análise pericial.
Menos de um mês após a morte das irmãs e da sobrinha de Zeli, a perícia confirmou que a farinha usada no preparo do bolo tinha uma concentração de 65g de arsênio por quilograma, cerca de 2,7 mil vezes maior do que a encontrada no próprio alimento. Para se ter uma ideia da quantidade, o professor Rafael Linden, do mestrado de Toxicologia da Universidade Feevale, informou à reportagem, na época, que é necessário a partir de 100mg de arsênio para intoxicar alguém.
O corpo com a maior concentração de arsênio foi o de Tatiana, com 385mg, seguido do de Paulo Luiz dos Anjos, com 264mg. A delegada Sabrina Deffente disse que Deise fez pesquisas por “veneno”, “veneno para matar pessoa”, até encontrar uma reportagem sobre Aqua Tofana, um produto criado no século 17 para que esposas eliminassem seus maridos abusivos.
“Ela pesquisou uma receita de veneno que fosse inodora, sem gosto, e chega então em uma composição química que ela tenta montar [Aqua Tofana]. A gente percebeu isso através das compras que ela efetuou em sites, e a partir dessa combinação de elementos, ela começa a tentar envenenar familiares”, disse.
Com o desenrolar da investigação, a Polícia descobriu que o bolo de reis levado por Zeli a Torres era pra ser consumido apenas por três pessoas: a sogra de Deise, Maida, que morreu no dia 23, e o marido desta última, que chegou a ser levado ao hospital e liberado na sequência. Como outros parentes se juntaram à confraternização, o caso “fugiu do controle de Deise”.
No entanto, cerca de uma semana antes da tragédia na última antevéspera do Natal, ela teria tentado envenenar o marido, Diego Silva dos Anjos, e o filho, que precisaram de atendimento médico após uma suposta intoxicação alimentar. Deise foi descrita como serial killer pelos delegados na época, em função das evidências que apontavam para a moradora de Nova Santa Rita.
(*) Colaborou: Nadine Funck