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Caso do maníaco que agia na Feevale traz traumas do passado para famílias de escola primária em Novo Hamburgo

"Mesmo sem contato físico, o dano emocional é significativo", expõe psicóloga e sexóloga

Publicado em: 19/11/2025 às 21h:27 Última atualização: 20/11/2025 às 12h:16
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A descoberta de que um funcionário e aluno de engenharia civil filmava alunas durante o banho na Universidade Feevale, em Novo Hamburgo, acabou abrindo feridas do passado em famílias de uma escola tradicional da cidade, de ensino médio e fundamental.

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Imagens mostram como funcionário filmava alunas durante o banho na Feevale | abc+



Imagens mostram como funcionário filmava alunas durante o banho na Feevale

Foto: Reprodução

Há a preocupação que o acusado, Fernando Gomes Stacke, 43 anos, demitido da Feevale após o flagrante, possa ter compartilhado imagens não só de universitárias captadas em gravações clandestinas, como também de um público infantil do colégio onde trabalhou de 2008 a 2019.

“Foi uma situação muito dolorosa, e esperamos apenas que a polícia e a justiça possam responsabilizar a pessoa envolvida”, diz uma advogada de 57 anos ao recordar do assédio contra a filha e colegas na ala infantil da escola hamburguense há 14 anos.

Em 2011, a advogada estava entre os pais que denunciaram, à direção, que um homem de óculos espiava as crianças no banheiro feminino. Na mesma época, um perfil do Facebook chamava meninas para irem ao sótão da instituição sob convite de receberem cuidados com as unhas.

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Arquivos privados

A filha da advogada tinha 9 anos na época. Hoje aos 27 anos, com formação profissional superior, ela não imaginava que o então funcionário da escola havia pego um pendrive dela com arquivos privados. Ficou sabendo em agosto deste ano pela 1ª Delegacia de Polícia de Novo Hamburgo, que apreendeu o dispositivo após o flagrante na Feevale, em março.

O pendrive tem dezenas de fotos da infância da hamburguense com roupas de banho na praia, assim como de amigas da mesma faixa etária, além de imagens da família e dados pessoais. A vítima prefere não falar.

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“Minha filha ficou bastante abalada. Preferimos não mexer nessa ferida. Já foi doloroso ir agora à delegacia”, comenta a mãe. Para o delegado da 1ª DP, Tarcísio Kaltbach, a escola foi omissa, pois não levou o caso à Polícia. Como não houve indiciamento em relação às crianças da época, em razão das provas apagadas pelo tempo, o nome da instituição não é publicado.

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“Uma violência”, define especialista

A acusação contra Stacke usa os conceitos de voyeurismo na forma doentia e criminosa, que é espiar intimidade de outra pessoa sem permissão, e também o crime de stalking, como se define perseguição e invasão da privacidade por vários meios, entre eles as redes sociais.

“Fantasia sexual envolvendo observação pode existir, mas, quando convertida em prática sem o consentimento, torna-se uma violência”, expõe a psicóloga e sexóloga Caren Gutheil Dias, que trata tanto de vítimas quanto de pessoas compulsivas nas práticas invasivas.

Caren Dias | abc+



Caren Dias

Foto: Arquivo pessoal

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Caren observa que as vítimas tendem a sofrer traumas profundos. “O impacto psicológico e social influencia sobremaneira na autoestima, segurança emocional e saúde mental das vítimas. São sentimentos como vergonha, culpa, medo, ansiedade. Dificuldades de intimidade também são comuns.”

Ela acrescenta que as consequências são ainda mais intensas em criança ou adolescente. “Mesmo sem contato físico, o dano emocional é significativo porque o corpo e a privacidade foram violados.”

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A psicóloga explica que o tratamento à vítima, de modo geral, busca a ressignificação do trauma como forma de trazer uma melhor qualidade de vida e das relações. Por outro lado, segundo ela, não é rara a procura pela psicoterapia de homens com o distúrbio. “Quase sempre, vêm por questões de algum transtorno de ansiedade, dificuldades nos relacionamentos íntimos, ou até por alguma disfunção sexual.”

Caren frisa a relevância de abordar o tema. “Falar sobre isso não é para gerar polêmica, mas conscientizar a respeito de limites, responsabilidade afetivo-sexual e a importância do consentimento. Quanto mais educação e diálogo, menos violência e importunação sexual. Importante abordarmos de maneira simples, clara e objetiva com os jovens e adultos, sem erotização, mas de forma madura e com a devida empatia que o tema requer.”

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Entenda o caso

Na noite de 24 de março deste ano, uma aluna de 26 anos descobriu que era filmada durante o banho na Feevale por um telefone celular camuflado acima do chuveiro.

O aparelho, de Fernando Stacke, tinha dez gravações de estudantes no box do chuveiro no banheiro feminino próximo ao laboratório onde ele trabalhava.

A jovem que descobriu havia sido filmada também na semana anterior. Uma colega de 20 anos tinha sido captada nua oito vezes desde novembro do ano passado.

No celular, havia ainda fotos de partes íntimas de alunas, feitas por baixo da mesa. Stacke também havia fotografado, às escondidas, o decote da blusa de uma funcionária da Unisinos durante formatura no campus de Porto Alegre.

Assim que descoberto, Stacke deixou o apartamento onde morava, em Campo Bom, e foi morar com parentes em Canela. É onde a 1ª DP de Novo Hamburgo apreendeu, no fim de abril, outro celular do acusado, que ele usou para apagar arquivos da nuvem do primeiro aparelho apreendido. Na mesma casa, foram apreendidos 14 pendrives, entre eles o da ex-aluna da escola hamburguense.

No fim de setembro, o delegado Tarcísio indiciou Stacke 17 vezes e pediu a prisão preventiva. O promotor Fabiano Redivo da Silva fez a denúncia por apenas dois crimes e pediu arquivamento da maioria das acusações, além de emitir parecer contrário à prisão.

O juiz Guilherme Machado da Silva decidiu, no fim de outubro, de acordo com o Ministério Público. Tornou Stacke réu de crimes com pena máxima prevista de dois anos e negou a prisão.

As advogadas do réu, Daniele Santos e Mariana Mazoni, dizem que não falam sobre o processo sob argumento de que tramita sob segredo de justiça.

Imagens mostram como funcionário filmava alunas durante o banho na Feevale
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