*Alerta de conteúdo sensível: esta matéria contém relatos de violência doméstica.
O feminicídio que vitimou Karizele de Oliveira Sena, 30 anos, na madrugada deste sábado (24) em Novo Hamburgo, ganhou novos contornos a partir do relato do irmão da vítima, o supervisor de operações logísticas Tiago Sena, 41. Ele descreveu a sequência de violência vivida pela irmã horas antes de ser morta a facadas dentro de casa, no bairro Industrial, e falou sobre um histórico de conflitos e agressões no relacionamento.

Foto: Arquivo pessoal
Segundo Sena, a sobrinha de 13 anos confirma a escalada de violência entre a noite de sexta-feira (23) e a madrugada de sábado. O casal teria saído para uma festa e, ao retornar para casa, iniciou uma discussão verbal.
Durante a briga, o homem teria dado uma cabeçada na mulher, que passou a sangrar pelo nariz. Em seguida, Kaka, como era chamada pelos familiares, foi para o quarto com as duas filhas enquanto o agressor saiu para a rua.
SAIBA MAIS: Mulher é morta a facadas pelo companheiro na frente das duas filhas em Novo Hamburgo
“Não demorou muito tempo, ele voltou com uma faca e começou a dar facadas nela”, relata o irmão. Diante do ataque, a filha mais velha pegou a irmã bebê, de apenas 9 meses, e saiu correndo para a rua, pedindo ajuda a uma vizinha. O homem fugiu logo após.
CONFIRA AINDA: Mulher morre atropelada na calçada após colisão entre carros em frente a churrascaria de São Leopoldo
Ainda conforme Sena, mesmo ferida, Kaka tentou escapar. “A minha irmã conseguiu ir da porta do quarto das crianças até a porta de saída. Ainda chamou a vizinha, mas não aguentou mais e caiu ali mesmo”, conta.
A vítima foi encontrada caída na sala da residência (porta de saída) e morreu antes da chegada do socorro. De acordo com a Polícia Civil, ela foi atingida por oito golpes de faca.
O crime ocorreu por volta das 5 horas da madrugada, na esquina da Avenida Primeiro de Março com a Rua Ana Neri.
“Quebrou os dentes dela com uma garrafa de uísque”
Tiago Sena afirma que o relacionamento da irmã era marcado por idas e vindas e episódios recorrentes de violência nos últimos três anos. “Eles estavam nesse vai e volta, só brigam. Uma vez eu briguei com ele, só que ela voltou pra ele e eu não quis mais me meter”, recorda.

Foto: Divulgação
Em outro episódio, segundo o irmão, Karizele foi agredida com extrema violência. “Uma outra vez ele bateu nela, quebrou os dentes dela com uma garrafa de uísque. Ela veio para a mãe, depois eles voltaram de novo”, explica. Kaka e o agressor eram naturais de Butiá, onde ainda hoje os familiares residem.
FIQUE POR DENTRO: Acusado de balear vizinho por rixa política é absolvido em Novo Hamburgo
O histórico de agressividade, segundo Sena, não se limitava à irmã. Ele destaca que certa vez o cunhado chegou a tentar agredir a sogra. “Uma vez a mãe estava em Novo Hamburgo, na casa deles, e ele tentou dar um soco dela. Desde então, minha mãe também não fala mais com ele, mas a minha irmã voltou pra ele. A gente avisava para ela que isso iria acontecer”, desabafa. “Nós estamos destruídos”, completa.
Histórico policial de violência doméstica
O delegado Alexandre Quintão, da Delegacia da Mulher de Novo Hamburgo, confirma o histórico de violência doméstica.
“Eles tinham histórico de ocorrências da vítima contra o suspeito, porém voltavam a se relacionar e morar juntos. O último registro entre eles foi em 2024, uma agressão do suspeito contra a vítima”, pontua. Nesse último registro, a vítima chegou a solicitar medida protetiva, que expirou o prazo e não foi renovada.
Após cometer o crime, o homem deixou o local a pé e, até o começo da tarde deste sábado, seguia foragido. A Brigada Militar realiza buscas.
Kaka gostava de pagode e tinha amor incondicional pelas filhas
O irmão também falou sobre quem era Karizele fora da violência que marcou os últimos anos de sua vida. Segundo Tiago Sena, a irmã amava pagode e tinha uma ligação profunda com as filhas. “As filhas eram a vida dela”, disse.
Ele descreve Kaka como uma pessoa extremamente ligada à família, até o início do relacionamento com o agressor. “Ela era muito família, morava com meu pai e minha mãe em Butiá. Depois que o meu pai faleceu, ela ficou de vez com esse cara. Depois que começou esse relacionamento, ela ficou um pouco mais distante”, finaliza.
Onde buscar ajuda
Mulheres em situação de violência doméstica podem buscar ajuda de forma gratuita e sigilosa. Em casos de emergência, a orientação é ligar para o 190, da Brigada Militar. Também é possível registrar ocorrência em qualquer Delegacia de Polícia, especialmente nas Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deam).
Outra opção é o Ligue 180, Central de Atendimento à Mulher, que funciona 24 horas por dia, inclusive aos fins de semana e feriados. O serviço oferece orientação, acolhimento e encaminhamento para a rede de proteção.