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FEMINICÍDIO

"Ele foi preso na hora errada": Família relata sonhos interrompidos e mudança de cidade da adolescente morta a facadas pelo namorado

Corpo de Mirella Santos da Silva, de 15 anos, foi encontrado com as mãos amarradas e marcas de facadas no banheiro da casa do namorado, em Sapucaia do Sul, na última terça-feira (20)

"Ele foi preso na hora errada": Família relata sonhos interrompidos e mudança de cidade da adolescente morta a facadas pelo namorado
Publicado em: 23/01/2026 às 16h:34 Última atualização: 24/01/2026 às 13h:45
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Sorridente, brincalhona, apaixonada por dança e sonhadora: para o futuro, queria ser tatuadora, por adorar desenhar, ou especialista em fertilização, para ajudar mulheres com dificuldade em engravidar. Essa era Mirella Santos da Silva, de 15 anos, encontrada sem vida na casa do namorado, em Sapucaia do Sul, na última terça-feira (20).

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Mirella Santos da Silva foi morta pelo namorado aos 15 anos | abc+



Mirella Santos da Silva foi morta pelo namorado aos 15 anos

Foto: Arquivo pessoal

O corpo estava no banheiro da residência localizada no Beco José Joaquim, conhecido como Beco do Sadi, no bairro Cohab. As mãos dela estavam amarradas e o local tinha marcas de sangue. Mirella foi atingida por três facadas: uma no braço e duas no pescoço.

Segundo o delegado Marco Guns, titular da 1ª Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (1ª DP) de Sapucaia do Sul, que investiga o caso, a suspeita é que, quando foi achada, ela já estaria morta há aproximadamente 24 horas.

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Eduardo Albernaz da Silva, de 25 anos, confessou o crime e foi preso em flagrante. Em depoimento, alegou legítima defesa — mas a versão levanta questionamentos, já que Mirella estava imobilizada. Foi ele mesmo quem indicou onde a menina estava, após ligar para um familiar e relatar que havia “feito besteira”.

Mirella tinha medida protetiva contra o agressor há cerca de um mês.

Mudança de vida após ameaça do namorado

Sandryelly Santos dos Santos, de 30 anos, apresenta a irmã caçula com carinho. “Ela estudava, iria começar um estágio em abril e estava muito feliz com isso. Planejava morar com a minha filha, que é um ano mais nova que ela, quando as duas fossem mais velhas”, conta. “Vendeu bolo de pote e chegou a fazer uns bicos como manicure para ajudar em casa e comprar as coisinhas dela.”

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Agora, destaca a irmã, as lembranças vêm “com muita dor e bastante lágrimas no rosto”.

Mirella era a mais nova entre cinco irmãos. Morava com o pai em Sapucaia do Sul até dezembro, quando foi agredida e ameaçada por Eduardo. “Ele queria o celular dela e ela não quis dar. Aí ele a agrediu e apertou o pescoço dela”, relata Sandryelly, que diz ter ficado sabendo do namoro da irmã depois desse episódio.

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Nesse dia, a adolescente conseguiu se desvencilhar do ataque e foi para casa, mas logo depois o homem apareceu no local. Ele teria pedido para conversar, porém, o pai dela interviu e o mandou embora. Não satisfeito, o agressor teria ameaçado matar os dois. 

O pai, então, levou a jovem até a delegacia, onde registraram um boletim de ocorrência contra o homem e solicitaram medida protetiva de urgência em favor dela. O segundo passo foi a mudança: pensando na segurança da menina, se mudaram às pressas para Cachoeirinha, onde se se abrigaram na casa da namorada do pai dela. Depois, alugaram uma casa em Canoas.

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Mirella bloqueou o número de celular de Eduardo, mas não foi o bastante. A irmã conta que, através de outro contato, ele seguia tentando falar com ela. Ligou chorando e mandava mensagens dizendo que havia mudado, e que se ela não atendesse as chamadas “iria ver só”.

“Ele foi preso na hora errada”

Na última segunda-feira (19), Mirella estava na casa da mãe, em Canoas. A mulher saiu para trabalhar e depois foi até a Secretaria de Educação, onde tentou conseguir uma vaga em uma escola da cidade, já que a jovem precisava de transferência. Quando voltou para a residência, não encontrou a filha.

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As mensagens não chegavam até ela e as tentativas de ligações eram interrompidas pela mensagem que informava que o telefone estava desligado. Preocupada, a família se mobilizou e procurou os amigos de Mirella para tentar informações sobre o paradeiro dela.

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Mas foi só na manhã de terça que as notícias começaram a chegar. As matérias que afirmavam que o corpo de uma jovem havia sido encontrado em Sapucaia do Sul aumentaram a aflição dos familiares, que resolveram ir até a cidade. Quando o pai de Mirella e a namorada dele já se deslocavam, receberam a ligação de uma ex-vizinha, confirmando que a vítima era a filha.

Sandryelly salienta que as pessoas próximas a jovem acreditam que, de tanto o homem insistir, Mirella teria ido até ele para ouvir o que tinha a dizer.

“Sinceramente, como irmã, penso que ele foi preso na hora errada. Era para ele ter sido preso no momento em que ela chegou na delegacia com o pescoço todo roxo, após ele ter enforcado ela. Se isso tivesse acontecido, ela estaria agora com a gente”, desabafa.

Em meio ao luto, família enfrenta boatos e informações falsas

Após a confirmação da morte, a família passou a acompanhar o que saía na internet sobre o caso. “A primeira página que vimos, dizia que ela tinha levado facadas no rosto, no tórax, nas costas e tinha tido as mãos decepadas. Foi horrível, meu irmão surtou, minha mãe desmoronou, porque até então só sabíamos que nossa bebê tinha sido encontrada morta, e descobrir que tinha sido daquele jeito cruel, foi devastador para gente.”

A informação que perturbou a família, contudo, não era real. “Eu só descobri que era mentira, quando liguei para o necrotério, para perguntar se as mãos dela chegaram lá com o corpo ou não. Foi onde me disseram, com todo respeito e carinho, que a informação não procedia.”

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Nos comentários das publicações, a família afirma que tem encontrado comentários que culpabilizam a vítima e tentam justificar o crime, o que tem ampliado o sofrimento. “Ela não era essa pessoa que estão falando, não estava pedindo por isso.”

Até mesmo informações de que supostamente a jovem teria retirado a medida protetiva que tinha contra o agressor se espalharam. “É mentira. Ela recebeu uma mensagem perguntando se precisava de uma ronda da patrulha naquele momento e ela negou, disse que não tinha necessidade porque estava longe dele.” 

A reportagem contatou a Brigada Militar, que confirmou que é possível que a vítima recuse uma patrulha sem cancelar a decisão judicial que impõe restrições ao agressor. Para que uma medida protetiva seja cancelada, é necessário que a própria vítima solicite formalmente a revogação ao juiz do caso, já que apenas o magistrado pode decidir, após avaliar a segurança da vítima e a voluntariedade do pedido.

“Ela apenas acabou caindo nas mãos erradas”, lamenta a irmã.

Investigação

A despedida de Mirella atrasou porque o documento da jovem não foi encontrado. “Não foi achado nada com ela. O celular, o documento e as chaves de casa… tudo sumiu.”

Como o RG dela foi emitido em Santa Catarina, onde morou com a mãe durante parte da infância, não havia registro digital nos bancos de dados do Rio Grande do Sul. A situação fez com que a liberação do corpo demorasse uma noite a mais para acontecer.

O corpo de Mirella foi sepultado no Cemitério Municipal Santo Antônio, de Canoas, na manhã de quinta-feira (22).

O caso ainda é investigado pela Polícia Civil, que agora foca em entender o histórico do relacionamento e as circunstâncias que levaram a jovem até a casa do suspeito. Os laudos da perícia também são aguardados.

O agressor já possuía antecedentes por tráfico de drogas e roubo de veículos.

Até a tarde desta sexta-feira (23), os pertences de Mirella não haviam sido encontrados.

DAILY NEWS NH | As principais notícias desta sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Onde buscar ajuda

Mulheres em situação de violência doméstica podem buscar ajuda de forma gratuita e sigilosa. Em casos de emergência, a orientação é ligar para o 190, da Brigada Militar. Também é possível registrar ocorrência em qualquer Delegacia de Polícia, especialmente nas Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deam).

Outra opção é o Ligue 180, Central de Atendimento à Mulher, que funciona 24 horas por dia, inclusive aos fins de semana e feriados. O serviço oferece orientação, acolhimento e encaminhamento para a rede de proteção.

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