Os números de feminicídio no Rio Grande do Sul acendem um alerta. Dados divulgados pela Secretaria de Segurança Pública (SSP/RS) mostram que o Estado registrou um aumento de 10% nos casos de feminicídio, passando de 73 mortes em 2024 para 80 ocorrências em 2025. O crescimento reforça o desafio permanente das forças de segurança e da rede de proteção no enfrentamento à violência de gênero.

Foto: Polícia Civil
Na contramão do cenário estadual, a região atendida pela 3ª Delegacia de Polícia Regional Metropolitana (DPRM), que engloba 16 municípios dos vales do Sinos, Paranhana e Caí, apresentou redução nos casos de feminicídios consumados. Em 2025, foram quatro casos, contra seis em 2024, uma queda de aproximadamente 33%.
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Em 2025, os feminicídios consumados na região ocorreram em Parobé (dois casos), Novo Hamburgo (um) e São Leopoldo (um). Em todos os registros, a motivação segue um padrão já conhecido pelas autoridades, que é a violência doméstica praticada por ex-companheiros que não aceitam o fim do relacionamento.
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Apesar da redução, os dados mostram que a violência contra a mulher continua sendo um problema. “O maior desafio é alcançar as mulheres que sofrem violência e não procuram ajuda”, resume a delegada Michele Mendes Arigony, titular da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) de São Leopoldo.
Tentativas de feminicídio e ameaças crescem
Embora os feminicídios consumados tenham apresentado queda na região, outros indicadores de violência doméstica aumentaram. Nos nove municípios mais populosos da 3ª DPRM (São Leopoldo, Novo Hamburgo, Estância Velha, Campo Bom, Sapiranga, Dois Irmãos, Ivoti, Portão e Parobé), as tentativas de feminicídio cresceram 41%, passando de 17 casos em 2024 para 24 em 2025.
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O número de ameaças contra mulheres permaneceu elevado e estável, com mais de 2.200 registros em cada ano, totalizando 4.500 mulheres ameaçadas em dois anos. Já os casos de lesão corporal no âmbito da violência doméstica apresentaram leve redução, de 1.243 registros em 2024 para 1.213 em 2025, uma queda de pouco mais de 2%. Ainda assim, os números seguem altos e reforçam a persistência do problema.
São Leopoldo se destaca, mas cenário exige cautela
Entre os municípios da região, São Leopoldo chama atenção pela redução expressiva dos casos. Foram quatro feminicídios em 2024, contra apenas um em 2025, uma queda de 75%. A delegada Michele Arigony atribui o resultado ao fortalecimento do atendimento especializado e à atuação integrada da rede de proteção.

Foto: Isaías Rheinheimer/GES-Especial
Segundo ela, o dado mais preocupante está fora das estatísticas de mortes. Em 94,5% dos feminicídios registrados no ano passado no RS, as vítimas não tinham medida protetiva ativa, e 74,3% nunca haviam registrado ocorrência policial e, por isso, na visão da delegada, o desafio está justamente em conscientizar as mulheres vítimas de violência sobre a importância de denunciar o agressor.
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No único feminicídio registrado em São Leopoldo em 2025, a vítima havia feito um registro anterior por violência doméstica, mas optou por não representar contra o agressor nem solicitar medida protetiva. “Por isso a importância de registrar ocorrência e pedir a medida protetiva. Ela reduz a vulnerabilidade da mulher e afasta o agressor”, explica a delegada. O cenário se repete em outros casos. Em 2024, quando São Leopoldo registrou quatro feminicídios, nenhuma das vítimas tinha medida protetiva ativa. Todas foram mortas dentro de casa.
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A delegada destaca ainda que a violência doméstica, na maioria das vezes, ocorre de forma silenciosa, dentro do ambiente familiar, sem testemunhas ou vestígios aparentes. “A palavra da vítima tem valor. Mesmo sem provas físicas, o registro é fundamental para interromper o ciclo de violência e responsabilizar o agressor”, afirma.
Parobé reage e criar da Secretaria da Mulher: em poucos meses 100 mulheres foram atendidas
Com dois feminicídios registrados em 2025, Parobé foi o município da região com maior número de casos no período e decidiu reagir com políticas públicas estruturantes. Em agosto de 2025, o município criou a primeira Secretaria da Mulher do Vale do Paranhana. Desde a implantação, a pasta realizou cerca de 100 atendimentos, evidenciando a demanda reprimida por acolhimento especializado.

Foto: Joceline Silveira/GES-Especial
A Secretaria atua na prevenção, no enfrentamento da violência e na promoção da autonomia feminina, com rodas de conversa, oficinas de defesa pessoal, cursos profissionalizantes, campanhas educativas e ações em escolas. O trabalho ocorre de forma integrada com a Delegacia de Polícia, Brigada Militar e Ministério Público. Para a secretária da Mulher, Ana Elisa de Lima, o papel da pasta vai além do atendimento imediato. “Nosso trabalho é acolher, orientar e garantir direitos, mas também atuar fortemente na prevenção, mostrando que violência não é demonstração de amor e que nenhuma mulher está sozinha”, destaca.
“Depois da morte, não existe reparação possível”: Desafio estrutural e falhas na aplicação da lei
Para a advogada criminalista Caterine Rosa, que atua como assistente de acusação em casos de feminicídio no Vale do Sinos, a raiz do problema está na falta de aplicação integral da Lei Maria da Penha, que completa 20 anos em 2026. Segundo ela, a violência que culmina no feminicídio começa muito antes, dentro de casa, e só chega ao conhecimento do Estado quando a vítima consegue identificar o abuso, vencer o medo e buscar ajuda. “Muitas mulheres não chegam à delegacia por vergonha, culpa ou por já terem sido desacreditadas”, afirma.
Caterine aponta falhas recorrentes na concessão e fiscalização das medidas protetivas, além da resistência à aplicação de instrumentos previstos em lei, como a tornozeleira eletrônica, que não é uma punição, mas uma medida preventiva. “A Lei Maria da Penha é uma das legislações mais avançadas do mundo, mas é aplicada pela metade. O Estado falha quando não implementa políticas públicas, não fiscaliza medidas e não oferece estrutura para a justiça restaurativa”, avalia.
Ela lembra que a própria Lei Maria da Penha prevê acompanhamento psicológico do agressor e programas de responsabilização, mas que, na prática, esses mecanismos raramente são executados. “Depois da morte, não existe reparação possível. A prevenção precisa acontecer antes”, resume.
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O delegado Juliano Ferreira, titular do Departamento de Proteção a Grupos Vulneráveis (DPGV), avalia que o enfrentamento ao feminicídio exige mais do que repressão policial. “É uma questão estrutural, ligada ao machismo e a fatores emocionais. A polícia é fundamental, mas não resolve sozinha”, afirma. Segundo ele, a Polícia Civil tem investido em resposta rápida, qualificação das delegacias da mulher e na criação de equipes especializadas com atendimento 24 horas para grupos vulneráveis. Ao mesmo tempo, destaca a importância da prevenção e da capacitação de profissionais da educação, saúde e assistência social para identificar sinais de violência e acionar a rede de proteção. “O nosso maior desafio é chegar naquela mulher que ainda não procurou ajuda. Quanto mais pessoas qualificadas na rede, maiores são as chances de interromper o ciclo antes que ele termine em morte”, pontua.
Judiciário aponta limites da repressão penal e reforça necessidade de prevenção
A avaliação de que o enfrentamento à violência doméstica vai além do endurecimento penal também é compartilhada pelo Judiciário. Para a juíza Andrea Hoch Cenne, titular do Juizado de Violência Doméstica contra a Mulher de Novo Hamburgo, o aumento no número de prisões e o agravamento das penas não têm sido suficientes para conter o avanço dos crimes. Segundo ela, o número de prisões por esse tipo de crime no RS, por exemplo, saltou 99% em oito anos, passando de 1.341 no primeiro semestre de 2017 para 2.677 no mesmo período de 2025. Em alguns municípios, a quantidade de prisões por violência doméstica já supera a soma das prisões por todos os outros crimes.
Atualmente, apenas no Juizado de Violência Doméstica contra a Mulher de Novo Hamburgo, há 41 acusados presos. Ainda assim, conforme a magistrada, o cenário não se traduz em redução dos casos. “A causa dos delitos contra a mulher é complexa, fundada em questões históricas e culturais, arraigada no machismo estrutural e no avanço recente de ideias conservadoras e retrógradas, que reforçam os estereótipos de gêneros. Desse modo, o aumento de pena não constitui forma eficaz de prevenção”, analisa.

Foto: Poder Judiciário
Para a juíza, o enfrentamento da violência exige atuação na origem do problema, com foco em transformação cultural e educação desde a infância. “É urgente a necessidade de readequar os currículos escolares, desde a primeira infância, para trabalhar ativamente as questões de gênero, ensinando meninos e meninas sobre respeito mútuo, empatia e igualdade. A escola deve ser um espaço de desconstrução de estereótipos, formando cidadãos que compreendam que a assimetria entre homens e mulheres é uma construção social nociva que precisa ser superada”, sugere.
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Outro ponto destacado é a necessidade de olhar para o agressor para além da punição, com políticas de responsabilização capazes de interromper o ciclo da violência. “Os grupos reflexivos de gênero para homens autores de violência são uma ferramenta poderosa e essencial, uma medida de responsabilização que busca intervir na origem do comportamento violento, levando o homem a refletir sobre o machismo, a masculinidade tóxica e o impacto de suas ações”, completa.
Em Novo Hamburgo, segundo a magistrada, mais de 350 condenados por violência doméstica passaram por grupos reflexivos, entre 2019 e julho de 2025, sem registro de reincidência no período. Ela também ressalta a importância do fortalecimento da rede de proteção e da atuação integrada entre os Poderes, citando como exemplo a parceria entre o Judiciário e a Brigada Militar por meio da Patrulha Maria da Penha. A juíza reforça, ainda, que a violência contra a mulher é uma pandemia estrutural e persistente, e seu enfrentamento exige o comprometimento de toda a sociedade e do Poder Público. “É fundamental que se invistam em políticas de prevenção que atuem na raiz do problema, promovendo uma cultura de paz, de igualdade entre os gêneros e de respeito às diferenças, nos lares, nas escolas e em toda a sociedade”, pontua.
Alerta segue aceso em municípios do entorno
Apesar da redução em parte da região, o início de 2026 reforça a gravidade do cenário. Sapucaia do Sul registrou o primeiro feminicídio do Vale do Sinos neste ano, quando uma adolescente de 15 anos foi morta pelo ex-namorado, que não aceitou o fim do relacionamento no início desta semana. O caso se soma a outros registrados no Estado. Já são sete mulheres mortas em 2026, o que significa dizer que o RS tem média de uma mulher morta a cada três dias nestes primeiros 20 dias do ano.
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Em Canoas, os feminicídios consumados caíram de dois em 2024 para um em 2025, mas os casos de ameaça cresceram de 905 para 1.032, e as lesões corporais passaram de 579 para 609. Em Esteio, o cenário se agravou, com dois feminicídios em 2025, contra nenhum no ano anterior, além do aumento nas tentativas e ameaças.

Foto: DCS/PCRS
Os dados mostram que, mesmo onde há redução pontual de mortes, a violência segue presente e em crescimento em outros indicadores. Os indicadores de 2025 e um início de ano igualmente preocupante fizeram o Estado reagir. Nesta semana, a Polícia Civil desencadeou a operação “Ano Novo, Vida Nova”, que faz parte de um plano para redução da criminalidade que tem foco na violência contra mulheres e meninas, promovendo ainda a conscientização sobre a rede de apoio às vítimas. Os resultados da ação foram divulgados nesta quarta-feira (21). Conforme a Polícia, 29 pessoas foram presas e 102 denúncias contra agressores foram apuradas em 24 horas. Além disso, foram cumpridos 41 mandados de busca e apreensão, e quatro armas de fogo foram apreendidas.