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"Ele puxou de novo… só um beijinho": Policial assediada sexualmente por delegado relata o que aconteceu e por que decidiu denunciar

Inspetora afirma que os assédios foram se intensificando com o passar das semanas, até chegar ao episódio que, segundo ela, foi um choque

Isaías Rheinheimer
Publicado em: 25/11/2025 às 11h:30 Última atualização: 25/11/2025 às 17h:13
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Uma inspetora da Polícia Civil que hoje trabalha em uma delegacia do Vale do Sinos decidiu quebrar o silêncio e detalhar, pela primeira vez, o que viveu no litoral norte no ano passado, quando afirma ter sido vítima de assédio sexual dentro do gabinete do delegado Antônio Carlos Silvano Ractz Júnior. O nome da vítima será preservado.

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A policial havia ingressado na instituição meses antes, no início de 2024, e foi enviada ao litoral norte como reforço da Operação Verão. [Veja vídeo ao final desta reportagem.]

Atuava no posto policial de Quintão, mas o episódio mais grave, conforme ela, aconteceu em 22 de julho do ano passado, dentro da Delegacia de Polícia de Cidreira, onde o delegado Ractz era interino.

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Segundo ela, as atitudes do delegado começaram no primeiro dia de trabalho no litoral, quando, ainda sem conhecê-la, ele a convidou para ir até a casa dele. “Ali eu já achei estranho, porque não havia necessidade. Era o meu primeiro dia, não fazia sentido ir na casa do delegado”, relata.

A inspetora afirma que os assédios foram se intensificando com o passar das semanas, até chegar ao episódio que, segundo ela, foi um choque. “Ele me puxou duas vezes pelo braço e tentou me beijar”, revela.

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Por meio de nota, a defesa do delegado alega que a policial “traz relato inverídico e distorcido” e que a gravação apresentada por ela está “fora de contexto”, “editada e em partes”, “frutos de inconformidade quando lhe foram negados privilégios profissionais que indevidamente buscava, qual seja, troca de lotação”. [Leia a nota na íntegra ao final desta reportagem.]

Beijo à força

A inspetora estava na DP de Cidreira, onde todos os dias ia para pegar a viatura e seguir até o posto policial de Quintão. Antes de sair, contudo, o delegado determinou que a inspetora passasse no seu gabinete, momento em que ele tentou beijá-la à força.

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“Quando cheguei perto da mesa, ele me puxou e disse: ‘vem aqui me dar um beijo antes de ir pra Quintão’. Eu fui pra trás. Perguntei: ‘que isso, delegado?’. Ele puxou de novo. ‘Só um beijinho, só um beijinho’. Eu saí rápido, muito nervosa”, conta.

Ao deixar o gabinete, ela cruzou com uma funcionária da limpeza, que teria dito que o comportamento do delegado era “normal” e que “ele fazia isso com todas as mulheres”.

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A policial foi para Quintão e lá desabou no choro. Sem saber como agir, decidiu procurar orientação de poucas pessoas de confiança. Foi quando ouviu que, se não tivesse provas, ficaria desprotegida e que, por ser subordinada ao delegado, continuaria sozinha com ele na rotina de trabalho. Naquele momento, decidiu gravar o próximo contato.

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Gravação de 19 minutos reforça o relato

Ela afirma possuir um áudio de 19 minutos, gravado dentro do gabinete do delegado após o episódio do beijo forçado. Segundo a inspetora, no registro é possível ouvir o delegado dizendo várias vezes: “não precisa ter medo de mim, pode chegar perto”, além de admitir que estava “gostando” dela.

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“Eu falei para ele que não tinha gostado, que não tinha cabimento, que eu não dava motivos. Ele dizia para eu ficar tranquila, que não mudava nada”, afirma.

Após reunir coragem e buscar o sindicato e colegas mais antigos, a inspetora decidiu ir até Porto Alegre. Lá, formalizou a denúncia na Corregedoria-Geral da Polícia Civil.

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Segundo ela, a decisão de denunciar aconteceu depois que conversou com uma prima, que também é policial civil.

“Minha prima me disse: tu, sendo policial, tem obrigação de denunciar. Isso ficou na minha cabeça. A gente entra na polícia acreditando que vai estar segura, e quem deveria me proteger fez exatamente o contrário”, desabafa.

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Abalo psicológico ainda persiste

Após registrar a ocorrência na Corregedoria, a policial conseguiu transferência para uma delegacia do Vale do Sinos, onde trabalha até hoje.

A inspetora diz que o episódio transformou completamente sua rotina, sua saúde mental e sua carreira. “Tive que fazer tratamento, faço terapia e uso medicamento até hoje. Eu desacreditei nas pessoas. O delegado, que deveria me proteger, fez isso”, sublinha.

Agora, a inspetora de polícia se soma à voz de tantas outras mulheres vitimas de violência todos os dias, em diferentes camadas da sociedade. “O que eu posso falar para outras policiais, estagiárias e demais mulheres, é que não tenham medo, denunciem”, coloca.

Relembre o caso

A Corregedoria-Geral da Polícia Civil indiciou o delegado Antônio Carlos Silvano Ractz Júnior pelo crime de assédio sexual.

O indiciamento, assinado pelo delegado corregedor Sílvio Kist Huppes, da 3ª Divisão de Assuntos Internos e Feitos Especiais/Cogepol, ocorreu em agosto deste ano, após quase um ano de investigação.

O relatório final, ao qual ABCmais teve acesso com exclusividade, destaca a coerência das provas, incluindo mensagens e áudios gravados pela vítima.

Por anos, Ractz atuou como titular da Delegacia de Imbé e respondia por delegacias de Cidreira, Quintão e Palmares do Sul. Atualmente, ele é delegado da unidade de Lavagem de Dinheiro do Denarc, em Porto Alegre.

Em nota, a Polícia Civil confirmou o indiciamento e informou que o caso foi encaminhado ao Judiciário de Tramandaí e ao Conselho Superior de Polícia, que poderá aplicar medidas disciplinares, inclusive expulsão.

O Ministério Público ofereceu transação penal, benefício previsto em lei para crimes com pena inferior a dois anos.

Leia a nota da defesa de Ractz

O Delegado Ractz informa que o “suposto assédio sexual, conforme narrativa exclusiva e isolada da sedizente vítima, está em descompasso com a prova testemunhal colacionada e, especialmente, com inúmeros testemunhos de mulheres com as quais conviveu profissionalmente e que foram ouvidas pela Corregedoria a pedido da própria denunciante, reafirmando, no Inquérito Policial, o comportamento correto e profissional com que sempre foram tratadas.

Assim, a sedizente vítima traz relato inverídico e distorcido, agregado de uma gravação fora de contexto e juntada aos autos editada e em partes, frutos de inconformidade quando lhe foram negados privilégios profissionais que indevidamente buscava, qual seja, troca de lotação.

Lamenta que o denuncismo leviano e desprovido de respaldo probatório tenha sido suficiente para seu indiciamento na esfera correicional. Por derradeiro, surpreendeu-se com a grave violação do sigilo do procedimento, desrespeitando ordem judicial, que fez com que as informações nele contidas chegassem na esfera pública, causando-lhe dano moral e julgamento popular antecipado.

Espera que a Corregedoria da PC também apure esse ato. No âmbito administrativo estará à disposição da Instituição policial para comprovar a sua inocência nos procedimentos apuratórios cabíveis.

Tranquilo de que a verdade vai emergir das apurações, ressalta seu histórico de serviços públicos prestados a sociedade, em especial por mais de 15 anos como Delegado de Polícia, e seu compromisso com a Instituição Policial a que pertence.

Leonel Carivali Advogado”

Veja o vídeo

"Ele puxou de novo… só um beijinho": Policial assediada por delegado relata o que aconteceu
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