Um militar da FAB foi morto em uma emboscada ligada à guerra entre facções e ciúmes. Leonardo Machado de Menezes, de 20 anos, foi brutalmente assassinado após ser atacado na frente de casa por criminosos em fevereiro de 2025.
Ao ser abordado pelos criminosos em Canoas, o jovem foi espancado e seu corpo, encontrado na madrugada do dia 25 daquele mês na Rua São Miguel, em Sapucaia do Sul.
Nesta quinta-feira (10), o caso teve um desdobramento com uma operação da Polícia Civil.

Foto: Polícia Civil
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Quem era Leonardo
Recém-ingressado na aeronáutica, sem registro de antecedentes criminais ou envolvimento com o submundo do crime, Leonardo vivia com os pais e era descrito por amigos e até mesmo por membros de facções como uma pessoa sem inimigos ou participação em atividades ilícitas.
Contudo, a investigação revelou um ponto sensível em sua vida. Leonardo mantinha amizades de infância e relacionamentos amorosos com integrantes de uma facção rival que também atua em Canoas.
Além disso, ele gostava de “ostentar” nas redes sociais, usando um perfil com referências, mesmo que em tom de brincadeira, a dinheiro fácil e grandes quantias – sendo que o “33” usado no final do seu usuário remetia ao tráfico de drogas.
Tal comportamento, somado às suas companhias, era interpretado por alguns, especialmente por membros de facções, como um sinal de afiliação criminosa.
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Redes sociais e relacionamentos amorosos
Em análise às redes sociais de Leonardo, a Polícia identificou que a vítima usava a rede social Instagram através do usuário “_XXXX_33k”. O “33” no final do usuário da vítima, faz referência ao tráfico de drogas.
Ainda, Leonardo ostentava uma vida supostamente com relações criminosas, apesar de, na prática, não realizar tais atividades.
Outro fator complicador na vida de Leonardo era sua liberdade em se relacionar com diversas mulheres, inclusive aquelas vinculadas a facções criminosas, fossem elas aliadas ou rivais de seus amigos.
Ele frequentava festas onde facções rivais se encontravam, o que gerava ameaças e conflitos, e acabou sendo “taxado” por uma facção como membro ou apoiador de um grupo rival. Essa percepção equivocada de seu perfil social e o contexto de guerra entre as facções foram cruciais para a tragédia.
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Investigação
Após o corpo de Leonardo ser localizado, a equipe de investigação identificou a vítima e as diligências se concentraram no sequestro. Houve a quebra de dados telemáticos e acesso às redes sociais da vítima.
A análise das comunicações de Leonardo revelou que ele havia marcado um encontro com a namorada na sua própria casa na madrugada do crime. Ela foi identificada como sendo vinculada à facção que atua na região e tendo ex-namorados membros dessa mesma facção.
Ficou claro para a Polícia, então, que ela foi a “isca” para atrair Leonardo para a emboscada. A análise das conversas em aplicativos de Leonardo deixou claro que a namorada havia sido o pivô e a isca para atrair Leonardo para uma emboscada.
Morto com extrema violência
O corpo de Leonardo apresentava sinais de extrema violência: múltiplas agressões e mais de vinte perfurações por arma de fogo calibre 9mm, indicando uma execução sumária.
Denúncias anônimas e identificação dos criminosos
Em análise às imagens de câmeras de segurança, foi possível identificar o veículo usado no crime: um Fiat Argo prata, hatch, com um amassado na traseira. O carro foi localizado em um condomínio em Canoas – local conhecido como reduto de facção.
A placa do veículo era clonada, o que dificultaria a identificação dos criminosos, prática comum entre grupos ligados ao crime organizado.
Durante a observação do condomínio, os policiais visualizaram uma mulher, com características semelhantes às da namorada de Leonardo, chegando em um Ford Ka vermelho, acompanhada de um homem.
O Ford Ka, que inicialmente estava com um vidro quebrado e depois foi visto com ele trocado, foi estacionado ao lado do Fiat Argo. Vizinhos, sob condição de anonimato devido ao medo, informaram que ambos os veículos pertenciam a um mesmo indivíduo, mas só tinha a alcunha do mesmo, depois identificado pela investigação.
A abordagem ao Fiat Argo revelou respingos de sangue no porta-malas (local onde a vítima fora colocada) e um chinelo arrebentado no assoalho do banco traseiro, semelhante ao perdido por um dos suspeitos no vídeo do sequestro.
Estilhaços de vidro no banco do carona também chamaram a atenção, relacionando-se ao vidro quebrado do Ford Ka. O Argo foi apreendido.
No dia seguinte à apreensão, uma denúncia anônima apontou ao homem como envolvido no assassinato, sendo o proprietário do Argo. A denúncia também revelou que ele utilizava tornozeleira eletrônica e continuava com atividades ilícitas.
A investigação qualificou o suspeito como indivíduo com dezenas de registros policiais, incluindo roubo, furto, ameaça, lesão corporal, e adulteração de sinal de veículo – crime que, de fato, se relaciona ao carro clonado. Restou confirmado como membro da facção que atua na região.
Novas imagens de monitoramento do condomínio, datadas da madrugada do homicídio, mostraram o Fiat Argo sendo estacionado no condomínio.
Nas imagens, o suspeito, usando tornozeleira eletrônica, e mais dois indivíduos analisavam o veículo, principalmente a traseira e o porta-malas, utilizando lanternas e tirando fotos, indicando preocupação com possíveis avarias ou vestígios.
Desfecho
O esclarecimento total do caso veio com a captura da namorada de Leonardo em Cachoeirinha, em 5 de maio de 2025. Em interrogatório, ela confirmou ser a mulher no vídeo do sequestro e afirmou ter sido obrigada a participar pelo seu ex-namorado.
A prisão temporária dela foi convertida em preventiva em 30 de maio de 2025. Em seu depoimento, forneceu detalhes sobre outros envolvidos. Mencionou demais suspeitos que chegaram em outro carro. Ela também relatou que os passageiros do carro estavam em videochamada com outros indivíduos, questionando Leonardo sobre rivais.
Uma nova denúncia anônima, recebida em maio, corroborou informações dela, mencionando alguns dos suspeitos residindo em um apartamento no bairro Guajuviras, usado como base. Além disso, citava o envolvimento de mais um indivíduo e que o ex, teria “puxado a frente” com os demais.
Envolvidos no crime
As investigações policiais aprofundaram a identificação dos demais envolvidos:
- Ex-namorado da atual de Leonardo e motorista do Fiat Argo. Participou diretamente do sequestro e homicídio. Faccionado, ligado a grupo que atua no tráfico de drogas e outros crimes na região metropolitana, possui laços de amizade com outros envolvidos, com quem dividia o apartamento no Guajuviras. Ele foi preso recentemente por tráfico e usa tornozeleira eletrônica.
- O segundo envolvido é membro da facção que atua na região metropolitana e conhecido “matador”. Possui 9 registros policiais por crimes relacionados ao narcotráfico. Ele é um dos primeiros a agredir e colocar a vítima no porta-malas. Ele também está sob monitoramento por tornozeleira eletrônica.
- Também conhecido como “matador” da facção, o terceiro envolvido portava uma pistola preta e perdeu um chinelo durante a ação. Ele tem histórico de roubo, lesão corporal, porte de arma e tráfico. Reside no Guajuviras, com sua companheira, também traficante e associada à facção que atua na região metropolitana. O endereço é um conhecido “mocó” da facção para drogas e armas.
- O quarto envolvido também membro de facção que atua na região metropolitana. Ele é o indivíduo que faz a retaguarda do grupo, impedindo a fuga da vítima, e depois auxilia na submissão e no carregamento de Leonardo para o carro.
- O quinto criminoso, amigo dos suspeitos e vinculado à facção que atua na região metropolitana, forneceu transporte e auxílio na fuga dos suspeitos em um veículo Renault branco sedan (modelo Symbol). Ele levou dois participantes após o sequestro.
- O sexto é integrante de alta hierarquia de facção desde a adolescência, com histórico de homicídios e tráfico. Ele é considerado um dos mentores do crime, participando da organização, planejamento e interrogatório da vítima. Foi o indivíduo que, em videochamada, questionava Leonardo sobre rivais, buscando informações sobre um indivíduo conhecido como “TH”. Ele já havia sido objeto de investigações anteriores do Denarc e DHPP e está atualmente preso.
Operação desta quinta-feira (10)
Durante a operação Rapta, nesta quinta-feira (10), foram cumpridas de 16 cautelares, sendo 6 prisões temporárias e 10 mandados de busca e apreensão nas cidades de Canoas, Porto Alegre, Viamão, Charqueadas e Osório. Ao todo, 40 policiais participaram na operação.
- Entre os suspeitos, um dos criminosos e a namorada da vítima já se encontravam presos, pois ao longo da investigação foi representado pela prisão preventiva de ambos. Ele foi preso em abril e ela em maio.
- Dois tiveram a prisão temporária realizada hoje.
- Três temporariamente presos hoje já estavam detidos por outras investigações.
- Um dos envolvidos não foi localizado e passa à condição de foragido da Justiça.
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