O domínio de facções criminosas sobre condomínios residenciais no Vale do Sinos, que veio à tona por meio de reportagens do Grupo Sinos em outubro do ano passado, segue com desdobramentos. Nesta quarta-feira, o Ministério Público denunciou dois soldados da Brigada Militar de São Leopoldo por recebimento de propina de traficantes e até pela invasão de uma casa para furtar dinheiro e drogas avaliadas em R$ 400 mil.
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Foto: Juliano Piasentin/GES Especial
Os policiais, de 32 e 30 anos, foram presos na manhã de 18 de dezembro em operação da Corregedoria-Geral da Brigada Militar. O órgão chegou aos servidores após receber informações desencadeadas por reportagens a respeito do Condomínio Villa Germânica, no bairro Santos Dumont, que era dominado por um traficante preso em Charqueadas.
Padrão de vida
Conforme relatos de testemunhas, os soldados recolhiam subornos de R$ 5 mil por semana na área, durante o serviço noturno, em uma viatura Duster ostensiva. Na denúncia feita pela promotora de Justiça Anelise Haertel Grehs, da 2ª Promotoria Militar de Porto Alegre, divulgada nesta quinta-feira, consta que os policiais ostentavam padrão de vida incompatível com a renda formal.
Segundo Anelise, os acusados ganhavam propina em troca de omissão policial, repasse de informações sigilosas ao crime organizado e proteção a pontos de venda de entorpecentes. “O esquema era estruturado e contínuo, com divisão de valores, datas fixas e atuação coordenada.”
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Soldados são acusados de invadir casa para furtar
De acordo com o Ministério Público, o faturamento dos brigadianos com crimes ia muito além da propina. A instituição menciona que os acusados chegaram a arrombar uma casa em novembro de 2025. Com informações sobre dinheiro e drogas guardados no local, arrombaram o imóvel e levaram o material. A denúncia não detalha o que foi furtado, mas frisa que rendeu R$ 400 mil aos brigadianos.
A Promotoria também cita uso de laranjas. “Para ocultar os valores recebidos, utilizavam práticas típicas de lavagem de dinheiro, como uso de contas de terceiros, depósitos em espécie e movimentações fracionadas.” Foi ainda detectado, conforme a denúncia, que os policiais acessavam sistemas restritos da segurança pública para lucrar com informações sigilosas.
Os soldados, que não tiveram os nomes informados, foram denunciados por crimes como corrupção passiva, violação de domicílio, furto qualificado, revelação de segredo funcional e lavagem de dinheiro. Seguem presos preventivamente.
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Tiro no celular e apreensões de fachada
O denunciado, de 32 anos, tem casa no Santos Dumont. Seria o elo da facção com colegas de farda. Duas semanas antes da prisão, havia dado um tiro no próprio celular em casa, para apagar provas, enquanto agentes da Corregedoria cumpriam mandado de busca e apreensão.
Outro relato de testemunhas é que os brigadianos faziam apreensões de fachada. Recolhiam maconha e cocaína de baixa qualidade para mascarar a parceria com o tráfico, não só de drogas, como também de armas. O material distribuído em parte de São Leopoldo teria como fornecedor um morador da Vila Palmeira, bairro Santo Afonso, em Novo Hamburgo, quase no limite entre as cidades.
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Esquema ruiu após intervenção em condomínio
Na noite de 19 de outubro, o Grupo Sinos publicava a primeira das reportagens que mostravam como a facção, representada pelo preso Eberson Ferreira Almeida, o Zoreia, 44, dominava o condomínio Villa Germânica.
Ele usava o residencial como uma espécie de reduto. Não se constrangia em dizer, em áudios com ameaças de morte, que recebia R$ 15 mil por mês do condomínio. Também mencionava outros conjuntos habitacionais sob domínio da facção no Vale do Sinos.
A repercussão desencadeou revista na Penitenciária Estadual do Jacuí, em Charqueadas, com a apreensão de vários celulares. Zoreia foi espancado por outros presos e transferido. Na esteira da queda do traficante, o Villa Germânica mudou de síndico e o anterior, que é advogado, foi preso com supostos comparsas. Depois começaram a vir as denúncias anônimas que resultaram na prisão dos dois brigadianos.