Paula Lopes, ex-secretária da Secretaria do Bem-Estar Animal de Canoas, se pronunciou nesta quinta-feira (4) após ser alvo de uma operação policial. A investigação começou após uma série de denúncias de integrantes da Rede de Proteção Ambiental e Animal de que animais estavam sendo mortos em massa. Ela havia sido exonerada pela Prefeitura de Canoas no dia 18 de agosto. (Veja o vídeo no fim da matéria).

Foto: Reprodução/Instagram
A Polícia Civil, com o apoio do Instituto Geral de Perícias (IGP), deflagrou, na manhã desta quinta-feira (4), a batizada Operação Carrasco, que apura denúncias de execução de cães na secretaria.
Através de um vídeo publicado nas redes sociais, Paula atribui a investigação a questões políticas e diz que tratam-se de “denúncias infundadas”.
“Desde quando eu fui pra Canoas, em janeiro, na primeira semana eu já tive que ir pro Ministério Público por denúncias. As pessoas que perdem algo, elas se sentem, não querem perder e começam a fazer denúncias infundadas, tanto que o próprio MP, né, entendia, mandava pra lá tudo como eles pediam e nunca teve nada disso”, disse Paula.
Ela confirma que mandados de busca e apreensão foram cumpridos em sua casa. “Eles entraram aqui em casa, reviraram tudo. Levaram algumas coisas. O meu celular, então estou sem celular.”
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Polícia diz que Paula autorizou abate de cães
Seis mandados de busca e apreensão foram cumpridos em endereços ligados à ex-secretária da pasta e em locais vinculados à administração do órgão.
Segundo a delegada Luciane Bertoletti, que coordena a investigação, Paula é suspeita de ter autorizado ou anuído à prática de abates de cães em larga escala, executados com injeções letais, supostamente para reduzir custos da Secretaria. Foram centenas de animais mortos.
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Crueldade
Conforme a delegada Bertolletti, as primeiras informações chegaram à Polícia a partir de relatos de que o número de eutanásias no canil da secretaria superava em muito o padrão considerado aceitável.
“Segundo os denunciantes, ocorria ali uma matança desmedida de cães, com a anuência da então secretária [Paula Lopes]”, afirmou a delegada.
O inquérito apontou que, semanalmente, uma caminhonete retirava os corpos dos cães mortos, levando-os para descarte sem registro ou documentação oficial. O destino dos animais recolhidos pela secretaria, em muitos casos, não foi registrado em nenhum sistema de controle.
Desaparecidos
As suspeitas ganharam força após a entrega à Polícia Civil de um dossiê. O material inclui fotos e descrições de cães que desapareceram sem explicação. Muitos deles haviam sido recolhidos das ruas ou entregues ao órgão por famílias em situação de vulnerabilidade, com a expectativa de adoção.
Durante a operação nesta quinta-feira, policiais e técnicos do IGP recolheram documentos, computadores, registros de entrada e saída de animais, além de informações sobre microchips implantados.
Cães e gatos ainda abrigados na sede da Secretaria do Bem-Estar Animal foram catalogados individualmente, em uma tentativa de mapear quantos e quais animais efetivamente passaram pelo órgão nos últimos meses e garantir a sua integridade.
Contradição
Segundo a Polícia Civil, a ex-secretária Paula Lopes construiu, ao longo dos últimos anos, a imagem de protetora de animais. Em suas redes sociais, aparecia adotando cães e gatos, especialmente os doentes, com deficiência ou necessidades especiais. Durante a enchente que atingiu o Estado no ano passado, chegou a ganhar notoriedade ao acolher animais resgatados da tragédia. A denúncia, no entanto, coloca em xeque essa trajetória.
Conforme o presidente da Rede de Proteção Ambiental e Animal, Vladimir da Silva, os relatos apontam para uma prática cruel e sistemática:
“Recebemos denúncias de servidores que não conseguiam mais conviver com a situação”, explica. “Animais recolhidos para tratamento ou adoção eram mortos em série. Não havia justificativa clínica, apenas a intenção de reduzir os custos e a lotação do abrigo.”
Continuidade
A Polícia Civil pretende cruzar os documentos apreendidos com os relatos de servidores e os registros de microchipagem, buscando comprovar o número real de eutanásias realizadas e se houve fraude em laudos veterinários. Diretor da Delegacia Regional de Canoas, Cristiano Reschke destaca a gravidade do caso e os próximos passos da Polícia Civil:
“Estamos diante de denúncias graves que, se comprovadas, representam uma afronta à ética e aos valores de proteção animal. Caso fique evidenciado que houve a prática sistemática de eutanásias irregulares, buscaremos a identificação dos responsáveis por tais atos e a Polícia Civil garantirá que todos sejam exemplarmente responsabilizados na forma da lei”, avisa. “Não toleraremos que crimes dessa natureza fiquem impunes, e trabalharemos com rigor para trazer justiça aos animais e às pessoas que depositaram confiança na atuação desse órgão.”
O delegado reforça que, “desde a enchente que assolou o Estado e, em especial, Canoas e região, a atenção com os animais abandonados e a causa em si ganharam destaque, atraindo muitos bem-intencionados e, por via de consequência, muitos oportunistas que viram uma forma de ganhar dinheiro e reputação social com a dor, com a sensibilidade e com o altruísmo das pessoas de bem, o que torna ainda mais repulsivo esse tipo de conduta criminosa”.
Quem é Paula Lopes?
Empresária e ativista da Causa Animal, Paula Lopes atua há mais de 20 anos na causa animal. No ano 2000, fundou o Projeto Adoradores de Vira-Latas, onde viabilizou castrações para as regiões mais vulneráveis da região metropolitana, com foco no controle populacional, atendimento de casos graves e albergagem de animais sem tutores, além de suporte para protetores da causa animal de diversas regiões. Em 2018, fundou a Associação Nacional Instituto Paula Lopes, onde atua até hoje.
O que diz a Prefeitura de Canoas
A reportagem entrou em contato com a Administração municipal visando obter o seu ponto de vista sobre o caso. “A Prefeitura de Canoas recebe com indignação as denúncias relacionadas à operação realizada na manhã desta quinta-feira (4). A administração municipal sempre se comprometeu a tratar o cuidado com os animais como prioridade. A Prefeitura reitera que colabora com as investigações e abriu um expediente interno para apurar os fatos com todo o rigor”, afirma em nota.
Veja o vídeo
(*) Colaborou: Leandro Domingos