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TAXAÇÃO DE TRUMP

Presidente do STF rompe o silêncio e critica sanção dos EUA contra o Brasil: "Soberania, democracia, liberdade e justiça"

Luís Roberto Barroso divulgou carta defendendo atuação do Judiciário brasileiro e esclarecendo pontos criticados pelo líder americano após anúncio de sanções comerciais

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Publicado em: 14/07/2025 às 00h:58 Última atualização: 14/07/2025 às 00h:58
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O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, publicou carta oficial neste domingo (13) respondendo às tarifas de 50% anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra produtos brasileiros. No documento intitulado “Em Defesa da Constituição, da Democracia e da Justiça”, Barroso defende a atuação do Judiciário brasileiro e esclarece pontos criticados pelo líder americano.

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Luís Roberto Barroso é o presidente do STF | abc+



Luís Roberto Barroso é o presidente do STF

Foto: Carlos Moura/STF

O magistrado justificou seu pronunciamento tardio afirmando que as primeiras manifestações deveriam partir do Poder Executivo. “Passada a reação inicial, considero de meu dever, como chefe do Poder Judiciário, proceder à reconstituição serena dos fatos relevantes da história recente do Brasil e, sobretudo, da atuação do Supremo Tribunal Federal”, declarou Barroso.

A carta surge após Trump anunciar, em 9 de julho, medidas tarifárias contra o Brasil, criticando ações do STF relacionadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro e às plataformas digitais. Barroso argumenta que as sanções baseiam-se em uma compreensão imprecisa dos acontecimentos recentes no País.

O presidente do STF rebate acusações de censura e perseguição política, afirmando que no Brasil “não se persegue ninguém” e que apenas condutas criminosas são objeto de repressão estatal.

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No documento, Barroso destaca os 40 anos de estabilidade institucional brasileira desde 1985, com eleições livres e pleno exercício das liberdades individuais. Para contextualizar essa conquista, apresenta um histórico das rupturas institucionais ocorridas no País nos últimos 90 anos, incluindo a Intentona Comunista de 1935, o golpe do Estado Novo em 1937 e a destituição de Getúlio Vargas em 1945.

O magistrado enumera eventos ocorridos a partir de 2019 que ameaçaram a democracia brasileira, como tentativas de atentados terroristas, ameaças a ministros do Supremo e acusações infundadas sobre fraudes eleitorais. Ele menciona também uma denúncia da Procuradoria-Geral da República sobre planos golpistas que incluiriam o assassinato do presidente da República, do vice e de um ministro do STF.

Para demonstrar o compromisso do Supremo com a liberdade de expressão, Barroso lista decisões importantes da Corte, como a declaração de inconstitucionalidade da antiga Lei de Imprensa do regime militar (ADPF 130), a derrubada de normas eleitorais que limitavam o humor durante eleições (ADI 4.1451) e a garantia do direito de publicação de biografias não autorizadas (ADI 4815). O STF também assegurou proteção a jornalistas contra assédio judicial (ADI 6792).

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Sobre as plataformas digitais, o presidente do STF afirma que a Corte adotou solução moderada, menos rigorosa que a regulação europeia, preservando as liberdades fundamentais e os valores constitucionais. Barroso defende o pluralismo político, ressaltando que a democracia comporta diferentes correntes ideológicas e que a alternância de poder é essencial ao regime democrático.

“É nos momentos difíceis que devemos nos apegar aos valores e princípios que nos unem: soberania, democracia, liberdade e justiça. Como as demais instituições do país, o Judiciário está ao lado dos que trabalham a favor do Brasil e está aqui para defendê-lo”, afirmou Barroso em sua carta.

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Veja a íntegra da carta de Barroso

“Em 9 de julho último, foram anunciadas sanções que seriam aplicadas ao Brasil, por um tradicional parceiro comercial, fundadas em compreensão imprecisa dos fatos ocorridos no país nos últimos anos. Cabia ao Executivo e, particularmente, à Diplomacia – não ao Judiciário – conduzir as respostas políticas imediatas, ainda no calor dos acontecimentos. Passada a reação inicial, considero de meu dever, como chefe do Poder Judiciário, proceder à reconstituição serena dos fatos relevantes da história recente do Brasil e, sobretudo, da atuação do Supremo Tribunal Federal.

As diferentes visões de mundo nas sociedades abertas e democráticas fazem parte da vida e é bom que seja assim. Mas não dão a ninguém o direito de torcer a verdade ou negar fatos concretos que todos viram e viveram. A democracia tem lugar para conservadores, liberais e progressistas. A oposição e a alternância no poder são da essência do regime. Porém, a vida ética deve ser vivida com valores, boa-fé e a busca sincera pela verdade. Para que cada um forme a sua própria opinião sobre o que é certo, justo e legítimo, segue uma descrição factual e objetiva da realidade.

Começando em 1985, temos 40 anos de estabilidade institucional, com sucessivas eleições livres e limpas e plenitude das liberdades individuais. Só o que constitui crime tem sido reprimido. Não se deve desconsiderar a importância dessa conquista, num país que viveu, ao longo da história, sucessivas quebras da legalidade constitucional, em épocas diversas.

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Essas rupturas ou tentativas de ruptura institucional incluem, apenas nos últimos 90 anos: a Intentona Comunista de 1935, o golpe do Estado Novo de 1937, a destituição de Getúlio Vargas em 1945, o contragolpe preventivo do Marechal Lott em 1955, a destituição de João Goulart em 1964, o Ato Institucional nº 5 em 1968, o impedimento à posse de Pedro Aleixo e a outorga de uma nova Constituição em 1969, os anos de chumbo até 1973 e o fechamento do Congresso, por Geisel, em 1977. Levamos muito tempo para superar os ciclos do atraso. A preservação do Estado democrático de direito tornou-se um dos bens mais preciosos da nossa geração. Mas não foram poucas as ameaças.

Nos últimos anos, a partir de 2019, vivemos episódios que incluíram: tentativa de atentado terrorista a bomba no aeroporto de Brasília; tentativa de invasão da sede da Polícia Federal; tentativa de explosão de bomba no Supremo Tribunal Federal (STF); acusações falsas de fraude eleitoral na eleição presidencial; mudança de relatório das Forças Armadas que havia concluído pela ausência de qualquer tipo de fraude nas urnas eletrônicas; ameaças à vida e à integridade física de Ministros do STF, inclusive com pedido de impeachment; acampamentos de milhares de pessoas em portas de quarteis pedindo a deposição do presidente eleito. E, de acordo com denúncia do Procurador-Geral da República, uma tentativa de golpe que incluía plano para assassinar o Presidente da República, o Vice e um Ministro do Supremo.

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Foi necessário um tribunal independente e atuante para evitar o colapso das instituições, como ocorreu em vários países do mundo, do Leste Europeu à América Latina. As ações penais em curso, por crimes diversos contra o Estado democrático de direito, observam estritamente o devido processo legal, com absoluta transparência em todas as fases do julgamento. Sessões públicas, transmitidas pela televisão, acompanhadas por advogados, pela imprensa e pela sociedade.

O julgamento ainda está em curso. A denúncia da Procuradoria da República foi aceita, como de praxe em processos penais em qualquer instância, com base em indícios sérios de crime. Advogados experientes e qualificados ofereceram o contraditório. Há nos autos confissões, áudios, vídeos, textos e outros elementos que visam documentar os fatos. O STF vai julgar com independência e com base nas evidências. Se houver provas, os culpados serão responsabilizados. Se não houver, serão absolvidos. Assim funciona o Estado democrático de direito.

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Para quem não viveu uma ditadura ou não a tem na memória, vale relembrar: ali, sim, havia falta de liberdade, tortura, desaparecimentos forçados, fechamento do Congresso e perseguição a juízes. No Brasil de hoje, não se persegue ninguém. Realiza-se a justiça, com base nas provas e respeitado o contraditório. Como todos os Poderes, numa sociedade aberta e democrática, o Judiciário está sujeito a divergências e críticas. Que se manifestam todo o tempo, sem qualquer grau de repressão. Ao lado das outras instituições, como o Congresso Nacional e o Poder Executivo, o Supremo Tribunal Federal tem desempenhado com sucesso os três grandes papeis que lhe cabem: assegurar o governo da maioria, preservar o Estado democrático de direito e proteger os direitos fundamentais.

Por fim, cabe registrar que todos os meios de comunicação, físicos e virtuais, circulam livremente, sem qualquer forma de censura. O STF tem protegido firmemente o direito à livre expressão: entre outras decisões, declarou inconstitucionais a antiga Lei de Imprensa, editada no regime militar (ADPF 130), as normas eleitorais que restringiam o humor e as críticas a agentes políticos durante as eleições (ADI 4.1451), bem como as que proibiam a divulgação de biografias não autorizadas (ADI 4815). Mais recentemente, assegurou proteção especial a jornalistas contra tentativas de assédio pela via judicial (ADI 6792).

Chamado a decidir casos concretos envolvendo as plataformas digitais, o STF produziu solução moderada, menos rigorosa que a regulação europeia, preservando a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, a liberdade de empresa e os valores constitucionais. Escapando dos extremos, demos um dos tratamentos mais avançados do mundo ao tema: conteúdos veiculando crimes em geral devem ser removidos por notificação privada; certos conteúdos envolvendo crimes graves, como pornografia infantil e terrorismo devem ser evitados pelos próprios algoritmos; e tudo o mais dependerá de ordem judicial, inclusive no caso de crimes contra honra.

É nos momentos difíceis que devemos nos apegar aos valores e princípios que nos unem: soberania, democracia, liberdade e justiça. Como as demais instituições do país, o Judiciário está ao lado dos que trabalham a favor do Brasil e está aqui para defendê-lo.”

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