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CULTURA

Abayomis e quilombolas trazem ancestralidade à região

Histórias mostram como a cultura negra resiste ao passar dos anos

Publicado em: 20/11/2025 às 08h:59 Última atualização: 20/11/2025 às 09h:58
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Ancestralidade, resistência e representatividade. Estes são alguns dos motes do Dia da Consciência Negra, símbolo da luta antirracista no Brasil, que perdura por meio de diversos símbolos País afora, sejam bonecas Abayomi, comunidades quilombolas e até mesmo a literatura.

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Em Portão, a dona de casa Silvina Rodrigues Flores, de 103 anos, é conhecida como vó Silvina e é a moradora mais antiga da comunidade quilombola Macaco Branco, em Portão, próxima ao limite com Lindolfo Collor. Historicamente, quilombos eram os locais para onde iam os negros fugidos que se rebelaram contra o regime colonial.

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Conforme o censo de 2022 do IBGE, o Brasil possui 8.441 localidades quilombolas, associadas a 7.666 comunidades quilombolas declaradas pelos informantes. A região Sul do País tem os menores quantitativos, sendo 304 localidades, equivalentes a 3,60% da população.

O Atlas Socioeconômico do Rio Grande do Sul aponta que o Estado possui 203 localidades quilombolas.

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Nascida em 1922, a vó Silvina sabe bem a história de sua família. “Meu avô por parte de pai, Noé Rodrigues, veio para cá com os navios negreiros, vendido como escravo”, conta.

Ela trabalhou na roça desde os cinco anos. “Naquela época, os homens saíam para trabalhar e as mulheres ficavam em casa, cuidando da casa e dos filhos. Eu acompanhava meus pais desde cedo, trabalhando na roça. Se não, a gente não comia, porque só se comia o que fazia”, diz.

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“Hoje em dia o jovem tem muita mordomia, é tudo muito fácil. Não precisa fazer roupa em casa, é só comprar. Eu não sabia nem o que era dinheiro. Minha mãe criou 12 filhos e um adotivo. Antigamente a gente foi muito judiado, ainda mais a raça negra. Quem era negro era considerado como cachorro, os senhores que mandavam”, prossegue.

Até hoje a dona de casa faz questão de trabalhar na roça. “Meus filhos até escondem a enxada de mim, para eu me cuidar”, comenta, aos risos.

Territórios quilombolas são reparação histórica

Na mesma região, a aposentada Olinda Flores David, de 72 anos, defende que territórios quilombolas são reparação histórica. “Muita gente fala ‘ah, por que os negros ganham isso, mas eu não?’. Porque eles vieram sofrendo da África. Muitos nem chegaram ao Brasil, morreram nos navios, atirados ao mar. E os que chegaram, vieram algemados”, argumenta.

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“Eu sei porque meu bisavô era filho de um dos escravos, meu pai e minha mãe sempre me contavam isso. Eles nunca puderam adquirir nada”, continua.

Hortas, criação de galinhas e de porcos fazem parte do dia a dia dos moradores da comunidade Macaco Branco. “Algumas pessoas até criam gado, mas são poucos, porque o cuidado com os animais é mais difícil”, explica dona Olinda.

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O maior desafio, segundo ela, é ir ao centro da cidade. “Já faz mais de um ano que não vem ônibus aqui, é só lá encima, no outro lado do Quilombo. Antes passava três vezes por dia e aqui era o terminal, ele passava por todo o bairro”, pontua.

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“A gente também precisa ir até o Centro para comprar comida e remédios. Mas sem ônibus, acaba gastando mais de 80 reais em carro de aplicativo. A gente participou de vários cursos de artesanato e empreendedorismo pela Prefeitura, mas não consegue colocar em prática porque não tem como ir vender”, completa.

Procurada, a Prefeitura de Portão informa que não há previsão de ampliação dos horários dessa linha específica. “A linha do Tarifa Zero no interior, que atende a comunidade do Macaco Branco, foi implantada há dois anos, após a realização de um estudo técnico que identificou os pontos com maior concentração de moradores, permitindo a definição de um trajeto que atendesse de forma eficiente a população local”, justifica.

“Ressaltamos que, recentemente, foi realizada a ampliação da linha urbana, com inclusão de novos horários e dias, beneficiando um número maior de usuários”, completa.

Surgidas no período escravagista, as bonecas abayomi eram uma ferramenta de sobrevivência  | abc+



Surgidas no período escravagista, as bonecas abayomi eram uma ferramenta de sobrevivência

Foto: Amanda Krohn/GES-Especial

Bonecas ensinam sobre resistência e união

A presidente da Associação de Artesãos da Feitoria, de São Leopoldo, Sueli Angelita da Silva, de 58 anos, ensina a fazer bonecas Abayomi há 13 anos, após aprender na Feira Internacional do Cooperativismo (Feicoop) em Santa Maria, em 2012.

“Nos navios negreiros, as mães faziam bonecas a partir de retalhos de suas roupas para acalmar os seus filhos. Se não, eles seriam jogados ao mar, e elas se jogariam junto, indo atrás de seus bebês”, descreve Sueli.

A artesã acrescenta que as bonecas também foram utilizadas em um segundo momento, na amamentação dos recém-nascidos nas senzalas. “Naquela época, algumas mulheres eram escolhidas para serem amas de leite das sinhás [esposas dos patrões que escravizavam a comunidade africana], geralmente as que eram mais fortes. E nisso, os bebês dessas amas ficavam nas senzalas”, explica.

“Para ele não morrer de fome, outra escravizada precisava amamentá-lo, então usava-se as bonecas abayomi para pegar o cheiro da mãe e o bebê conseguir pegar o leite”, continua.

Por isso Sueli defende: as bonecas abayomi são símbolo de resistência. “Conhecimento é uma coisa que ninguém tira. Essa boneca é para além de um brinquedo, um adorno. É um processo de resistência do que essa mãe, lá atrás, fez para a sua criança não ser morta.”

A artesã ainda acrescenta que a abayomi, além de ser um símbolo de resistência, é parte das raízes da cultura negra. “Hoje em dia a gente diz que a criança negra tem várias mães. É como diz o provérbio africano ‘é preciso uma aldeia inteira para criar uma criança’. Tem muitos terreiros [de religiões de matriz africana] que cuidam das crianças do bairro quando os pais precisam trabalhar, encaminham à escola, alimentam… todos se unem.”

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