O ônibus movido a biometano que está em teste em Novo Hamburgo é abastecido por uma cadeia industrial de produção de energia renovável a partir de resíduos urbanos, com origem em unidades operadas pela CRVR – Companhia Riograndense de Valorização de Resíduos no Rio Grande do Sul.
Paralelamente, outras iniciativas no Estado, como projetos cooperativos no Vale do Caí, ilustram diferentes modelos de produção de biogás, embora não integrem diretamente o sistema de abastecimento do transporte coletivo.

Foto: Divulgação
O avanço do biometano ocorre em meio ao movimento de transição energética que vem sendo estimulado no Rio Grande do Sul. Em material divulgado nesta semana, o governo estadual apontou o potencial gaúcho para ampliar a produção de combustíveis renováveis a partir de resíduos urbanos e agroindustriais, dentro de uma estratégia voltada à descarbonização da economia e à redução das emissões de gases de efeito estufa.
Além do uso industrial, o Estado também vê espaço para aplicação do biometano em frotas e sistemas de mobilidade, cenário que começa a ser testado em Novo Hamburgo com o uso experimental de um micro-ônibus abastecido com o combustível renovável.
Como o lixo vira combustível
O biometano utilizado no teste em Novo Hamburgo é produzido na unidade da Biometano Sul, instalada junto ao aterro sanitário da CRVR, em Minas do Leão. A planta foi inaugurada em setembro do ano passado, marcando o início da produção em escala de combustível renovável a partir de resíduos urbanos no Rio Grande do Sul.
O empreendimento recebeu cerca de R$ 150 milhões em investimentos, com financiamento do Fundo Clima do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), dentro de uma estrutura de políticas públicas voltadas à transição energética no Estado.
Durante a implantação das células do aterro, são instalados drenos responsáveis pela captação do biogás produzido naturalmente pela decomposição do lixo. Esse gás, formado principalmente por metano, era utilizado até setembro do ano passado apenas para geração de energia elétrica.
Com a inauguração da planta da Biometano Sul, parte do biogás passou a ser direcionada para um processo de purificação. Segundo a empresa, o procedimento funciona como uma “lavagem” do gás, removendo componentes que comprometem a qualidade do metano.
Para que o combustível seja transformado em biometano apto para uso veicular e industrial, é necessário que a concentração de metano ultrapasse 90%. Após esse processo, o produto passa a ter características semelhantes às do gás natural utilizado em veículos e indústrias.
Capacidade e expansão
A unidade de Minas do Leão — que recebe os resíduos gerados em Novo Hamburgo, estimado em até 200 toneladas por dia — tem capacidade de produção de até 66 mil metros cúbicos de biometano por dia. Atualmente, o combustível é comercializado e distribuído pela Ultragaz, sendo utilizado principalmente por indústrias e empresas de logística que buscam alternativas menos poluentes para suas operações.
“Transformar algo ruim, que é o lixo, em algo bom, descarbonizando nossos resíduos e transformando em energia que move a nossa população, faz parte da nossa preocupação com o meio ambiente e a qualidade de vida dos hamburguenses”, destaca o secretário de Meio Ambiente de Novo Hamburgo, Anderson Bertotti.
Segundo a CRVR, além da produção de biometano, parte do biogás captado nos aterros continua sendo destinada à geração de energia elétrica renovável. Hoje, as unidades da empresa somam mais de 12,5 megawatts de energia produzida a partir da decomposição dos resíduos.

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A empresa afirma receber diariamente resíduos gerados por mais de 8,5 milhões de gaúchos, o que corresponde a 75% da população. O sistema de captação e tratamento do biogás implantado em Minas do Leão foi reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) dentro do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo do Protocolo de Kyoto.
De acordo com a CRVR, a tecnologia utilizada permite reduzir em até 98% a emissão de metano gerado no aterro sanitário. O gás é considerado cerca de 25 vezes mais agressivo ao efeito estufa do que o dióxido de carbono (CO?).
Além da planta de Minas do Leão, a empresa prepara a entrada em operação de uma nova unidade em São Leopoldo. A futura planta terá capacidade de produção de 33 mil metros cúbicos de biometano por dia — volume equivalente a cerca de 6 mil botijões de gás de 13 quilos — e deve ampliar a oferta do combustível renovável na Região Metropolitana.
Segundo a CRVR, o biometano pode ser utilizado em serviços como transporte público, coleta de resíduos e operação de frotas municipais, funcionando como alternativa aos combustíveis fósseis e contribuindo para metas de descarbonização.
Modelo cooperativo transforma resíduos orgânicos em energia para autoconsumo

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No Vale do Caí, a Ecocitrus, com sede em Montenegro, desenvolve um modelo próprio de produção de energia a partir de resíduos orgânicos, baseado na biodigestão anaeróbia — processo biológico em que microrganismos decompõem matéria orgânica na ausência de oxigênio, gerando biogás.
A cooperativa é considerada pioneira no Rio Grande do Sul na exploração do biometano a partir de resíduos agroindustriais, especialmente da citricultura. A operação ocorre em parceria com o Consórcio Verde Brasil, junto à Naturovos, responsável pela purificação do biogás e geração do combustível conhecido como GNVerde.
A matéria-prima utilizada é ampla e inclui resíduos agroindustriais, restos de alimentos, lodos orgânicos, resíduos da citricultura, efluentes industriais, resíduos de frigoríficos, resíduos de biodiesel e dejetos animais, como de aves, suínos e bovinos, provenientes de diferentes cadeias produtivas.
Segundo a cooperativa, o sistema tem capacidade de produção de cerca de 500 metros cúbicos de biogás por hora, com potencial de geração de até 1 megawatt de energia elétrica. O combustível gerado é utilizado exclusivamente para autoconsumo, abastecendo as próprias estruturas da Ecocitrus.

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Atualmente, a energia produzida é destinada à geração elétrica das unidades da cooperativa, incluindo a agroindústria e a planta de compostagem de biogás. O sistema opera com geradores próprios e tem previsão de ampliação da capacidade instalada, já que há disponibilidade de biogás excedente para expansão futura.
Além da produção energética, a Ecocitrus atua na gestão e destinação de resíduos orgânicos, com mais de 130 empresas que utilizam sua estrutura para descarte ambientalmente adequado. A cooperativa reúne ainda cerca de 127 famílias associadas e trabalha com um modelo verticalizado, que integra produção de adubo orgânico, industrialização e comercialização direta, dentro de uma lógica de economia circular e fortalecimento da agricultura familiar.
Biometano ajuda a reduzir emissões
Para a engenheira agrônoma Gabriela Koetz, de Sapiranga, o uso do biometano produzido a partir de resíduos urbanos representa uma alternativa importante para reduzir os impactos ambientais associados aos combustíveis fósseis.
Segundo ela, embora o cenário ideal envolva a separação adequada dos resíduos recicláveis e orgânicos para destinações específicas, o aproveitamento do gás gerado em aterros sanitários para abastecimento de veículos funciona como uma medida mitigadora.
“Qualquer iniciativa que recicle o carbono é desejável e útil para a descarbonização. O ideal seria que houvesse a separação dos resíduos recicláveis e orgânicos para que cada um tenha sua destinação mais adequada, mas quando isso não ocorre, o uso do biometano gerado nos aterros como biocombustível no transporte público é uma ação mitigadora de impacto ambiental por substituir o combustível de origem fóssil”, afirma.
A especialista explica que, ao contrário dos combustíveis fósseis, cuja queima libera carbono armazenado há milhões de anos em reservas geológicas, o biometano reaproveita carbono já presente no ciclo natural.
“O CO2 é um gás de efeito estufa, ou seja, ele segura o calor na nossa atmosfera contribuindo para o aquecimento global. Quando utilizamos o biometano como combustível, o qual provém de uma fonte de energia renovável que neste caso é o lixo urbano, estamos recirculando o carbono já emitido e reduzindo a demanda por combustíveis fósseis que precisam ser retirados das reservas geológicas, injetando mais carbono na atmosfera”, destaca.
De promessa a expansão: o avanço do biometano no RS
Segundo a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema), o Estado avalia de forma positiva a expansão da produção de biogás e biometano nos últimos anos, especialmente pelo potencial de aproveitamento de resíduos agropecuários, agroindustriais e urbanos.
De acordo com a pasta, o RS se consolidou como uma das principais fronteiras para expansão desse tipo de energia renovável no País, impulsionado tanto pela disponibilidade de matéria-prima quanto pelo fortalecimento de políticas públicas voltadas ao setor.
Entre as iniciativas citadas pela secretaria estão a política estadual de biogás e biometano, conhecida como RS-GÁS, e o Programa Biogás-RS, criados para estimular investimentos, ampliar linhas de financiamento e incentivar a implantação de novos projetos. O governo também aponta maior maturidade tecnológica e ganho de escala nas operações mais recentes, além da ampliação de parcerias entre setor público, iniciativa privada e instituições de pesquisa.
Outro fator considerado decisivo para o avanço do setor é o aumento da demanda por fontes energéticas menos poluentes, impulsionado pelas metas de descarbonização e pela busca de substituição gradual dos combustíveis fósseis.
Segundo a Sema, o potencial gaúcho para produção de biometano está distribuído em diferentes regiões do Estado, especialmente nos setores agropecuário, agroindustrial e de saneamento, com aproveitamento de resíduos urbanos e de aterros sanitários.
Além da geração de energia, o governo destaca benefícios ambientais e econômicos ligados à cadeia do biometano, como a redução das emissões de gases de efeito estufa, mitigação de passivos ambientais, fortalecimento da economia circular e geração de renda, principalmente no meio rural.
“Nesse contexto, o biometano se apresenta como uma solução integrada, capaz de alinhar desenvolvimento econômico e sustentabilidade ambiental no Rio Grande do Sul”, afirma a secretaria.
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