Depois de quase uma semana trabalhando entre escombros na Venezuela, o comandante dos Bombeiros Voluntários de São Sebastião do Caí e presidente da Voluntersul, Anderson Jociel da Rosa, diz que encontrou um cenário impossível de ser traduzido por imagens. Ao lado de Salatiel Slongo e Marcelo Bidone, dos Bombeiros Voluntários de Nova Petrópolis, ele integra a missão internacional que atua nas áreas mais atingidas pelos terremotos.

Foto: Voluntersul/Divulgação
Rosa resume o que viu desde a chegada ao país em duas palavras: destruição e tristeza. “É um ambiente de muita desesperança. As pessoas estão completamente sem rumo. Elas não sabem e não têm para onde ir. Há famílias acampadas às margens das estradas, outras em abrigos improvisados, tentando entender por onde recomeçar. É uma região turística, então o terremoto atingiu desde as pessoas mais pobres até as de maior poder aquisitivo. Hotéis, edifícios, apartamentos, tudo foi destruído.”
Apesar da catástrofe, o bombeiro afirma que o impacto psicológico ainda parece não ter sido totalmente assimilado pela população. Segundo ele, muitas pessoas continuam movidas pela adrenalina das buscas e pela esperança de encontrar desaparecidos.
“A impressão que dá é que ainda não caiu a ficha para muita gente. A adrenalina está alta, com pessoas procurando familiares, ajudando nos resgates, tentando fazer alguma coisa. O sentimento é muito parecido com o que vimos no Rio Grande do Sul nas enchentes de 2023 e 2024. Mas o cenário é algo que eu nunca tinha visto.”
Corpos, famílias inteiras e a busca que continua
Em mais de 25 anos como bombeiro voluntário, Rosa participou de inúmeras ocorrências e missões de resgate. Mas esta é sua primeira operação internacional e também o primeiro terremoto vivenciado. “Fotos e vídeos não conseguem transmitir toda essa destruição. Quando a gente chega perto dos prédios, vê famílias inteiras soterradas, sente o cheiro, percebe o silêncio em alguns pontos e o desespero em outros. É um clima de morte.”
Ao longo dos últimos dias, os bombeiros gaúchos participaram da localização de dezenas de vítimas. O comandante calcula que mais de 20 corpos já foram encontrados pelas equipes com as quais trabalham.
“Já encontramos muitos corpos, dezenas, com certeza passou de 20. Já encontramos famílias inteiras, homens, mulheres, crianças. Mas já num estado que é muito difícil reconhecer. Não encontramos nenhuma pessoa com vida, embora outras equipes tenham encontrado.”
Na quarta-feira (8) um homem vivo foi localizado, mas o caso é tratado como exceção. “Depois de duas semanas, as chances de encontrar algum sobrevivente são muito pequenas. Mas a gente não desiste, porque até mesmo a retirada de um corpo traz alívio aos familiares que ficaram. Poderem dar um enterro digno a elas”, afirma.
Ao localizar uma vítima, os protocolos internacionais são acionados e equipes locais são acionadas para dar um encaminhamento. “Eu não sei para onde estão sendo levados. Ouvi que até valas coletivas foram abertas porque são muitas vítimas, às vezes não sobra ninguém para identificar, mas não sei.”

Foto: Voluntersul/Divulgação
Na noite de quarta-feira (8), a equipe atuou em uma das operações mais delicadas da missão: a tentativa de alcançar um menino de 9 anos sob os escombros. “Os pais relataram sons, outras pessoas também disseram ter ouvido murmúrios. Existe ar naquele ponto, então há uma condição ambiental que poderia permitir que ela estivesse viva. Tecnicamente é muito difícil depois de tanto tempo, mas enquanto houver 1% de chance, nós vamos continuar trabalhando.”
Nesta quinta-feira (9), a equipe gaúcha deixou essa frente de trabalho, mas outras equipes internacionais permaneceram no local tentando chegar até a criança.
O risco para quem resgata
Além do desgaste emocional, Anderson Rosa que cada entrada em uma estrutura destruída envolve risco constante para os próprios socorristas. Segundo ele, antes de avançar alguns metros é necessário estabilizar paredes, vigas e lajes para evitar novos desabamentos.
“Nós fazemos todo o aparato necessário para segurar uma estrutura e poder entrar nos escombros, mas é um corte, um movimento errado e tudo pode colapsar sobre nós. É um trabalho extremamente técnico, lento e delicado. Mesmo com treinamento e equipamento, a gente sabe que está se colocando em risco”, admite.

Foto: Voluntersul/Divulgação
Apesar disso, ele afirma que o sentimento predominante entre os voluntários é o de continuar ajudando. “Existe uma tristeza muito grande, obviamente, mas também o prazer de poder ajudar. De dar amparo a quem ficou e proporcionar uma despedida digna. Às vezes, salvar uma vida é impossível. Mas dar uma resposta para uma família também é uma forma de resgate.”
Lição que fica
Ao olhar para os dias passados na Venezuela, o gaúcho diz que a principal conclusão é a necessidade de preparação para tragédias extremas, seja um terremoto em outro país ou uma enchente no Rio Grande do Sul.
“Muitas vidas podem ser salvas quando as pessoas sabem como agir. Aqui na Venezuela, muitas pessoas morreram após sentirem o primeiro tremor e voltarem para os prédios na tentativa de buscarem alguma coisa. Além disso, as forças de segurança, os governos, precisam estar preparados e prontos para agirem, seja qual for a situação.“
Os três bombeiros deixam a Venezuela na noite desta sexta-feira (10) rumo ao Rio Grande do Sul. Ainda não está confirmado, mas a Voluntersul estuda o envio de uma nova equipe para dar continuidade à missão humanitária. “Muitos resgatistas estão deixando o país porque, a essa altura, já estamos trabalhando com máquinas pesadas. O trabalho minucioso vai sendo deixado para trás devido às poucas chances de vida. Então ainda será decidido se novos bombeiros virão”, finaliza.

Foto: Divulgação