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História de criança vendida que reencontrou irmãos e libertou a mãe da senzala é narrada em livro por escritora de Novo Hamburgo

Em "Quem é João?", a escritora Maria Susete do Amaral Franco narra a trajetória de seu pai

Isaías Rheinheimer
Publicado em: 31/07/2025 às 15h:31 Última atualização: 31/07/2025 às 15h:31
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A escritora Maria Susete do Amaral Franco, de 73 anos, moradora do bairro Industrial, em Novo Hamburgo, prepara o lançamento de seu segundo livro. Intitulado “Quem é João?”, a obra resgata a história real de seu pai, descendente de pessoas escravizadas, que foi separado da mãe ainda na infância. Anos depois, já adulto e trabalhando como tropeiro, ele conseguiu reencontrar os irmãos e resgatar a própria mãe, que continuava em condição de cativeiro mesmo após a abolição formal da escravidão.

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Maria Susete do Amaral Franco mostra o primeiro livro, que conta história dos bisavós, fala do segundo livro em homenagem ao pai e projeta escrita da terceira obra | abc+



Maria Susete do Amaral Franco mostra o primeiro livro, que conta história dos bisavós, fala do segundo livro em homenagem ao pai e projeta escrita da terceira obra

Foto: Isaías Rheinheimer/GES-Especial

Segundo Maria Susete, seu pai e os irmãos foram vendidos quando ainda eram pequenos e criados por famílias diferentes. Foi apenas na vida adulta que ele conseguiu localizar parte dos irmãos e tirar a mãe da situação de escravização. “Minha avó teve oito filhos. Não criou nenhum deles. Todos foram vendidos. Ela só foi libertada quando meu pai, já adulto, conseguiu buscá-la”, relata.

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“Quem é João?” ainda não tem data de lançamento confirmada, mas a expectativa é que o livro chegue ao público até o fim deste ano.

Memória e resistência

Além de reconstruir a trajetória familiar, o livro também busca documentar a presença dos tropeiros negros no Brasil, profissionais que, segundo a autora, foram fundamentais no transporte de mercadorias e na circulação de informações entre diferentes regiões, em uma época anterior à popularização dos meios de comunicação. “Meu pai fazia o trajeto de Palmeira das Missões, no Rio Grande do Sul, até Sorocaba, em São Paulo, levando animais, alimentos e outros produtos. Com esse trabalho, os tropeiros também levavam notícias de um lugar para outro”, explica.

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A trajetória da autora como escritora começou quase por acaso, a partir do desejo de registrar a memória de seus antepassados, muitos deles escravizados. O que começou como relatos compartilhados em um grupo de WhatsApp da família resultou em seu primeiro livro, que narra a vida dos bisavós Honorina Marques e Dorvalino Calixto do Amaral, ambos escravizados. A primeira edição esgotou rapidamente. “Há pouca ou nenhuma literatura que conte a escravidão do ponto de vista das famílias”, observa a autora.

Novo livro discute identidade racial no Brasil

Enquanto finaliza o segundo livro, Maria Susete já trabalha em uma nova obra, com título provisório Afinal, quem é negro?. A proposta é refletir sobre os critérios utilizados para definir quem é ou não considerado negro no Brasil, especialmente no contexto das políticas públicas, como o sistema de cotas raciais.

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A motivação veio de uma experiência vivida com seus dois filhos. A filha, de pele mais escura, foi aceita pelo sistema de cotas. Já o filho, de pele clara, teve o benefício negado. “Meu filho foi rejeitado como negro, mesmo tendo a mesma origem da irmã. Isso me fez questionar quais critérios estão sendo utilizados”, afirma.

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Além da experiência pessoal, o livro pretende abordar também os limites da abolição da escravatura no Brasil, com base na trajetória de sua avó, que permaneceu em condição de escravizada mesmo após leis que já previam sua libertação. “A abolição veio cheia de acordos políticos e sem preparo para integrar o negro à sociedade. Minha avó, por exemplo, teria direito à alforria pela Lei do Sexagenário, mas permaneceu aprisionada até ser resgatada pelo filho”, relata.

Em meio a descobertas genéticas que apontam 35% de ancestralidade africana, 25% espanhola e até raízes judaicas, Maria Susete se diz ainda mais convencida da complexidade da identidade brasileira. “Dizer no Brasil que ninguém é negro, que não tem nada de negro, é uma utopia”, afirma.

A nova obra está em fase inicial de escrita e ainda não tem previsão de lançamento.

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