A contratação dos estudos para a duplicação da BR-116 entre Novo Hamburgo e Dois Irmãos representa um avanço em uma reivindicação antiga da região.
Mais do que ampliar a capacidade da rodovia, a futura obra é apontada por autoridades e usuários como uma medida necessária para aumentar a segurança em um dos trechos mais críticos da estrada no Rio Grande do Sul.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
Antes disso, porém, obras emergenciais devem ocorrer em sete pontos considerados mais críticos, com investimentos que chegam perto dos R$ 20 milhões.
Anunciadas no dia 15 deste mês, na sede do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), em Porto Alegre, as intervenções podem começar ainda nesta semana, uma vez que o prazo anunciado de início era de 15 a 20 dias.
Dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) mostram que o segmento entre os quilômetros 220 e 235 registrou mais de 300 acidentes desde 2022.
No mesmo período, ao menos 24 pessoas perderam a vida em ocorrências registradas na rodovia, número obtido a partir dos levantamentos da corporação e de acompanhamentos feitos pelo Grupo Sinos. Além disso, em dias de trânsito intenso, um percurso que normalmente leva cerca de 15 minutos pode demorar quase meia hora.
Os registros ajudam a explicar por que o trecho passou a ser conhecido popularmente como “trecho da morte”. Somente em 2025 foram contabilizados 80 acidentes, dos quais 17 considerados graves. Três pessoas morreram e outras 103 ficaram feridas.
No ano anterior, foram registrados 70 acidentes, sendo 21 graves. Três pessoas perderam a vida e 83 ficaram feridas.
O cenário mais preocupante foi observado em 2023. Naquele ano, a PRF contabilizou 78 acidentes e 21 ocorrências graves.
Os dados da corporação apontam 11 mortes, mas levantamento realizado pelo Grupo Sinos ao longo daquele ano identificou pelo menos 14 vítimas fatais no trecho. Em 2022, foram registrados 71 acidentes, sete deles graves, além de uma morte.

Foto: Arquivo/GES
Já em 2026, até junho, a PRF contabilizou 18 acidentes, quatro ocorrências graves e um acidente com óbito. Duas pessoas morreram no local da ocorrência e uma terceira vítima faleceu posteriormente no hospital.
Entre os principais tipos de acidentes registrados neste ano estão colisões transversais, traseiras e frontais. A PRF aponta como causas mais frequentes a reação tardia dos condutores, o acesso à via sem observar as condições de segurança e a velocidade incompatível para o trecho.
Trânsito imprevisível faz parte da rotina
Morador de Dois Irmãos, o empresário Felipe Engelmann, de 35 anos, percorre diariamente o trecho da BR-116 até Novo Hamburgo. Além da preocupação com a segurança, ele convive com congestionamentos que tornam o tempo de viagem imprevisível.
Segundo ele, em dias de trânsito normal, o percurso entre o pórtico de Dois Irmãos e o bairro Rincão leva cerca de 15 minutos. Nos horários de pico ou quando há alguma ocorrência na rodovia, o mesmo trajeto pode praticamente dobrar de duração.
“Em dias tranquilos, faço esse percurso em 13 a 15 minutos. Quando há congestionamento, esse tempo chega facilmente a 25, 27 ou até 28 minutos.”
Na avaliação de Engelmann, a configuração da rodovia faz com que qualquer interferência provoque retenções.
“Basta um veículo parado no acostamento para muitos motoristas reduzirem a velocidade por curiosidade. Como há apenas uma pista em boa parte do trecho e poucos segmentos com duas faixas, qualquer interferência acaba formando um funil.”
Ele afirma que a situação piora com o fluxo de caminhões e aponta outros gargalos, como o acesso a Ivoti e a sinalização em alguns pontos da rodovia.
“O acesso a Ivoti concentra um grande fluxo de veículos e provoca retenções nos horários de pico. Também vejo necessidade de melhorar a sinalização, principalmente nas curvas e nos pontos de afunilamento.”
Outro problema observado pelo motorista é o comportamento de alguns condutores. “Há motoristas que usam a faixa da direita, destinada ao acesso a Ivoti, apenas para ultrapassar alguns carros e voltar para a pista principal. Esse tipo de manobra aumenta o risco de acidentes.”
Para ele, uma das situações mais difíceis de compreender é quando o trânsito para sem que haja um motivo aparente.
“Muitas vezes o trânsito simplesmente para. Se alguém observar aquele trecho entre a sinaleira do Sapatão e a subida da serra, é difícil entender por que o congestionamento se forma. Mas essa é a realidade de quem passa ali todos os dias.”
Engelmann também questiona a existência de um semáforo em uma rodovia federal com intenso fluxo de veículos. “É um absurdo ter uma sinaleira em uma BR com esse movimento”, finaliza.
Duplicação ainda deve demorar
Apesar do avanço representado pela contratação dos estudos de viabilidade, a expectativa é de que a duplicação ainda leve alguns anos até sair do papel. O prefeito de Dois Irmãos, Jerri Meneghetti, avalia que a região precisará enfrentar um longo caminho até a execução efetiva das obras.
“Vai demandar bastante tempo até que as obras de duplicação se concretizem de fato. Agora tem todo o processo referente à elaboração do projeto. Depois de projeto contratado e feito, tem todo o processo referente à execução da obra. Sabemos como a burocracia atrasa as obras no Brasil”, afirma.
Segundo o prefeito, além dos trâmites técnicos e administrativos, ainda existem dúvidas sobre a disponibilidade de recursos para a obra e sobre os prazos relacionados ao licenciamento ambiental. “Temos que nos questionar se haverá recursos para obra, tendo em vista que é comum obras paralisadas País afora. Isso que não estamos considerando, ainda, a possibilidade de atraso devido a licenças ambientais.”
Medidas urgentes antes da obra
Enquanto a duplicação avança apenas na etapa de estudos, lideranças regionais defendem intervenções capazes de melhorar a segurança e a fluidez do trânsito no curto prazo.
Para Meneghetti, a situação atual da rodovia exige providências antes que a obra definitiva seja executada. “Acho um avanço importante, mas a situação de nossa rodovia precisa de intervenções mais urgentes até que esta obra seja, de fato, concretizada. Estamos trabalhando em uma solução mais emergencial para que tenhamos mais segurança e fluidez na rodovia.”
As medidas emergenciais citadas referem-se ao pacote que prevê R$ 20 milhões em obras na BR-116, com a maior parte dos recursos destinada ao trecho da morte, entre Novo Hamburgo e Dois Irmãos. As intervenções devem priorizar melhorias na segurança e na fluidez do tráfego ao longo da rodovia.
Acidentes ano a ano
2022
- 71 acidentes
- 7 acidentes graves
- 1 morte
2023
- 78 acidentes
- 21 acidentes graves
- 14 mortes
2024
- 70 acidentes
- 21 acidentes graves
- 3 mortes
2025
- 80 acidentes
- 17 acidentes graves
- 3 mortes
2026 (até junho)
- 18 acidentes
- 4 acidentes graves
- 3 mortes
Total desde 2022
- 317 acidentes
- 70 acidentes graves
- Pelo menos 24 mortes
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