“Um menino de sorriso largo, carinhoso, superativo.” Assim a líder de call center Arachane Ferreira, de 36 anos, descreve o filho, Kayel Ferreira, que morreu na última segunda-feira (29), aos 17 anos. O jovem chegou a ficar uma semana internado após sofrer um acidente de trânsito na noite de 22 de junho, na Estrada Willy Moehlecke, no bairro Lomba Grande, em Novo Hamburgo.
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Foto: Arquivo pessoal
O estudante era passageiro de um Volkswagen Gol, com placas de Nova Hartz, conduzido por um amigo. Além deles, estava no carro a namorada do motorista, a qual eles levavam para casa. Durante o trajeto, o carro capotou em uma curva e, com o impacto, Kayel foi arremessado para fora do veículo.
Arachane afirma que não sabe detalhes sobre como o acidente aconteceu, mas que o filho estava sem cinto e bateu a cabeça. “Não quebrou nenhum osso ou membro. O dano foi apenas na cabeça”, diz. “Só sei que meu filho saiu e não voltou mais para casa”, lamenta.
Os outros ocupantes do carro não ficaram feridos.
Um adolescente com sonhos
Kayel morava com a mãe e o pai no bairro Canudos, em Novo Hamburgo. Além de cursar o ensino médio, o adolescente era Jovem Aprendiz pelo Senai e trabalhava no setor de montagem de calçados em uma empresa de Campo Bom.
Carismático e sonhador, Arachane conta que ele pensava no futuro com carinho: entre os planos estavam comprar um carro e iniciar um curso técnico que lhe proporcionasse uma vida confortável. No coração, porém, permanecia o desejo de se tornar jogador de basquete.
Kayel faria 18 anos no dia 28 de julho, quase um mês exato após a data do falecimento.
“Filho, volta pra gente”
A mãe conta que soube do acidente na madrugada daquela segunda-feira, quando policiais militares bateram à porta de casa, por volta das 3 horas, para informar que o filho estava em coma no Hospital Municipal de Novo Hamburgo (HMNH). Segundo ela, Kayel chegou a dizer o próprio nome ao ser socorrido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), mas perdeu a consciência logo depois.
Durante os dias de internação, a família manteve a esperança e permaneceu ao lado do adolescente. “Como somos espiritualizados, não deixamos de conversar com ele em nenhum momento. Todos os dias contávamos que horas eram, falávamos sobre o nosso cotidiano. Eu dizia: ‘Filho, volta para a gente, para comermos um churrasco que você mesmo vai assar'”, relembra.
Transferido para o Hospital Unimed, Kayel passou por procedimentos para controlar a pressão intracraniana, mas o quadro neurológico se agravou nos dias seguintes. No último domingo (28), a família foi informada de que ele apresentava sinais compatíveis com a evolução para morte encefálica.
Em meio à dor da despedida, Arachane diz que encontrou conforto no carinho demonstrado por familiares, amigos, colegas e professores. “Cada um tinha uma coisa boa ou um momento bom para contar sobre o Kayel. Ficamos extremamente emocionados. Vimos que ele era um menino de muitos atributos”, afirma.
“Meu filho sempre vai seguir comigo”
Mais do que a saudade, a mãe acredita que Kayel será lembrado pelo carinho que espalhou ao longo da vida. “O Kayel ficará na lembrança de cada um, pois a corrente de orações por ele enquanto estava no hospital era infinita. Ele lutou, nós lutamos e agora ele descansa em um lugar tranquilo, onde não há perigos”, diz Arachane.
Entre as memórias do adolescente que adorava comer, era “avoado”, tinha seu próprio tempo e gostava de estar cercado pelas pessoas que amava, a mãe também guarda com afeto episódios da infância que, segundo ela, já demonstravam os valores transmitidos pela família.
Um desses momentos aconteceu quando Kayel ainda frequentava a escolinha. Durante a primeira reunião de avaliação, a professora compartilhou uma atitude do menino que marcou Arachane. “Ela me disse: ‘Mãe, nós temos um menino muito especial e carinhoso. Ele foi o único que apoiou e ajudou um coleguinha que tinha deficiência, usava fraldas e tinha dificuldades para caminhar. Ele estendeu a mão e disse: ‘Vamos, amigo, devagar””, relembra.
Para a mãe, o gesto refletia a educação recebida em casa. “Nós somos umbandistas e acreditamos que tudo o que é feito com o coração volta em dobro. Foi assim que ele foi criado e educado”, afirma.
Diante do luto e das recordações, Arachane diz que guarda um sentimento que nunca deixará de existir: o orgulho por quem Kayel foi. “Meu filho sempre vai seguir comigo. Ele era um pedaço de mim e, embora meu coração esteja despedaçado, também se enche de orgulho pelo legado que ele deixou em tão pouco tempo na Terra”, finaliza.