Cinco municípios da região – Bom Princípio, Dois Irmãos, Feliz, Nova Petrópolis e São Vendelino – estão entre os dez com os menores índices de analfabetismo do Rio Grande do Sul. O dado integra o terceiro volume da série Cadernos RS no Censo 2022, lançado no último mês pelo governo estadual, com análises sobre alfabetização, escolaridade e frequência escolar com base no Censo realizado pelo IBGE.

Foto: Dário Gonçalves/Arquivo GES-Especial
De acordo com os dados, apenas 3% da população gaúcha com 15 anos ou mais não era alfabetizada em 2022. Apesar da média estadual positiva, o levantamento mostra contrastes significativos entre os municípios. Enquanto Lagoão (16,4%), Tunas (15,0%) e Gramado dos Loureiros (13,3%) lideram com os maiores percentuais de analfabetismo, cidades como Westfália (1,1%), Bom Princípio (1,3%), São Vendelino (1,3%), Feliz (1,4%), Dois Irmãos (1,4%) e Nova Petrópolis (1,4%) figuram entre os melhores desempenhos.
Esses resultados colocam o Vale do Caí, o Vale dos Sinos e a Serra em destaque positivo, com cidades que se aproximam da erradicação do analfabetismo.
Bom Princípio aposta na continuidade
Com um índice de apenas 1,3% de analfabetismo entre pessoas com 15 anos ou mais, Bom Princípio aparece entre os municípios com melhores resultados do Estado. A secretária de Educação, Márcia Rhoden, destaca que isso é fruto de um trabalho de longa data. “Não é fruto do acaso, mas sim o ápice de um trabalho contínuo e estratégico que vem sendo desenvolvido no município, de gestão em gestão”, afirma.
Entre as principais ações apontadas estão a oferta de atividades pedagógicas e lúdicas que vão além da sala de aula tradicional, com oficinas, projetos de leitura e eventos culturais voltados ao estímulo da leitura e da escrita. A secretária também ressalta o investimento constante na formação continuada de professores, com cursos e capacitações que permitem aos educadores incorporar novas metodologias e estratégias de ensino.
Outro destaque é a MostraMIP, feira de iniciação científica que incentiva o raciocínio crítico e a curiosidade dos alunos desde os primeiros anos, promovendo um aprendizado integrado e mais significativo.
Além dessas ações estruturadas, Rhoden enfatiza dois pilares como decisivos: um corpo docente qualificado e comprometido, e o forte envolvimento das famílias na vida escolar. “Quando as famílias se engajam e valorizam a educação, o ambiente se torna mais propício ao desenvolvimento das crianças. Essa parceria fortalece o processo de alfabetização e tem papel central nos resultados que estamos alcançando”, conclui.
Formação continuada também em Dois Irmãos
A secretária de Educação de Dois Irmãos, Denise Maldaner, afirma que o índice de apenas 1,4% de analfabetismo é reflexo de um trabalho coletivo e contínuo que envolve toda a comunidade escolar. “Professores, equipes diretivas, serventes, famílias, coordenação pedagógica e setor administrativo — todos fazem parte de um esforço que prioriza a permanência e o sucesso escolar dos estudantes”, destacou.
Assim como em Bom Princípio, a secretária destaca políticas públicas voltadas ao fortalecimento da alfabetização desde os primeiros anos, com destaque para a qualificação do trabalho na educação infantil e a formação continuada dos professores, baseada no Documento Orientador Curricular de Dois Irmãos (DOC-DI), em vigor desde 2019.
Outras iniciativas incluem o monitoramento do desempenho dos alunos com provas externas, a oferta de contraturno escolar para reforço e desenvolvimento, e a abertura semestral de turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Quando não há número suficiente de inscritos, o município encaminha os interessados a instituições parceiras da região, garantindo a continuidade da aprendizagem.
A articulação com instituições de ensino superior também é apontada como estratégica para a análise de indicadores e planejamento de ações pedagógicas. “O baixo índice de analfabetismo é reflexo de uma política educacional integrada, humanizada e comprometida com a aprendizagem de todos”, conclui a secretária.
Rolante e Canela entre os piores índices de frequência escolar
Apesar dos bons números na alfabetização, a frequência escolar entre adolescentes ainda é um desafio em alguns municípios da região. Em Rolante, no Vale do Paranhana, apenas 92,98% das crianças de 6 a 14 anos estavam na escola, colocando o município como o 7º pior do Estado nesse indicador que, na média estadual, ultrapassa os 98%.
A situação é ainda mais preocupante na faixa etária de 15 a 17 anos, correspondente ao ensino médio. Rolante aparece novamente entre os dez piores municípios do Estado, com apenas 60,95% dos adolescentes frequentando a escola. Também integram a lista cidades como Pareci Novo (62,45%), Presidente Lucena (66,15%) e Canela (69,33%).
Conforme a secretária de Educação de Rolante, Nara Voltz, os Índices de 2022 foram duramente afetados em razão do período da pandemia da Covid-19, pois houve uma lacuna na aprendizagem dos estudantes dos Anos Iniciais e adolescentes dos Anos Finais. “Não foram medidos esforços para que todos fossem de alguma forma atendidos. Outra dificuldade também existe na saúde emocional do período afastado das escolas e do próprio convívio social”, afirma.
Voltz afirma ainda que o município busca melhores estruturas e condições de atendimentos aos estudantes, assim como acompanhamento com equipe multidisciplinar e participação nos programas governamentais, buscando a intersetorialidade. “Há um trabalho-rede em que se discute as situações para intermediar e fazer os encaminhamentos e alinhamentos de cada ação a ser tomada. Uma recuperação efetiva com nossos estudantes, através de reforço escolar, temas transversais e o fortalecimento do vínculo familiar é crucial para a aprendizagem”, finaliza.
Em Canela, embora a responsabilidade da secretaria de Educação se estenda apenas até o 9º ano, a gestão reconhece o problema e acompanha os números com atenção, por meio de registros como as Fichas de Comunicação de Alunos Infrequentes (FICAI).
Segundo os dados mais recentes, a maior parte dos casos de infrequência escolar se concentra no 1º ano do ensino médio, o que reforça a vulnerabilidade da etapa de transição entre o fundamental e o médio. “Percebemos um desinteresse dos jovens pela vida escolar e uma atratividade para a inserção precoce no mercado de trabalho”, afirma a secretária Maria Gorete Rodrigues da Silva.
Entre os principais motivos relatados nas fichas estão a resistência dos próprios estudantes à frequência escolar e a necessidade de trabalhar, mesmo quando há esforço das famílias para manter os jovens nos estudos. A análise local vai ao encontro do levantamento do UNICEF, consultado pelo município, que aponta a falta de interesse como a principal causa de exclusão escolar entre adolescentes de 11 a 14 anos no Brasil.
Para enfrentar o problema, a prefeitura de Canela destaca a atuação da Rede de Apoio à Escola (RAE), que reúne representantes das áreas da educação, saúde, assistência social, cultura, esporte, segurança pública e das redes municipal, estadual e privada de ensino. O grupo se reúne mensalmente para analisar casos e elaborar planos de ação de acordo com as demandas identificadas.
Além disso, está em construção um plano de prevenção à evasão escolar, com foco inicial na rede municipal, mas que também pretende atuar em parceria com o Estado para apoiar a permanência dos alunos no ensino médio. A secretária também cita como relevante a divulgação do programa federal Pé de Meia, que oferece auxílio financeiro a estudantes de baixa renda, como forma de reduzir o abandono escolar por razões econômicas.
Região Metropolitana e Serra têm melhores índices de escolaridade
No recorte de nível de instrução da população com 25 anos ou mais, os municípios da Região Metropolitana, como Porto Alegre (19,9%), Cachoeirinha (23,3%), Canoas (25%) e Esteio (26,3%), aparecem entre os melhores do Estado, com os menores percentuais de adultos com baixa escolaridade (sem instrução ou com apenas o ensino fundamental incompleto). No interior, Lajeado, Bento Gonçalves e Guaíba também se destacam.
Em relação à média de anos de estudo da população adulta, Porto Alegre (11,8 anos) lidera o ranking estadual, seguida por Santa Maria (11,3) e Canoas (10,9). Na região da Serra, Gramado (10,7) aparece entre os dez municípios com melhores médias.
A secretária de Educação de Canoas, Beth Colombo, atribui os avanços a políticas voltadas à EJA, com foco na ampliação de vagas, formação docente e metodologias adaptadas às realidades locais. “Mais que números, esses resultados representam vidas transformadas. Reafirmamos nosso compromisso com uma educação inclusiva e voltada à justiça social”, destacou.
A secretária adjunta pedagógica da pasta, Gisele Martins, complementa que o município investe na divulgação ativa das vagas, na formação continuada de professores e em ações de permanência, como alimentação escolar e atendimento individualizado. Também são fundamentais as parcerias com instituições de ensino e o fortalecimento da rede de apoio, que envolve iniciativas como os Centros de Acesso a Direitos (CADs), a Diretoria de Inclusão, o Comitê Presença e o projeto Cada Jovem Conta, voltado ao acompanhamento individualizado dos estudantes.
“Apesar das adaptações pedagógicas, ainda enfrentamos desafios que refletem questões sociais estruturais, como a necessidade de muitas pessoas escolherem entre trabalhar para sobreviver ou continuar estudando. Reconhecendo esses obstáculos, seguimos promovendo a inclusão educacional de forma equitativa e com respeito às trajetórias de cada sujeito”, afirma Gisele.
Gramado aposta em incentivos para manter alto nível de escolaridade
Com 10,7 anos de média de estudo entre a população com 25 anos ou mais, Gramado aparece entre os dez municípios com melhores índices de escolaridade do Rio Grande do Sul. A Prefeitura atribui esse resultado a um conjunto de políticas voltadas tanto ao ensino formal quanto à valorização da educação ao longo da vida.
Segundo a administração municipal, o incentivo à qualificação começa no próprio funcionalismo: o plano de carreira dos servidores premia quem busca continuar os estudos. Além disso, o município oferece transporte universitário gratuito para estudantes que frequentam instituições em cidades como Novo Hamburgo, São Leopoldo, Caxias do Sul e Taquara. A gestão do serviço é feita pela União Gramadense de Estudantes.
Na área da EJA, a EMEF Mosés Bezzi oferta turmas presenciais e a distância no turno da noite. O município também incentiva a participação no Encceja, disponibilizando aulas preparatórias gratuitas no Polo UAB Véra Grin, com apoio voluntário de professores da rede municipal. Parte do conteúdo também foi gravada e publicada no YouTube para ampliar o acesso.
O município ainda abriga instituições de ensino como a Unopar e o Senac, com cursos técnicos, de graduação e pós-graduação, e mantém um polo da Universidade Aberta do Brasil (UAB) com diversas formações superiores gratuitas desde 2018.
Para os próximos anos, Gramado aposta em um passo ainda maior: a instalação de uma unidade do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS). A cidade foi uma das 100 escolhidas para receber o novo campus federal, com previsão de oferta de ensino técnico e, futuramente, graduação gratuita. Segundo a prefeitura, a mobilização para receber a instituição teve como base a preocupação em ampliar ainda mais as oportunidades de formação e qualificação da população.
Desigualdades persistem por raça/cor
O caderno também aponta disparidades significativas por raça/cor. Entre os indígenas, 53,2% têm baixa escolaridade, percentual que cai para 43% entre os pardos, mas ainda assim é superior à média geral (35%). Já no ensino superior, 21,1% dos brancos e 36,1% dos amarelos haviam concluído o nível, contra 9,9% dos pretos, 9,7% dos pardos e 7,7% dos indígenas.
Mulheres, em geral, apresentaram níveis de escolarização mais altos do que os homens, com exceção da população indígena.
Sobre a publicação
O Cadernos RS no Censo 2022 é uma série temática produzida pelo Departamento de Economia e Estatística (DEE), da Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão (SPGG), com o objetivo de traduzir os principais dados do Censo de forma acessível a gestores públicos, pesquisadores e à sociedade. A edição recém-lançada foca exclusivamente na educação, abordando dados de alfabetização, frequência escolar, escolaridade e média de anos de estudo.
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