Os resultados mais recentes do governo do Rio Grande do Sul mostram um padrão em diferentes regiões do Estado: municípios de pequeno porte tendem a alcançar mais facilmente as metas de cobertura vacinal, enquanto cidades maiores enfrentam desafios mais complexos para garantir a imunização da população.
Na última semana, o governo do Estado, por meio da Secretaria da Saúde (SES), entregou os certificados da terceira edição do programa “Município Amigo da Vacina” — em parceria com o Ministério Público —, reconhecendo 431 municípios que atingiram, em 2025, as metas de cobertura vacinal para três imunizantes do calendário básico infantil e adolescente: pentavalente, tríplice viral e contra o HPV. O reconhecimento não envolve repasse financeiro aos municípios.
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Foto: Felipe Nabinger/Divulgação
Na região de cobertura do Grupo Sinos, municípios como Bom Princípio, Lindolfo Collor e Presidente Lucena se destacam por manter desempenho máximo no programa ao longo das três edições da certificação estadual. O grupo integra uma lista de apenas 28 cidades que se consolidaram como referência em vacinação no Estado e ganharam pelo terceiro ano consecutivo o Selo Ouro — uma média de 8.190 habitantes em cada, conforme o censo de 2022 do IBGE.
Segundo a diretora do Centro Estadual de Vigilância em Saúde (CEVS), Tani Ranieri, o objetivo do programa é induzir boas práticas na rotina dos serviços de saúde. A lógica é simples: ao levar crianças e adolescentes às unidades de saúde para uma vacina, outras podem ser atualizadas no mesmo momento, ampliando a cobertura geral.
Como municípios menores se destacam
De acordo com o CEVS, o melhor desempenho de cidades de pequeno porte está relacionado principalmente à forma como a rede de saúde consegue se organizar no território. É mais viável realizar ações de busca ativa e vacinação extramuros em municípios menores, incluindo visitas domiciliares e identificação mais precisa de crianças e adolescentes que estão com vacinas em atraso.
“Municípios menores costumam atingir melhores índices porque ações como a vacinação casa a casa ou estratégias descentralizadas são mais viáveis. Muitas vezes, é possível identificar por bairro quais crianças precisam ser vacinadas”, explicou Tani.
Essa proximidade entre equipes de saúde e população permite um acompanhamento mais direto da situação vacinal.
Lindolfo Collor aponta combinação de busca ativa e escola como chave
Lindolfo Collor figura como um dos municípios com melhor desempenho no programa “Município Amigo da Vacina”, mantendo o selo ouro pelo terceiro ano consecutivo. O resultado, segundo a secretaria municipal de Saúde, é fruto de um trabalho contínuo de acompanhamento das famílias.
De acordo com a secretária Sara Lamb Bohn, as visitas domiciliares têm papel central, especialmente na identificação de vacinas em atraso. “É um trabalho constante e de longos anos realizado pela Atenção Primária com apoio fundamental das Agentes Comunitárias de Saúde, que nas visitas domiciliares revisam as carteirinhas para verificar se alguma dose pode estar atrasada”.
Além da atuação direta nos domicílios, o município também aposta na integração entre saúde e educação como estratégia de ampliação da cobertura vacinal. Segundo Sara, a parceria entre as secretarias permite levar informações às famílias de forma mais ampla e contínua, reforçando a importância da imunização para o controle de diversas doenças.
O desafio das cidades maiores
Já em municípios de maior porte, o cenário é mais complexo. Segundo o CEVS, a estratégia precisa ser diferente, com maior dependência de ações estruturadas em larga escala. Entre as principais medidas estão: vacinação em escolas e integração com a área da educação; campanhas de comunicação mais amplas; fortalecimento da atenção básica; e o enfrentamento à resistência vacinal.
“Enquanto municípios menores conseguem vacinação casa a casa, os maiores precisam investir mais em estratégias institucionais e de comunicação”, afirmou a diretora.
Apesar do padrão, o Estado alerta que não há uma única causa para a diferença de desempenho entre os municípios. “Cada cidade precisa identificar onde melhor deve agir. Às vezes há problemas distintos como dificuldades de acesso, horários de atendimento das unidades de saúde, organização da rede, vínculo entre profissionais e comunidade ou baixa adesão localizada em determinados bairros”, comenta.
Outro fator destacado é o impacto da desinformação e de grupos antivacina, que exigem respostas mais robustas das grandes cidades. “Não existe uma explicação única. É preciso identificar as causas específicas em cada território para definir estratégias adequadas”, destacou Tani Ranieri.
São Leopoldo reconhece dificuldades e trata recuperação dos índices como prioridade
Entre os maiores municípios da região, São Leopoldo ficou fora da certificação estadual nesta edição. Para a secretária municipal de Saúde, Iara Cardoso, o resultado preocupa porque reflete a queda na proteção de crianças e adolescentes contra doenças preveníveis.
Segundo ela, parte da dificuldade está relacionada ao aumento da hesitação vacinal e à circulação de desinformação sobre imunizantes nos últimos anos, fatores que contribuíram para gerar dúvidas entre muitas famílias. Também existem desafios operacionais, como a organização necessária para a aplicação de vacinas disponibilizadas em frascos com múltiplas doses.
Apesar disso, a secretária ressalta que esses fatores não podem servir de justificativa para os resultados abaixo do esperado. “Os índices estão abaixo do que consideramos adequado e isso exige resposta imediata. Nenhuma dessas questões diminui a nossa responsabilidade”, afirma.
Para reverter o cenário, o município ampliou a vacinação nas escolas, intensificou a busca ativa de crianças e adolescentes com vacinas em atraso e passou a reforçar o contato com famílias que ainda não completaram os esquemas vacinais.
Iara destaca que a recuperação das coberturas vacinais depende de um esforço conjunto entre poder público, profissionais de saúde, escolas e comunidade. “Não podemos naturalizar esse cenário. Cada criança com a caderneta incompleta representa uma preocupação para todos nós”, ressalta.
Como estão os municípios da região
Os números das três vacinas avaliadas ajudam a ilustrar esse cenário. Municípios de menor porte, como Lindolfo Collor e Presidente Lucena, apresentam coberturas elevadas em todas as vacinas analisadas, enquanto cidades como Canoas e São Leopoldo registram índices inferiores, especialmente na imunização de adolescentes com HPV. Ambas não conquistaram selos nesta edição.
Em paralelo, municípios de médio porte, como Novo Hamburgo, aparecem em posição intermediária, com desempenho acima de alguns vizinhos, mas ainda abaixo das metas ideais. A cidade recebeu o Selo Prata graças aos índices alcançados com a tríplice viral e HPV. Novo Hamburgo esteve próxima de conquistar o Selo Ouro, para isso, teria que ter atingido o índice de 95% na pentavalente, mas ficou com 93,01%.
A secretária de Saúde, Betina Espindula, afirma que a vacinação tem sido prioridade da gestão e que diferentes estratégias vêm sendo adotadas para ampliar a cobertura no município. Entre as medidas, ela destaca a ampliação do horário de atendimento da Casa de Vacinas até as 19 horas durante a semana. “Além da abertura frequente aos sábados – como ocorrerá durante o mês de junho.”
Betina também cita ações de conscientização, vacinação extramuros e reforço das equipes para campanhas itinerantes como estratégias para facilitar o acesso da população. “Além disso, investimos na qualificação da nossa rede de frio, com a manutenção e aquisição de novas câmaras de conservação de vacinas, garantindo mais segurança e qualidade no armazenamento de vacinas”, afirmou. “Essas medidas reforçam o compromisso com a prevenção, a promoção da saúde e a proteção da nossa população”, completou.
Cidades como Campo Bom, Feliz, Morro Reuter, Santo Antônio da Patrulha, São José do Hortêncio e Três Coroas receberam o Selo Ouro. Com o prata, ficaram Araricá, Canela, Dois Irmãos, Estância Velha, Igrejinha, Imbé, Ivoti, Montenegro, Parobé e Riozinho — além de Novo Hamburgo. E o Selo Bronze foi conquistado por Esteio, Gramado, Nova Hartz, Nova Petrópolis, Picada Café, São Sebastião do Caí e Santa Maria do Herval.
Entre as principais cidades de cobertura do Grupo Sinos, além de Canoas e São Leopoldo, não receberam nenhum selo as seguintes cidades: Imbé, Sapiranga, Sapucaia do Sul, Taquara e Tramandaí.
Desinformação causa hesitação, admite secretária de São Leopoldo
Secretária de Saúde de São Leopoldo, Iara Cardoso admite preocupação com a situação. “Precisamos reconhecer que existe um desafio importante relacionado à hesitação vacinal. Muitas famílias foram expostas, nos últimos anos, a uma quantidade enorme de desinformação sobre vacinas. Isso gerou dúvidas, insegurança e, em alguns casos, a decisão de adiar ou não realizar a imunização. Esse é um problema que precisa ser enfrentado com informação qualificada, diálogo e presença ativa dos serviços de saúde junto à comunidade”, afirma.
Conforme a secretária, também existem barreiras operacionais que precisam ser superadas. “Algumas vacinas são disponibilizadas em frascos com múltiplas doses, o que exige uma organização específica para evitar desperdícios. O Ministério da Saúde vem discutindo alternativas para flexibilizar essa situação, o que poderá facilitar ainda mais o acesso aos imunizantes e contribuir para que estejam disponíveis de forma permanente quando as famílias procurarem os serviços”, aponta. “Os índices estão abaixo do que consideramos adequado e isso exige resposta imediata. Por isso, estamos ampliando a vacinação nas escolas, fortalecendo a busca ativa de crianças e adolescentes com vacinas em atraso, entrando em contato com famílias que ainda não completaram os esquemas vacinais e implementando novas estratégias de comunicação para lembrar e orientar os responsáveis”, enumera.
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