Lançado em setembro pelo governador Eduardo Leite (PSD), o SUS Gaúcho promete injetar R$ 1,025 bilhão na saúde do Rio Grande do Sul até 2026. Na região, o programa começa a apresentar resultados concretos, especialmente nas especialidades de oftalmologia e ortopedia de joelho, que são as que concentram as maiores filas de espera no estado.
Ao contrário de programas que pulverizam recursos de forma igualitária, o SUS Gaúcho aposta na regionalização. A estratégia é transformar cidades com estrutura hospitalar em referências regionais, que passam a atender pacientes de diversos municípios vizinhos. É por isso que localidades menores, como Lindolfo Collor, Nova Hartz ou Morro Reuter, não percebem repasses diretos. Mas isso não significa que não estejam sendo beneficiadas.

Foto: Luís André/Secom
Toda a regulação ocorre pelo Gercon (Gerenciamento de Consultas), que direciona pacientes conforme a disponibilidade dos hospitais habilitados. Isso permite, por exemplo, que um morador de Presidente Lucena seja operado em Parobé ou que um paciente de Rolante passe por consulta oftalmológica em Campo Bom ou Portão. A ideia é reduzir a dependência de Porto Alegre e aproximar o atendimento da residência dos usuários.
Parobé e Campo Bom despontam como principais referências
O Hospital São Francisco de Assis, em Parobé, tornou-se a grande referência regional em cirurgias de joelho pelo SUS Gaúcho. Em um mês desde o início do programa, em 15 de outubro, o hospital já atendeu 460 pacientes e realizou 105 cirurgias ortopédicas. A expectativa é ultrapassar 500 cirurgias até o fim de 2025, beneficiando mais de 1,4 mil pessoas.
De acordo com o secretário de Saúde, Adriano Azeredo, a fila municipal foi zerada. Já o diretor-técnico do hospital, Leandro Cezar, ressalta a rapidez de todo o processo. “Estamos com tempo recorde entre a primeira consulta e a realização da cirurgia, de menos de três semanas. O primeiro paciente que foi operado durante o mutirão já estava esperando há oito anos para fazer a cirurgia de joelho.”
Em oftalmologia, a fila, que tinha 1.403 pessoas em agosto, caiu para 337 em novembro, uma redução de 76%.
Em Campo Bom, o Hospital Dr. Lauro Reus foi habilitado para realizar cirurgias traumatológicas de alta complexidade, como artroplastia de joelho e quadril. Desde o lançamento do programa, em 25 de setembro, os números de agendamentos dispararam: foram 273 consultas em oftalmologia, 72 em traumatologia/ortopedia, 67 em bucomaxilofacial e 71 em ginecologia.
“Apesar de pouco tempo para ver uma redução significativa nas filas, o que nos chamou atenção foi na especialidade de bucomaxilofacial, quase zerada. A tendência é de melhora contínua, conforme os mutirões se mantêm”, informou a administração.

Foto: Luís André/Secom
Igrejinha e Santo Antônio com mutirões de consultas
Os hospitais Santo Antônio da Patrulha, em Santo Antônio da Patrulha, e o Bom Pastor, em Igrejinha, iniciaram mutirões de consultas oftalmológicas. Somadas, as ações buscam alcançar cerca de 20 mil atendimentos até dezembro, atendendo a dezenas de municípios.
Os mutirões começaram em 15 de outubro. No Santo Antônio da Patrulha, foram realizadas 1,6 mil consultas até 10 de novembro, com previsão de ultrapassar 12,5 mil atendimentos até o fim do ano. No Bom Pastor, somente em outubro, foram mais de 2 mil consultas.
A enfermeira Mônica Fernandes, do Hospital Santo Antônio da Patrulha, destaca que a demanda reprimida vinha de anos. “Estamos recebendo pacientes com catarata, pterígio e também aqueles que precisam de óculos. Muitos estavam há muito tempo na fila do SUS. Realizamos os exames e já encaminhamos para cirurgia quando necessário. Atendemos 23 municípios e estamos conseguindo reduzir a fila de espera”, afirma.
Em Igrejinha, o diretor-geral do Bom Pastor, João Schmitt, reforça que a ampliação dos atendimentos tem impacto direto na população da região. “Em 90 dias, prestaremos atendimento completo para mais de 7,4 mil pessoas. Muitas esperariam ainda mais se não fosse o programa. É uma verdadeira revolução assistencial que estamos vivendo”, diz.
Em Taquara, o SUS Gaúcho já destinou recursos para diferentes frentes de atendimento. O município recebeu R$ 6,9 mil para o transporte de pacientes a outros municípios e está habilitado para o fortalecimento da equipe de atenção domiciliar, que deve receber repasse temporário de R$ 13 mil mensais.
Além disso, houve incremento nos atendimentos especializados. Somente em outubro, foram realizadas 299 consultas oftalmológicas para pacientes de Taquara, além de 17 consultas ortopédicas na área de joelho. Apesar do avanço, a secretaria municipal estima que ainda há mais de 3 mil pessoas na fila por consulta oftalmológica. A expectativa do município é reduzir cerca de 40% dessa fila até o fim do ano.
Portão reforça atendimento regional em oftalmologia
O Estado inaugurou no mês passado a reforma e ampliação do Centro de Oftalmologia da Fundação Hospitalar Educacional e Social de Portão (Fuhesp). A obra, financiada pelo programa Avançar Mais na Saúde, recebeu R$ 1,24 milhão do governo e R$ 373,22 mil de contrapartida da instituição, renovando 425 metros quadrados da unidade. A intervenção modernizou área física, com melhorias de acessibilidade, segurança e ambientação.
O presidente da Fuhesp, Guilherme Vieira, ressalta que a mudança também passa pelo financiamento. “O SUS Gaúcho vai pagar R$ 270 por consulta, o valor de uma consulta médica normal. Isso faz muita diferença para o hospital”, afirma. Ele adianta que a instituição se prepara para ampliar outros serviços: “Em breve teremos mamografia, colonoscopia, endoscopia, ecografia, raio-x e tomografia disponíveis para Portão e para os municípios que desejarem encaminhar seus pacientes.”
Atualmente, o Centro de Oftalmologia é referência para 37 municípios e oferece atendimento integral pelo SUS, incluindo oftalmologia geral (adulto e pediátrica), tratamento de glaucoma, plástica ocular e cirurgias de média e alta complexidade.
Além disso, Portão já encaminhou 49 consultas e procedimentos de oftalmologia e outros 45 para traumatologia — que são realizados tanto na cidade, quanto em Parobé.
Estância Velha, Gramado e Sapiranga ampliam acesso
Em Estância Velha, os reflexos também já são visíveis. Segundo o secretário de Saúde, Yuri Campos, a fila de oftalmologia, que tinha cerca de 600 pessoas, já foi reduzida pela metade. O município também aguarda o início de atendimentos em ginecologia e dermatologia, com previsão de novos repasses em 2026.
Além disso, Estância Velha recebeu investimentos de R$ 10 milhões para ampliação do Hospital Municipal Getúlio Vargas e deve receber novos aportes no próximo ano, incluindo recursos para a instalação de UTIs. Há expectativa de que o hospital local possa se tornar maternidade de referência.
Em parceria com o Hospital Arcanjo São Miguel, Gramado foi habilitado para realizar 16 cirurgias de joelho mensais. O município também recebeu incentivo para transporte sanitário. “Esse apoio é fundamental, pois contribui de forma significativa para o deslocamento de pacientes aos serviços de referência. Trata-se de um auxílio de grande importância, visto que o município frequentemente onera-se com essas despesas”, comenta o secretário de Saúde, Jeferson Moschen.
O sistema de agendamento pelo Gercon está em fase final de organização, e a expectativa é que os procedimentos comecem o quanto antes. “Esse alinhamento entre município, hospital e Estado reforça a importância de políticas públicas bem estruturadas e voltadas ao cuidado com a saúde dos cidadãos”, finaliza Moschen.
E em Sapiranga, o aumento também ocorreu no número de atendimentos, chegando a 64 consultas de ortopedia de joelho em outubro e 115 até a metade novembro; e 171 consultas de oftalmologia em outubro, saltando para 360 em novembro.
Resultados através das referências
Municípios menores nem sempre recebem repasses diretos, mas estão sendo atendidos pelas referências regionais. Neste primeiro mês, Rolante registrou 38 consultas de ortopedia e 177 atendimentos em oftalmologia, com fila de joelho zerada. Nova Hartz também comemora: “Diminuiu nossa fila de espera com a realização de 8 cirurgias de joelho e 32 de catarata, zerando essa fila”, afirma o secretário Adrião da Silva.
Presidente Lucena recebeu 27 consultas novas em oftalmologia adulto e 26 em ortopedia de joelho, além de 3 em ortopedia de pé. As filas reduziram nas duas especialidades, embora ainda não estejam zeradas devido à demanda contínua. Em São Francisco de Paula, a principal demanda, oftalmologia, teve 157 agendamentos. Houve ainda dois atendimentos em otorrinolaringologia e três em ortopedia.
Em Santa Maria do Herval, o município realizou mutirões de consultas de oftalmologia e ortopedia de joelho, com 13 atendimentos oftalmológicos e 24 consultas ortopédicas. Segundo a Prefeitura, a ação permitiu zerar a fila da ortopedia de joelho e reduzir de maneira significativa a espera por consultas de especialidades, especialmente na área de oftalmologia.
Picada Café recebeu consultas de mutirão em oftalmologia e traumatologia, além de ter sido contemplada com R$ 20 mil mensais pelo programa Acompanha RAPS, voltado para o desenvolvimento de ações em saúde mental. Os pacientes estão indo para consultas de avaliação, com previsão de procedimentos e cirurgias conforme a organização dos serviços.
Em Canoas, cidade referência para muitos municípios, os recursos do SUS Gaúcho chegaram por meio do Programa Assistir, com foco no custeio de leitos e na manutenção da estrutura hospitalar. A Secretaria Municipal da Saúde informa que houve incremento nos valores destinados às UTIs, às portas de entrada das emergências e ao programa de captação de órgãos para transplante.
No Hospital Nossa Senhora das Graças, o repasse mensal aumentou em R$ 243.895,35, valor aplicado no pagamento de médicos e na compra de insumos utilizados nos 20 leitos de UTI e no atendimento da emergência. Já no Hospital Universitário, o incremento mensal foi de R$ 944.214,20, também destinado à equipe médica e aos materiais necessários para manter os 85 leitos de UTI em operação.
Como os repasses servem para custeio da rotina hospitalar, não estão relacionados a mutirões, atendimentos extras ou redução de filas, reforça a prefeitura.
Impacto ainda limitado
Outros municípios ainda sentem pouco os efeitos do programa. Morro Reuter recebeu cerca de 10 consultas de oftalmologia e traumatologia. Nova Petrópolis não registrou mudanças nos atendimentos até o momento, mas recebeu R$ 5.724 para auxílio ao serviço de transporte. São Sebastião do Caí foi beneficiado apenas com transporte sanitário, sem repasses para especialidades devido a questões de pactuação estadual.
Em Riozinho, o SUS Gaúcho tem garantido ao município um repasse mensal de R$ 9,4 mil para o transporte sanitário eletivo. Segundo o prefeito Airton Trevizani da Rosa, o impacto mais visível até agora ocorre na área de oftalmologia, onde houve agilidade nas consultas e cirurgias de catarata. O prefeito afirma que há redução parcial das filas, embora longe de uma solução completa. “A previsão era zerar algumas especialidades, mas, pelo andamento, acredito que isso não será possível”, avalia.
Bom Princípio teve o serviço de otorrinolaringologia habilitado no Hospital São Pedro Canísio, mas os atendimentos ainda não começaram. A execução depende de uma deliberação da Comissão Intergestores Bipartite (CIB-RS), que aprova oficialmente a oferta dos serviços. A expectativa é que as primeiras consultas sejam realizadas até o fim do ano.
Canela já realizou 14 cirurgias de otorrinolaringologia, 22 de cirurgia geral e uma ginecológica, recebendo R$ 34.687,25 pelo Programa Mais Acesso a Especialistas (PMAE). Estão previstas 30 cirurgias no Hospital de Canela e uma de joelho em Caxias do Sul. No momento, o município aguarda conseguir cadastrar pacientes no Gercon para exames e cirurgias mais complexas.
Dois Irmãos foi contemplado com consultas em oftalmologia e ortopedia de joelho, incluindo procedimentos cirúrgicos. A gestão municipal tem boas expectativas com a recente inauguração do SER Mulher e do ambulatório 60+, que deve trazer mais fluidez às demandas desses públicos específicos.
Em Ivoti, a secretaria de Saúde observa avanços nos encaminhamentos via regulação. “Pacientes que aguardavam há muito tempo em filas estão sendo chamados para atendimento.”
Sapucaia decidiu não aderir
Sapucaia do Sul optou por não aderir ao SUS Gaúcho. Conforme a secretária Flávia Motta, o município está sob decreto de calamidade financeira na saúde, e a adesão exigiria ampliação significativa do quadro de profissionais e especialistas, o que é inviável no momento. Além disso, o programa não contemplaria inicialmente a demanda reprimida local, já que o encaminhamento passaria a depender exclusivamente da regulação estadual.
Visão regional
O prefeito de Lindolfo Collor, Gaspar Behne, que também preside a Associação de Municípios do Vale do Caí (Amvag), reconhece que o impacto imediato ainda é limitado, mas se mostra otimista com o futuro do programa. “Lindolfo Collor é beneficiado pelo SUS Gaúcho através das suas referências regionais. Diretamente o município não recebe deste recurso. Nossas marcações seguem ocorrendo da mesma forma, não ficamos sabendo se são em decorrência do SUS Gaúcho ou não”, explica.
Segundo Behne, os recursos estão chegando aos municípios e ampliando referências. “Campo Bom, Novo Hamburgo, São Leopoldo e Estância Velha devem receber novas especialidades, algumas ainda não definidas. Em Taquara e Sapiranga isso já existe, e o Hospital de Ivoti também tem interesse em investir em infraestrutura, possivelmente com recursos do programa Avançar Mais na Saúde”, afirma.
O prefeito destaca que a traumatologia foi a especialidade que mais avançou até agora. “Só a traumato realmente decolou até agora. Estamos esperando que Ivoti e Dois Irmãos também recebam recursos do programa. Faltam reuniões para definir exatamente quais recursos, especialidades, e de que forma isso se adapta a hospitais menores.”
Sobre os prazos, Behne é realista: “Os recursos previstos vão até 2027, então o impacto imediato ainda é limitado. As especialidades estão avançando em Porto Alegre, mas as referências regionais ainda levarão tempo para refletir aqui. Mesmo assim, estou muito otimista. Se tudo acontecer como foi apresentado no lançamento do SUS Gaúcho, teremos um grande avanço.”
Como presidente da Amvag, Behne acredita que será possível ampliar muito as referências SUS na região. “Isso beneficia os sete hospitais da região, reduzindo a necessidade de ir a Porto Alegre e ajudando a desafogar os grandes hospitais.”
Ele cita o exemplo do Hospital de Pronto Socorro (HPS) de Canoas, que atende pacientes de mais de 60 municípios e passa por reformas após ter sido inundado na enchente de 2024. “Por isso é importante regionalizar o SUS. Se os recursos chegarem e conseguirmos investir em infraestrutura e equipamentos, os pacientes poderão ser atendidos nas próprias regiões.”
Perspectivas para 2025 e 2026
O SUS Gaúcho prevê mais de 77 mil consultas extras em todo o estado até dezembro, com prioridade para reduzir em pelo menos 70% as maiores filas de espera nas especialidades de ortopedia de joelho e oftalmologia geral adulto. Na região, os resultados já começam a aparecer, especialmente em Parobé, Estância Velha e Campo Bom.
A continuidade e ampliação dos atendimentos dependem da manutenção dos repasses estaduais e da liberação de novos agendamentos pelo Gercon. Novas especialidades devem ser definidas ao longo de 2026, conforme a infraestrutura dos hospitais seja adequada e os processos de habilitação avancem.
O programa também investe em outras frentes: R$ 18 milhões estão sendo destinados ao Acompanha Raps, voltado à saúde mental, com previsão de habilitar até 90 equipes multiprofissionais em municípios prioritários. Segundo a Secretaria Estadual da Saúde, a distribuição dos recursos prioriza localidades com carência de serviços, altas taxas de suicídio, histórico de judicialização de casos, número elevado de internações psiquiátricas ou impacto recente das enchentes. Na região, Araricá, Capela de Santana, Parobé, Picada Café e Santa Maria do Herval foram contemplados pela iniciativa.
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