No último dia 13 de janeiro, a lei que proíbe o uso de celulares nas escolas com o objetivo de reduzir distrações e fortalecer o aprendizado completou um ano. Passados estes 12 meses, com um novo ano letivo iniciando, profissionais da área e os próprios estudantes avaliam o que mudou, na prática, dentro das salas de aula.

Foto: Isaías Rheinheimer/GES-Especial
Entre relatos de adaptação difícil, resistência inicial e ajustes nas rotinas, eles apontam ganhos nas relações humanas e sinais de melhora na atenção e no envolvimento com o conteúdo. A pedagoga Janaína Regra, diretora da Escola de Aplicação Feevale, conta que o primeiro desafio foi decidir como aplicar a norma sem transformar a escola em um espaço excessivamente punitivo. A ideia de recolher os aparelhos dos alunos foi logo descartada. “A tal caixinha não é a nossa cara enquanto escola”, relata.
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Por isso, o caminho foi estimular que cada aluno fosse responsável por guardar o celular. “A orientação foi para que assim que entrassem na escola, já guardassem o aparelho na mochila. No início foi muito difícil, a gente teve muitos celulares recolhidos”, admite. Contudo, a adaptação foi rápida e hoje a norma já não encontra resistência.
Isso porque os alunos, segundo a pedagoga, passam a enxergar outras possibilidades que antes acabavam sendo dispersadas pela necessidade de estar online. “Eles passam a enxergar as pessoas. Começamos a ter mais relações humanas, embates, as coisas naturais da vida. Mudou muito a relação entre eles, e, consequentemente, a aprendizagem evoluiu porque a atenção fica para o que importa, não tem mais algo que vibra no bolso”, pontua.
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O secretário de Educação de Novo Hamburgo, André Luís da Silva, também aponta ganhos nas relações interpessoais entre os alunos da rede pública. “Houve de certa forma inclusive um incremento nas relações sociais entre os alunos, principalmente os mais velhos”, afirma.
Os gestores acrescentam, ainda, que as escolas precisaram ser criativas para manter os alunos longe do celular também no período do recreio. “O recreio serve para eles utilizarem o espaço da escola, jogar futebol, descansar, conversar com o colega. É um momento para ‘esvaziar’ a mente”, opina Janaina.
Já nas escolas municipais, os professores passaram a organizar os recreios com atividades dirigidas, oferecendo jogos de xadrez, bolas para futebol e revistas para leitura. “São várias ações que cada escola pontualmente, mediante a característica do seu grupo, acabou introduzindo”, explica Silva.
Avaliação positiva de todos os lados
Na avaliação da pedagoga Janaína Regra, mesmo sem indicadores quantitativos formais, a percepção pedagógica é positiva neste período. Além de perceber o desenvolvimento dentro da sala de aula, ela destaca que o processo também qualificou o trabalho dos professores. “Os professores estão muito mais tranquilos porque agora têm os estudantes por inteiro”, sublinha.
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Quem também faz uma análise parecida da experiência é a presidente do Conselho Estadual de Educação (CEEd/RS), Fátima Anise Rodrigues Ehlert. “A lei teve um impacto extremamente positivo. Foi possível abrir espaço para a socialização, a leitura e novas possibilidades de interação no ambiente escolar”, afirma.

Foto: Isaías Rheinheimer/GES-Especial
Fátima também chama atenção para a saúde mental dos estudantes. “A ansiedade dos estudantes diminuiu significativamente, pois anteriormente as informações externas muitas vezes sobrepunham-se ao processo de ensino e aprendizagem”, observa. O ministro da Educação, Camilo Santana, também fez observação parecida recentemente. Segundo ele, o brasileiro passa mais de 9 horas por dia diante de telas.
“Nós somos o segundo país do mundo que fica o maior tempo na frente de uma tela. Isso é um prejuízo muito grande para crianças e adolescentes, causa ansiedade, causa déficit de atenção, causa transtornos, distúrbios mentais”, destaca.
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Já o secretário de Educação de Novo Hamburgo se mostra prudente nessa conclusão. Ele pondera que ainda é cedo para conclusões definitivas sobre desempenho acadêmico, contudo, vê como ganho o fato de que, ao menos durante o período escolar, os alunos estejam desconectados. “No momento que pelo menos durante quatro horas do dia eles fiquem sem o uso do celular e se utilizem das tecnologias que a escola mesmo pode proporcionar para fins pedagógicos, obviamente a gente vai ter um ganho”, analisa.

Foto: Juliano Piasentin/GES-Especial
O novo regramento, como observa André Luís da Silva, não representou o fim do uso da tecnologia para ampliar o conhecimento. A presidente do CEEd/RS reforça que tecnologia e pedagogia não são incompatíveis desde que haja intencionalidade.
“Usar a tecnologia a favor do ensino já é possível, mas isso requer planejamento e intencionalidade pedagógica do professor”, coloca Fátima. A visão converge com o que ocorre na escola privada de Novo Hamburgo, que mantém uso controlado. “O que não pode é dispersar para coisa fútil”, acrescenta Janaína.
O Ministério da Educação anunciou que realizará, no primeiro semestre de 2026, uma pesquisa nacional para analisar os desdobramentos da lei nos diferentes sistemas de ensino.
Do “estresse” inicial à adaptação
Entre os estudantes, o primeiro impacto foi sentido como abstinência. Morador de Estância Velha, Henrique Hansen, 16 anos, aluno do 2º ano do ensino médio, reconhece que fazia uso frequente do celular em sala. “Acho que boa parte dos estudantes tinha esse hábito do uso do celular, principalmente para jogar, olhar as redes sociais, não para conteúdo pedagógico”.

Foto: Isaías Rheinheimer/GES-Especial
A adaptação, segundo ele, foi complicada. “Tivemos algumas semanas bem conturbadas com a questão do celular, a gente sentia necessidade de usar. Ficava estressado, não conseguia se concentrar, mas depois a gente conseguiu achar outras alternativas, começou a prestar mais atenção na aula, ficar mais concentrado, ter uma relação melhor com o colega”, avalia.
Morador de Novo Hamburgo e estudante do 9º ano do ensino fundamental, Frederico Geremia, 14 anos, também percebe ganhos e entende que o aprendizado se tornou mais coletivo. “Hoje em dia, quando se tem uma dúvida, a gente pergunta para os professores, eles podem nos explicar muito melhor do que um chat. Se eu pergunto e outro colega tem a mesma dúvida, o professor explica pra todos já”, pontua.

Foto: Isaías Rheinheimer/GES-Especial
Volta às aulas: números da região
A volta às aulas na rede estadual e na maioria das escolas privadas ocorre nesta quarta-feira (18). Na rede estadual, mais de 2,3 mil escolas receberão mais de 700 mil alunos em todo o Rio Grande do Sul. Somente na área da 2ª Coordenadoria Regional de Educação (2º CRE), que abrange 38 municípios dos vales do Sinos, Caí e Paranhana, são 57.282 alunos matriculados.
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Em Novo Hamburgo, 10.921 estudantes estão matriculados nas escolas estaduais. Em São Leopoldo, são 11.676. Montenegro soma 5.538 alunos. Sapiranga e Taquara registram, respectivamente, 3.632 e 3.606 estudantes. A partir deste ano, 515 escolas terão turno integral, com projeção de atender 40 mil alunos.
Nos municípios, o calendário varia. Novo Hamburgo inicia o ano letivo também nesta quarta-feira, com 52 escolas de educação básica e 39 de educação infantil, atendendo cerca de 24 mil estudantes. Em Canoas, as aulas retornam no dia 20 de fevereiro, com cerca de 30 mil alunos na rede municipal.
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São Leopoldo retoma as atividades no dia 23, sendo o último município da região a iniciar o ano letivo. Ao todo, 22.500 crianças e adolescentes são atendidos na rede municipal. “Vale salientar que nas escolas conveniadas, cujas aulas iniciaram em 9 de fevereiro, já constam cerca de 4.500 crianças, totalizando aproximadamente 27 mil na rede”, pontua nota enviada pela Secretaria de Educação.