Reconhecido nacionalmente por sua forte produção de calçados, o Vale do Paranhana começa a sentir os efeitos do tarifaço de Donald Trump sobre o produto brasileiro, em vigor desde o início de agosto. O fechamento de uma fábrica do setor, na semana passada, foi atribuído à instabilidade criada pela taxação do governo norte-americano. A situação preocupou a cidade de Três Coroas, que tem no calçado um dos principais motores de sua economia.

Foto: Divulgação/Abicalçados
Fundada em 2012, a calçadista Mulher Sofisticada encerrou as operações no último dia 15. Cerca de 80 trabalhadores foram desligados com o pedido de autofalência. Ainda na semana passada as rescisões foram homologadas e parte dos pagamentos colocados em dia – férias, terço de férias, multa dos 40% do FGTS e aviso prévio indenizado ficaram para serem pagos na falência.
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A empresa chegou a produzir quase 4 mil pares de calçados por dia, mas ultimamente não passava de 1,5 mil pares. O fechamento foi atribuído a dívidas que chegam a R$ 18,3 milhões. A crise começou ainda antes da pandemia, quando um dos principais clientes deixou de efetuar seus pagamentos. O tarifaço de Trump foi apontado como a pá de cal nos negócios.
“Cerca de 80% da economia de Três Coroas gira em torno do calçado. Então, o fechamento da Mulher Sofisticada foi um caso que nos fez ligar o alerta. Esperamos que não, mas sabemos que o consumo está mais retraído e o mercado é uma cadeia. Se as compras diminuem, diminui a demanda e diminui a produção”, explica Márcio Port dos Santos, diretor da Calçados Variettá e presidente do Sindicato da Indústria de Calçados, Componentes para Calçados de Três Coroas (SICTC). Segundo ele, tradicionalmente nessa época do ano havia aumento na demanda, mas “infelizmente tem empresa trabalhando quatro dias na semana”.
Segundo Márcio Port dos Santos, como produzem para empresas maiores, os ateliês acabam servindo de termômetro da crise e sentindo primeiro seus efeitos. “Normalmente os terceirizados sofrem os impactos imediatos quando as vendas não acontecem”, detalha, frisando que “o tarifaço fez muita gente colocar o pé no freio e o mercado ficou mais travado”.
Para além do tarifaço
A entidade que Santos representa tem 64 ateliês associados. Juntos, geram cerca de 4,5 mil empregos diretos e mais 3 mil indiretos. Segundo ele, o momento é de instabilidade e preocupação. “O mercado interno está retraído e ainda temos essa situação do mercado americano”, pontua, alertando que, no médio prazo, as dificuldades podem aumentar se nada for feito.
A situação em Igrejinha…
A poucos quilômetros de Três Coroas, a vizinha Igrejinha ainda não foi impactada pelo tarifaço de Donald Trump. Dirceu Leodoro Alves, presidente do Sindicato dos Sapateiros da terra da Oktoberfest, acredita que o que foi vendido até agosto foi bem absorvido pelo mercado. “Precisamos ver os próximos meses para entender o que pode acontecer. É cedo ainda para falar. Aqui no Rio Grande do Sul temos outras coisas que, no momento, impactam bastante no setor calçadista que são os impostos”, pontua.
E em Sapiranga
Leandro Rodrigues, que preside o Sindicato dos Sapateiros de Sapiranga e Região – que também abrange Araricá e Nova Hartz –, diz que o setor tem se mostrado sólido. “De modo geral, por aqui não exportamos para os Estados Unidos. Então, não tivemos esse impacto direto. Claro, podemos ter casos isolados, mas o que vemos é que as empresas em Sapiranga estão contratando”, sinaliza. Segundo Rodrigues, as fábricas de Nova Hartz têm produção para os mercados brasileiro e europeu. Em Sapiranga, Araricá e Nova Hartz cerca de 16 mil pessoas trabalham no setor calçadista, sendo 10 mil em Sapiranga.
Para diminuir impactos no calçado
Segundo Leandro Hörlle, prefeito de Igrejinha e presidente da Associação dos Municípios do Vale do Paranhana (Ampara), o município incentiva há algum tempo a diversificação econômica. “Têm crescido atividades de confecção, construção civil, moveleira e cervejeira, além da atividade turística. Incentivamos com a qualificação da mão de obra”, frisa Hörlle. Já em Três Coroas, segundo o prefeito Fabiel Port, a ideia é capacitar os profissionais. “Acreditamos que as pessoas que perderam o trabalho conseguem ser absorvidas pelas indústrias locais”, destaca.