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SAÚDE

Bactérias hospitalares podem deixar sequelas; entenda

Bactéria Acinetobacter recentemente causou o fechamento temporário da Unidade de Tratamento Intensiva (UTI) do Hospital Municipal de Novo Hamburgo

Publicado em: 20/08/2025 às 11h:35 Última atualização: 20/08/2025 às 11h:36
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Bactérias hospitalares representam um problema grave. A gravidade das infecções causadas por esses micro-organismos, além de poder provocar sequelas nos pacientes, gera custos altos de tratamento à base de antibióticos.

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Bactérias | abc+



Bactérias

Foto: Adobe Stock

“É importante alertar que ela (bactéria) é um perigo em especial para os pacientes que estão internados e já debilitados, como os que estão internados num ambiente de terapia intensiva por exemplo” salienta o intensivista e professor do curso de Medicina da Universidade Feevale, Marcel do Amaral Dias.

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Segundo a Secretaria Estadual de Saúde (SES), a partir do boletim de segurança e qualidade em serviços da saúde da Anvisa, no Brasil – com exceção de São Paulo e Paraná, a bactéria Acinetobacter, que, recentemente, tomou proporções maiores diante do fechamento temporário da Unidade de Tratamento Intensiva (UTI) do Hospital Municipal de Novo Hamburgo, está entre as cinco com maior número de casos no Brasil e Rio Grande do Sul.

No País, esse tipo de bactéria ocupa o 4º lugar, com 1.588 registros em 2024. A posição também é a mesma no Rio Grande do Sul, com 139 casos no ano passado. Antes da Acinetobacter vem a Staphylococcus coagulase negativa, em primeiro lugar de casos em UTIs adulta, seguida de Klebsiella Pneumoniae (2º), a Staphylococcus aureus fica em 3º lugar e a 5ª posição está a Pseudomonas aeruginosa.

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“O cuidado de toda equipe multiprofissional (médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas e demais membros da equipe) são fundamentais tanto na prevenção quanto na recuperação de pacientes acometidos por infecções hospitalares e minimizar o risco de desfechos desfavoráveis como o óbito”, comenta Dias.

Entre as sequelas que as bactérias podem causar, Dias destaca a sepse, conhecida popularmente como “infecção generalizada”. Essa condição ocorre quando uma bactéria ou outro agente patógeno entra no sangue e o organismo, ao tentar combatê-la, acaba apresentando uma reação disfuncional, levando uma resposta inflamatória sistêmica.

Sequelas

Infecções hospitalares, especialmente por bactérias multirresistentes como Acinetobacter baumannii, explica o professor da Universidade Feevale, podem deixar sequelas mesmo após a cura, variando de perda parcial ou permanente da função de órgãos (como rins e pulmões) a comprometimento cognitivo, fraqueza muscular e distúrbios psicológicos.

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“Pacientes críticos, expostos a tratamentos longos e invasivos, também podem sofrer toxicidade por antibióticos e complicações como amputações ou lesões cutâneas graves”, frisa.

O infectologista do HMNH, Rafael Matiuzzi, reforça que entre as sequelas possíveis estão danos permanentes a órgãos (como pulmões, rins ou coração), necessidade de diálise, redução da função respiratória, amputações ou procedimentos como traqueostomias e ostomias, além de maior vulnerabilidade a novas infecções.

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A recuperação e reabilitação dos pacientes que sofreram infecções hospitalares dependem de vários fatores, incluindo a gravidade da infecção, a qualidade do tratamento e a presença de comorbidades. “A fisioterapia e o cuidado de enfermagem podem ajudar a melhorar a mobilidade e a qualidade de vida dos pacientes”, menciona Dias

Bactéria vive no ambiente, mas é oportunista em pacientes debilitados

O professor de Medicina de Feevale explica que o Acinetobacter vive no ambiente, pode ser encontrada em água, no solo, na superfície.

“Em pessoas saudáveis, ela geralmente não vai causar doenças, mas o problema acontece especialmente em pacientes graves internados na UTI, particularmente naqueles submetidos a procedimentos invasivos como ventilação mecânica, uso de dispositivos como cateteres centrais ou com um sistema imunológico já comprometido, podendo provocar infecções sérias, como uma pneumonia mais grave ou eventualmente uma infecção de corrente sanguínea mais grave”, explica Dias.

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“O Acineto é uma das bactérias, mas não é a única em ambientes hospitalares. O que ocorre com ela é que é uma das bactérias mais difíceis de se combater, por sua formação com um biofilme que a protege”, complementa.

O médico acrescenta que essa bactéria fica na superfície e, se não for extremamente limpa, poderá perpetuar. “Vamos supor que um paciente que precisou do respirador e vem outro paciente na sequência para usar o mesmo respirador. Se a bactéria está no respirador, vai contaminar o próximo e isso pode gerar surto”, frisa.

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Pode acontecer, explica, que dependendo do local todos os pacientes podem estar com a bactéria resistente. Ele exemplifica que se a causa que levou o paciente para UTI não foi uma infecção mesmo assim há risco de se contaminar pela bactéria hospitalar e adquirir outra doença.

“Há casos em que o paciente não foi para a UTI porque tinha uma infecção. Ele foi para UTI para se recuperar de um pós operatório de uma cirurgia cardíaca por exemplo. Mesmo assim, esse indivíduo pode entar em contato com uma bactéria multirresistente como essa e agregar gravidade à sua condição clínica”, salienta.

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Tratamento é feito à base de antibiótico intravenoso

O tratamento para Acinetobacter é com antibiótico intravenoso que não pode ser adquiridos em farmácias. “Isso exige um protocolo muito rigoroso dos hospitais, que começa na prevenção e vai até o tratamento. Interdição total do ambiente afetado costuma ser uma medida bem excepcional, usada em geral como último recurso para minimizar o impacto da disseminação da bactéria”, comenta. 

Por isso, destaca, que a prevenção é fundamental para evitar infecções bacterianas e suas sequelas. Isso inclui práticas de higiene adequadas, especialmente a higienização das mãos, equipamentos de proteção individual (EPIs) e controle de infecções em ambientes de saúde. “Um dos objetivos dos protocolos de segurança hospitalar é prevenir a disseminação. Às vezes é difícil, mas minimizar o impacto disso da melhor forma possível é um objetivo que todos os hospitais têm”, frisa.

Bactérias habitam o organismo, mas nem sempre causam doenças

Segundo o médico infectologista do Hospital Municipal de Novo Hamburgo, Rafael Matiuzzi, as bactérias podem estar no organismo de duas formas: na colonização ou na infecção”, relata. Na colonização, a bactéria está presente, mas não provoca sintomas ou sinais de doença.

O paciente, mesmo sem sentir nada, pode transmitir o microrganismo a outras pessoas, o que requer cuidados de higiene e prevenção. Já na infecção, a bactéria causa doença ativa, com febre, dor, inflamação ou comprometimento de órgãos, exigindo tratamento direcionado e, muitas vezes, internação hospitalar.

“O risco de adquirir uma bactéria hospitalar aumenta em internações prolongadas, procedimentos invasivos repetidos, uso frequente de dispositivos como cateteres e sondas, e tratamentos com antibióticos de amplo espectro. Quando a infecção por essas bactérias ocorre, pode haver maior dificuldade para o controle clínico, prolongamento da hospitalização e maior chance de complicações”, salienta.

Pacientes devem ficar atentos aos cuidados na volta do hospital

Ao receber alta hospitalar, é fundamental que o paciente e sua família sigam cuidados rigorosos para prevenir complicações e reduzir riscos de reinfecção. Recomenda-se:
• Higienizar as mãos com frequência, especialmente antes e depois de cuidar de feridas ou
manipular dispositivos médicos.
• Cumprir integralmente as orientações médicas, incluindo o uso correto de medicamentos
e antibióticos.
• Manter o ambiente limpo e organizado, com atenção a superfícies de contato frequente.
• Evitar compartilhar objetos de uso pessoal.
• Comparecer a todas as consultas de acompanhamento.
• Procurar atendimento médico imediato ao notar febre, dor, vermelhidão, secreção ou
piora do estado geral.

(Fonte: Fundação da Saúde de Novo Hamburgo)

Infecção por pneumonia agravou caso de paciente em Novo Hamburgo

A pensionista Maria de Lourdes Rodrigues, 81 anos, ficou quase dois meses hospitalizada. Depois do filho, Edgar Luciano Rodrigues, 44, peregrinar por Unidade Básica de Saúde (UBS) e Unidade de Pronto Atendimento (UPA), no bairro Canudos, onde moram, sua mãe foi para o Hospital Municipal Novo Hamburgo.

Edgar Luciano Rodrigues, 44, com a mãe | abc+



Edgar Luciano Rodrigues, 44, com a mãe

Foto: Susi Mello/GES-Especial

Atualmente, ela está em casa em uma cama hospitalar que a família conseguiu emprestada e com um sonda para alimentação. Ela fala pouco, fica grande parte do tempo deitada e o atendimento em casa pelo SAD (Serviço de Atendimento Domiciliar) ocorreu somente no dia 4 de agosto. A Fundação da Saúde de Novo Hamburgo não se pronuncia sobre pacientes por conta da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). 

Os sintomas começaram no início de junho com uma aparente gripe e com o pulso da mão direita inchado, por conta de uma queda. O filho conta que em 11 de junho levou-a para o hospital para descobrir o que ela realmente tinha.

“Depois dos exames de urina e sangue descobriu- se que estava com início de pneumonia”, comenta, explicando que a médica mandou-a para casa porque a doença estava no início e também não havia leito. Ela voltou para casa para tratamento, mas em 12 de junho, ela piorou. Foi levada pelo Samu à UPA e ficou lá até o dia 15, quando deu entrada na Sala Vermelha do HMNH.

Rodrigues conta que no início, antes da entrada na casa de saúde, as medicações se resumiram em melhorar a dor e inchaço da mão. A situação dela foi agravando, com febre e fraqueza. Após o diagnóstico inicial de pneumonia, sua mãe chegou a não falar mais.

“Com o avanço dos sintomas foi constatada que a infecção da pneumonia tinha se espalhado rapidamente levando ela a ser entubada. Passou duas semanas na Sala Laranja melhorando consideravelmente, tanto que ganhou alta para o quarto no dia 30 de junho. Porém no quarto ela piorou ao contrair duas bactérias cujos nomes não foram divulgados, levando ela a estar na atual situação que se encontra, no qual o relatório de alta informa um quadro presumido de demência”, lamenta o filho.

Antes de receber alta, a idosa passou a receber alimentação pastosa, ficou internada com cateter no pescoço. Em um dos momentos, Rodrigues percebeu que o cateter estava molhado. Ele questionou o que teria ocorrido.

“Eu fiquei em cima daquilo ali. Aquilo não estava certo. E o que falaram depois de eu tanto questionar? Eles fizeram uma análise e detectaram que ela estava com uma bactéria na ponta do catéter”, conta Rodrigues, lamentando o estado que vê sua mãe agora deitada na cama, em sua casa.

Enquanto estava no hospital, Rodrigues conta que sua mãe não foi isolada. Ficou no mesmo quarto com outros dois pacientes. “Só tiraram o cateter do pescoço e viram que estava com a bactéria e daí colocaram o acesso no braço”, lembra. Depois desse diagnóstico, Maria de Lourdes contraiu outra bactéria por meio de uma sonda.

Rodrigues conta que sua mãe recebeu antibióticos que a curaram das bactérias, mas as sequelas permanecem. “Ela foi diagnosticada com síndrome demencial, que está com demência, em decorrência dessas duas bactérias”, arremata.

O filho da idosa aponta despreparo dos profissionais, que,s egundo ele, vinham com luvas, mas sem máscara ou aventais descartáveis. Ele diz que as bacias com equipamentos eram compartilhadas com todos pacientes, não havia papel para secar as mãos após uso da pia do quarto e familiares também precisavam levar roupa de cama.

“A falta de higiene é muito grande. O pessoal da higienização faz ‘meia boca’, teriam que ter pessoas limpando todo o quarto e não apenas no meio”, frisa.

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