Existe uma nação no meio do Pacífico, no continente de Oceania, que a maioria das pessoas nunca vai visitar. Nauru, a menor república do planeta, carrega uma das histórias mais curiosas do século passado: em poucas décadas, saiu do topo da riqueza mundial para uma crise que ainda não tem fim à vista.
De pássaros a petróleo do Pacífico
A fortuna de Nauru veio de um lugar inusitado. Por milhares de anos, aves marinhas usaram a ilha como ponto de pouso e nidificação. Os dejetos acumulados sobre o coral formaram camadas espessas de fosfato, um mineral essencial para a fabricação de fertilizantes agrícolas. Com os lucros do fosfato passando para as mãos dos próprios nauruanos, o país chegou a ter o segundo maior Produto Interno Bruto (PIB) per capita do mundo, atrás só da Arábia Saudita.
No entanto, o “boom” financeiro não durou para sempre e a nação sofreu consequências severas que foram além do financeiro. Hoje, o país enfrenta problemas ambientais e sanitários por causa direta e indireta disso.
Quando o dinheiro acabou antes do necessário
A mineração intensa destruiu boa parte do território de forma irreversível. Sem solo agricultável, a população passou a depender quase que exclusivamente de alimentos importados, em geral baratos e ultraprocessados, vindos da Austrália e da Nova Zelândia. Com a nova riqueza, a rotina dos nauruanos mudou radicalmente: estilos de vida sedentários e consumo excessivo de industrializados.
Hoje, cerca de 60% da população é classificada como obesa, o maior índice do mundo segundo a Federação Mundial de Obesidade. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta o país também como o de maior consumo de cigarros per capita do planeta. Se nos anos 1980 Nauru era um dos países mais ricos, em 2017 já aparecia entre os cinco mais pobres do mundo.
Por que quase ninguém chega até lá?
Chegar a Nauru já é um obstáculo por si só. A viagem pode levar até 48 horas, com várias escalas, e quem desembarca precisa se programar com antecedência porque o próximo voo de saída pode demorar quase uma semana. Os voos disponíveis costumam voar com a maioria dos assentos vazios.
Além da logística, o governo cria barreiras que alguns turistas chegam a chamar de “descaradas”. Jornalistas pagam uma taxa de visto de 8.000 dólares australianos, enquanto turistas comuns pagam 50. Drones são confiscados na chegada. O resultado é que o país recebe cerca de 200 visitantes por ano, sendo que uma única operadora especializada já respondia por quase 30% desse total.
O que Nauru tenta agora?
Sem fosfato suficiente para sustentar a economia, o governo busca alternativas. O país passou a sediar campos de detenção de refugiados, uma política controversa que virou uma das principais fontes de receita. Há também estudos para mineração em águas profundas, o que levanta a pergunta óbvia: será que a história vai se repetir em outro ambiente?
A mudança climática adiciona mais pressão. A elevação do nível dos oceanos ameaça diretamente as costas da ilha, onde vive a maior parte dos cerca de 11 mil habitantes. Um país que consumiu sua base natural para enriquecer agora enfrenta a possibilidade de perder o próprio território para o mar.




