Velocidade de raciocínio, boa memória e facilidade com números são o que a maioria associa à inteligência. A psicologia, no entanto, identificou um traço diferente como o mais consistente entre pessoas de alto desempenho cognitivo, e ele não tem nada a ver com rapidez. Pelo contrário, envolve desacelerar antes de concluir.
O comportamento em questão é a tendência de questionar as próprias ideias antes de defendê-las. Pesquisadores chamam isso de “pensamento ativamente aberto”, que é a disposição de buscar evidências que contradizem o que você já acredita, em vez de procurar apenas o que confirma a posição que já tem.
O que a pesquisa encontrou
Em 1997, os psicólogos Keith Stanovich e Richard West, da Universidade de Toronto, publicaram um estudo no Journal of Educational Psychology investigando quais traços mentais se relacionavam à capacidade de raciocinar de forma independente das próprias crenças. A conclusão foi que o pensamento ativamente aberto era o fator mais fortemente associado à alta inteligência entre os participantes.
O dado mais relevante do estudo é que esse hábito prevê melhor desempenho no raciocínio, mesmo depois de levar em conta a capacidade cognitiva inata. Em outras palavras, ele acrescenta algo que o Quociente de Inteligência (QI) sozinho não explica.
O conceito havia sido nomeado originalmente pelo psicólogo Jonathan Baron e descreve a tendência de evitar conclusões rápidas, considerar perspectivas opostas e tratar a possibilidade de estar errado como parte natural do processo de pensar.
Por que o cérebro resiste a isso?
Segundo especialistas, esse comportamento vai contra o instinto natural. O cérebro tende a se apegar ao que já acredita e a rejeitar informações que “ameaçam” suas convicções, um fenômeno bem documentado na psicologia cognitiva como viés de confirmação.
Defender a própria posição exige menos esforço do que revisar uma ideia já formada. Por isso, o pensamento ativamente aberto precisa ser deliberado. Ele não acontece por acidente.
O que muda na prática
De acordo com a psicologia, pessoas com maior tendência ao pensamento ativamente aberto tendem a tomar decisões melhores, porque buscam e processam mais informações antes de concluir. Também apresentam maior resistência a vieses, porque avaliam argumentos pela qualidade, não pela simpatia que sentem por eles. E mostram menor adesão a crenças sem base empírica.
Na rotina, esse hábito aparece em pequenos gestos. Tolerar a ambiguidade sem pressa de fechar questão, considerar o melhor argumento do lado oposto antes de discordar, perguntar a si mesmo quais evidências mudariam a própria opinião. São comportamentos discretos, mas que fazem diferença acumulada no raciocínio ao longo do tempo.
A boa notícia
Diferente do QI, que é relativamente estável ao longo da vida, o pensamento ativamente aberto pode ser cultivado. Por ser uma disposição de pensamento, e não uma capacidade inata, ele responde à prática deliberada.
Para “treinar” o cérebro a isso, especialistas sugerem que as pessoas devem, antes de fechar uma opinião, perguntar quais evidências a contradiriam e deixar de tratar o “eu posso estar errado” não como fraqueza. Em um contexto que valoriza respostas rápidas e certezas confiantes, a disposição de duvidar de si mesmo é, segundo a pesquisa, um dos sinais mais confiáveis de uma mente que funciona bem.




