A morte do agricultor de Pelotas Marcos Nörnberg, durante uma ocorrência policial, reacendeu no Rio Grande do Sul um debate que há anos divide especialistas em segurança pública: a necessidade de ampliar o uso de câmeras corporais nas abordagens policiais. Enquanto a discussão ganha força após episódios que terminaram em mortes durante ocorrências, municípios da região já avançaram na adoção da tecnologia em suas guardas municipais. Já a Brigada Militar ainda caminha de forma mais lenta na ampliação do sistema.

Foto: Geison Concencia/GES-Especial
Além o agricultor de Pelotas, outras ocorrências chamaram a atenção para o assunto, principalmente, aquelas que envolvem casos de surtos psicóticos, onde abordados foram mortos após enfrentar a polícia.
Mesmo diante dessa demanda, o Estado, responsável pela Brigada Militar, Polícia Civil e Susepe, conta com uma quantidade restrita na Capital e arredores, num quantitativo de câmeras que não cobre 1/3 do efetivo.
Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Estado, a Brigada Militar, com recursos estaduais, contratou serviço, em julho de 2024, composto por 1.000 câmeras que atendem as unidades operacionais de Porto Alegre. E na forma de um aditivo contratual, limitado legalmente a 25%, foram contratadas, em 2025, mais 250 câmeras para atender os municípios de Cachoeirinha, Alvorada, Viamão e Gravataí.
Recentemente, um convênio com o Governo Federal prevê a transferência de recursos para a locação de 1.745 equipamentos, com licitação prevista para ocorrer neste semestre. “Realiza-se, atualmente, os atos preparatórios à licitação. Não se trata de aquisição. O objeto do convênio é a contração de serviço que compreende uma solução integrada de gestão, captação, transmissão, armazenamento, custódia e compartilhamento de evidências digitais. A partir do contrato, a empresa tem até 6 meses para operacionalizar a implantação”, diz nota da SSP.
Para o Vale do Sinos e Serra a previsão da chegada dos primeiros equipamentos depende da assinatura do contrato com a empresa vencedora da licitação, que está prevista para ocorrer este ano. Após, a empresa responsável tem seis meses para implantar as câmeras nas cidades de Canoas, Sapucaia do Sul, Novo Hamburgo, São Leopoldo, Santa Cruz do Sul, Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Santa Maria, Passo Fundo, Erechim, Pelotas, Rio Grande, Bagé e Uruguaiana.
Segundo o comando da Brigada Militar, após a assinatura do contrato, a empresa deve implantar a infraestrutura necessária para a operação e realizar o treinamento sobre o uso
Como andam as guardas municipais
Enquanto o Estado ainda gatinha na cobertura de câmeras corporais para todos os policiais, em alguns municípios, como Novo Hamburgo, esse sistema já foi introduzido por guardas municipais. Segundo a Prefeitura, são 122 câmeras corporais para os agentes da guarda de Novo Hamburgo.
Já em São Leopoldo, a Guarda Municipal não possui câmeras corporais, mas diz que está interessada em adquirir o equipamento. Canoas já conta com esses equipamentos, mas não informou a quantidade e nem a frequência do uso. Com isso, entre os maiores municípios da região, somente Novo Hamburgo conta com esse sistema, mas também, restrita a algumas ocorrências.
Em municípios menores, somente Estância Velha e Sapiranga têm câmeras corporais. Em Estância Velha, são dois equipamentos utilizados em atividades operacionais. Segundo a Prefeitura, elas são ferramentas de transparência, qualificação do serviço e proteção tanto dos agentes quanto da comunidade.
“A Administração reconhece a importância da tecnologia como aliada da segurança pública e avalia permanentemente a possibilidade de ampliação do sistema, considerando critérios técnicos, operacionais e orçamentários. Eventuais expansões serão definidas com base em estudos internos que observam a eficiência do modelo atualmente empregado, a disponibilidade de recursos e o interesse público envolvido”.
Em Sapiranga, são 11 câmeras corporais. Segundo a Prefeitura, elas podem ser consultadas e estão presentes em todos os agentes que estão na rua – a qualquer momento. Já Campo Bom não tem esses equipamentos, pois estuda outras prioridades para a segurança pública do Município.
Segurança para os dois lados
O guarda municipal Rubervan Amaral afirma que a câmera traz segurança para ambos os lados. Ela impede excessos tanto da pessoa abordada quanto do agente. Para ele, as pessoas sabem que estão sendo gravadas, e qualquer desacato, pode ser usado contra. Ao mesmo tempo, os agentes entendem que precisam adotar uma postura correta e sem abusos.
“Já tive essa experiência quando pedi para um cidadão sair de um local onde era proibido estacionar, em frente a escola. Após, iniciou uma série de insultos contra os agentes. Posteriormente, apresentamos as imagens à delegacia”, relembra Amaral.
Segundo o inspetor chefe da Guarda Municipal de Novo Hamburgo, Lucas Schvambach, desde 2022 o município incorporou as câmeras no efetivo. Quem sai a rua, pega o equipamento na reserva de armas e usa durante a rotina. Segundo Schvambach, elas ficam em stand bay e são acionados quando o guarda entra em interação ou diante de ocorrências. “Utilizamos ela, principalmente, para segurança do agente, para não haver dúvidas em relação a abordagens.

Foto: Geison Concencia/GES-Especial
“A câmera é a parte simples do sistema. O desafio real é governar e proteger petabytes de vídeo com segurança”
Segundo especialista em infraestrutura de TI, Lucas Camassola, quando se fala em câmeras corporais para policiais, muitas pessoas imaginam que o desafio está no equipamento que o agente utiliza no uniforme. Na realidade, a câmera é apenas a ponta de um sistema tecnológico muito mais amplo e complexo. O grande desafio está na infraestrutura de dados necessária para suportar a gravação contínua de centenas ou milhares de policiais durante turnos que podem chegar a 12 horas.
Camassola também também alerta que, mesmo utilizando resoluções mais baixas para gravações de rotina e qualidade maior apenas em ocorrências, um sistema desse tipo pode gerar facilmente vários terabytes de vídeo por dia. Ao longo de meses de retenção — que em muitos casos pode ser de cerca de 90 dias para gravações rotineiras e até um ano para eventos relevantes — o volume total armazenado pode alcançar centenas de terabytes ou até petabytes de dados.
Com 20 anos de experiência no ramo, Camassola destaca que para suportar esse volume de informação, normalmente são necessárias plataformas robustas de armazenamento em nuvem ou data centers especializados, com mecanismos de redundância, backups e alta disponibilidade. O custo real do sistema não está na câmera em si, mas na capacidade de armazenar, proteger e gerenciar essas informações ao longo do tempo.
“Outro ponto crítico é a transferência das gravações. Ao final de cada turno, centenas de dispositivos precisam enviar grandes volumes de vídeo para a infraestrutura central. Isso exige soluções de upload em massa, gerenciamento de banda de rede e sistemas de sincronização capazes de garantir que nenhuma gravação seja perdida ou corrompida durante a transferência”.
A segurança também é um fator central nesse tipo de tecnologia. As imagens precisam ser transmitidas por canais criptografados e armazenadas em ambientes protegidos, com controle rigoroso de acesso. Cada visualização ou manipulação das gravações precisa gerar registros detalhados de auditoria — os chamados logs — que permitem rastrear quem acessou determinado vídeo, quando e por qual motivo. Esse processo é fundamental para preservar a chamada cadeia de custódia digital, garantindo que as imagens possam ser utilizadas como prova em processos administrativos ou judiciais.
Outro desafio importante apontado pelo especialista é a gestão das gravações. Com milhares de horas de vídeo sendo produzidas continuamente, torna-se inviável fazer esse trabalho manualmente. Por isso, soluções modernas começam a incorporar ferramentas de inteligência artificial para automatizar diversas etapas do processo. “Essas tecnologias permitem indexar automaticamente os vídeos, transcrever o áudio das interações, identificar palavras-chave, detectar situações de risco ou conflito, localizar rapidamente uma ocorrência específica e aplicar automaticamente técnicas de anonimização, como o desfoque de rostos para proteção da privacidade das pessoas filmadas”.
A inteligência artificial também pode apoiar processos de auditoria e investigação interna, permitindo que as corporações encontrem rapidamente evidências relevantes dentro de grandes volumes de dados.
“A governança de um sistema desse tipo precisa ser muito bem estruturada. Isso envolve políticas claras de retenção de dados, critérios de acesso às gravações, processos de auditoria e mecanismos de supervisão que garantam transparência, segurança e integridade das informações. Quando bem implementado, um sistema de câmeras corporais pode contribuir tanto para a proteção da sociedade quanto para a proteção dos próprios policiais, ao oferecer um registro confiável das interações realizadas durante o serviço”, afirma Camassola.