Com a presença de máquinas e equipes especializadas em geotecnia, as obras de contenção no bairro Três Pinheiros, em Gramado, completam seis meses. A localidade foi uma das primeiras a apresentar risco de deslizamento de terra – ainda devido às chuvas de novembro de 2023.

Foto: Mônica Pereira/GES-ESPECIAL
Em uma intervenção considerada complexa, o morro que separa o bairro da Rua Ladeira das Azaleias, no Planalto, está sendo estabilizado. Parte da contenção nas margens da perimetral, que foi danificada, está sendo substituída, assim como o trecho que não sofreu avarias é reforçado.
Com um investimento de R$ 4,1 milhões, o custeio da obra está sendo feito pela Prefeitura de Gramado e Defesa Civil Nacional, que acompanha o passo a passo do projeto, através de prestações de contas. A conclusão estava prevista para este mês de janeiro, mas a quantidade de água encontrada e o nível de fragilidade do solo exigem novos estudos na área.
O projeto executivo de recuperação da cortina atirantada foi desenvolvido pela empresa Azambuja Engenharia e Geotecnia e quem está executando o trabalho é a Roxor Soluções em Engenharia e Geotecnia.
O engenheiro civil da Roxor, Ray Tartari de Aguiar, destaca que a obra mudou do caráter de produção para o de investigação. Isso porque o volume de água que ainda corre pelo morro é muito maior do que o originalmente previsto. Assim, é preciso fazer um serviço de drenagem e serão instalados mais 260 metros de drenos horizontais profundos (DHPs).

Foto: Mônica Pereira/GES-ESPECIAL
Segundo os profissionais, há vertentes de água no morro que precisam ser drenadas. Além disso, o volume de chuva em um curto espaço de tempo pode alterar o curso d’água.
Outro ponto de atenção dos geotécnicos são as fraturas encontradas nesse maciço. O engenheiro civil da Prefeitura de Gramado e fiscal da obra, Arthur Fernandes, diz que, na próxima semana, será executada uma técnica de boroscopia. O ensaio conquiste em um equipamento com uma câmera na ponta que permite enxergar por dentro dos furos. “Queremos ver as paredes desses furos, porque estão desbarrancando a 16 metros de profundidade”, explica.
Esses complicadores causam atraso no serviço. O novo prazo de conclusão das obras é para o dia 11 de junho deste ano.
Ensaios de todos os 142 tirantes

Foto: Mônica Pereira/GES-ESPECIAL
Para os engenheiros envolvidos, fazer uma obra de recuperação é mais difícil do que construir do zero. Porém, não existia a possibilidade de demolir a parte danificada da contenção, pois isso causaria o desmoronamento de todo o morro. Em dezembro de 2023, pedras foram colocadas na base da cortina para escorar a estrutura, que tinha risco iminente de rompimento.
Uma grelha atirantada está sendo feita para reforçar a parte da cortina que não rompeu – com vigas e pilares. Já a nova cortina será 2,5 metros mais alta do que a anterior, chegando a 7,5 metros de altura.
Ao todo, serão instalados 142 tirantes de aço – que ajudarão a segurar o morro. Essas barras vão dentro do maciço e são ancoradas com calda de cimento. Depois, são tencionadas com uma carga de 54 toneladas. “Atirantamento é a gente fazer pressão contra o maciço para evitar que ele faça essa força contrária”, explica Arthur. “Todos os 142 tirantes que estão sendo colocados terão um ensaio e um relatório atestando a carga. Só assim que a fiscalização, eu e o projetista podem aceitar o novo muro”, endossa.

Foto: Mônica Pereira/GES-ESPECIAL
Ray detalha que a parte da nova contenção que já foi construída está desempenhando a função. Agora, são esperados os resultados dos ensaios da boroscopia e dos DHPs para que a empresa responsável pelo projeto executivo autorize o avanço das escavações ou faça as mudanças necessárias.
O engenheiro atesta que a geotecnia tem uma série de fatores variáveis. “A gente está furando e não consegue ver o que tem ali dentro, se tem água, a resistência. Isso traz dificuldade e temos que ir contornando e ajustando ao decorrer da obra”, comenta Ray.
Atualmente, a Roxor está com 17 pessoas trabalhando no canteiro de obras. O engenheiro reforça que, devido a expertise necessária, a equipe é fixa da empresa, que tem sede em Chapecó, em Santa Catarina.
40% da obra executada

Foto: Mônica Pereira/GES-ESPECIAL
De acordo com a empresa, a obra está cerca de 40% concluída. Dependendo dos resultados das investigações do solo e do funcionamento dos DHPs, os engenheiros apontam que é possível concluir até junho. As áreas de geotecnia e de construção civil vão seguindo juntas. “Conforme a gente for liberando novos trechos para a injeção dos tirantes, vamos construindo os novos painéis de concreto”, frisa Ray.
O engenheiro civil da Roxor, Nelson Pio Neto, frisa que é o clima que dita o andamento das obras. “Precisamos de tempo seco. A maior dificuldade do cronograma é a chuva”, enfatiza.
“Encontramos um fato novo e precisamos definir estratégias de trabalho para eliminar a água e estabelecer o procedimento de ancoragem. A gente está encontrando problemas e estamos buscando as melhores decisões técnicas possíveis. Vamos fazer do jeito certo para não termos problemas”, finaliza Ray.
O secretário adjunto de Governança, Anderson Menezes, declara que o diálogo entre as equipes é constante para buscar a resolução dos problemas. Ele aponta que conta também com o respaldo da Defesa Civil Nacional, que tem atendido aos pedidos com rapidez.
Esta é a primeira fase da obra, pois será necessário, também, fazer o grampeamento do morro e outra etapa na Rua Ladeira das Azaleias. Anderson acentua que ajustes estão sendo realizados no projeto. Após a finalização e aprovação da Defesa Civil Nacional – que deve aportar recurso para a execução – será aberto o processo de licitação.
Municípios afetados
Passados oito meses da maior catástrofe climática já enfrentada pelo Rio Grande do Sul, os caminhos para a reconstrução seguem em andamento. Os problemas que afetaram o Estado podem ser divididos em dois principais eixos: inundações e deslizamentos de terra. É nesse último tópico que um estudo do Instituto de Geociências da Universidade Federal do RS (IGeo/Ufrgs) se concentrou.
Com as chuvas recordes de maio, os pesquisadores mapearam 16.862 movimentos de massa no território gaúcho. A análise abrangeu uma área de aproximadamente 18 mil km², utilizando imagens de satélite de alta resolução. A gravidade dos dados, transformou o mapeamento em uma ferramenta essencial para avaliar riscos remanescentes e planejar ações de curto, médio e longo prazo.
O levantamento dos pesquisadores abrange os 150 municípios mais atingidos por movimentos de massa na região hidrográfica do Guaíba, com foco nos 60 municípios com o maior número de cicatrizes. O ranking é liderado por Caxias do Sul (656 cicatrizes), seguido por Veranópolis (636), Agudo (540), Bento Gonçalves (516) e Fontoura Xavier (485). Esses números refletem o acumulado de chuvas e a presença de terrenos íngremes nessas localidades.
Na região, Nova Petrópolis (11º lugar), Gramado (25º), Canela (28º) e São Francisco de Paula (36º) também figuram entre os 60 mais prejudicados.
“Esses municípios possuem áreas urbanas significativas em zonas de risco e precisam estar atentos a isso. Os desastres geológicos geralmente têm consequências mais fatais. A sobrevivência é rara em eventos desse tipo, por isso prevenir é sempre o melhor caminho”, aponta Clódis Andrades-Filho, professor do IGeo e coordenador do Laboratório de Sensoriamento Remoto Geológico, Geomorfológico e Dinâmicas de Paisagem (Latitude).
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