A primeira Rainha da Festa das Hortênsias, historiadora nata e conhecedora das origens de Gramado. Quando olha para trás, para a Gramado de meados do século 20, ela não vê apenas uma cidade turística em ascensão; vê um “mar azul”.
Aos 93 anos, com uma memória afiada, a primeira Rainha das Hortênsias carrega consigo não apenas um título, mas a história da transformação de uma pequena vila em um dos maiores destinos do Brasil. Mas, antes da coroa e das homenagens, Iraci Casagrande faz questão de definir quem é.
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Foto: Fernanda Fauth/GES-Especial
“Me sinto uma pessoa simples. Gosto muito da natureza, das pessoas. Não tenho, que eu saiba, inimigos. Lógico que tem pessoas que não gostam da gente, mas não conheço, e se conheço, eu perdoo”, diz.
Na noite de quinta-feira, dia 27, Iraci foi homenageada na Câmara de Vereadores de Gramado, com a moção de reconhecimento, pelo seu trabalho prestado.
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Quando questionada sobre outros títulos recebidos, apenas enfatiza que foram vários. “E faço questão de honrar cada convite. Porque ao me homenagearem, sinto que estão também reconhecendo Gramado”, diz.
Iraci, recentemente, foi convidada a ser a madrinha do Projeto Hortênsias, uma iniciativa para replantar e valorizar a flor símbolo da cidade. Além disso, recebeu o título de Cidadã Gramadense, também do Legislativo, já que nasceu em Capinzal, embora tenha sido criada na Serra. Ainda foi homenageada duas vezes pela imprensa gaúcha em Porto Alegre.
Relação com a cidade
A história de Iraci se confunde com a estratégia de emancipação turística de Gramado. O concurso que a elegeu Rainha não foi apenas um desfile de beleza; foi um movimento político e social para consolidar a cidade como um refúgio de verão. Na época, 12 candidatas disputavam o título.
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Iraci relembra que, diferentemente de outras candidatas que saíram às ruas para “vender votos” – já que parte da escolha era popular -, ela se recusou a entrar no jogo político.
“Eu pensei comigo ‘que bobajada’. Se vai haver um júri, o que vai valer é o júri. Eu não vou sair da minha casa para vender votos. Se me querem como candidata, que façam alguma coisa” conta Iraci.
A postura reservada, contudo, não impediu sua vitória. No dia da eleição, diante de um júri, seu nome foi anunciado sob uma “ovação total”. “Eu nem sabia que era a favorita, mas foi ali que percebi.” Para ela, nunca se tratou apenas de um título. “Não foi pela Rainha, foi pela história. Nós trabalhamos para que Gramado ficasse sendo uma cidade de turismo realmente,” avalia ela hoje.
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Maternidade
Apesar do amor por Gramado, a vida levou Iraci para Porto Alegre durante um período, logo após o casamento. Foi lá que viveu outro capítulo marcante de sua história: a luta pela maternidade. Após tratamentos de saúde, recebeu de um médico a sugestão de inseminação artificial — algo que, na época, soou como um absurdo. Determinada a ser mãe, optou pela adoção.
“Um tempo depois, no lar das irmãs, fomos lá buscar o meu nenê, que era a Lilian”, relembra.
A filha, formada em Publicidade e Direito e hoje cursando Psicologia, deu a Iraci um de seus maiores amores, o neto. A relação com o menino é descrita por ela como uma “paixão”.
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Guardiã das memórias
Iraci não se contentou em apenas viver a história; ela decidiu registrá-la. Autora de seis livros, sendo três em coautoria, ela dedicou parte de sua vida a documentar a evolução de Gramado. Trabalha, inclusive, numa sétima produção.
Entre seus lugares favoritos, um ponto turístico ocupa um espaço especial. “Eu vi o Lago Negro nascer. A gente ia fazer piquenique lá quando não tinha lago nenhum, era só um laguinho pequeno”, conta.
E ela se recorda não apenas da história em si, mas dos fatos curiosos. Como nos bailes, na Sociedade Recreio. “Havia o baile da Chita, o da Pelúcia, o da Primavera e o da Sociedade. Tínhamos uma modista fantástica na cidade, as mães compravam tecidos e mandavam queimar o restante para garantir a exclusividade do vestido. Não podia ser igual a ninguém. Existiu isso em Gramado”, relembra.