Os terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 na escala Richter, ocorridos no dia 24, causaram destruição e desabamentos na capital Caracas e várias outras cidades, principalmente na província La Guaira.
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Foto: Fernanda Fauth/GES-Especial
Segundo a última atualização, divulgada na quinta-feira (2) pelo governo, o número de mortos chega a 2.595, enquanto o total de feridos soma 11.267 pessoas. Mais de 6 mil pessoas foram resgatadas com vida dos escombros por equipes de socorristas.
Além dos danos à vida, milhares de edificações colapsaram ou estão em situação de risco.
Diante desse cenário, os brasileiros estão mobilizados em auxiliar os irmãos do país vizinho. Em Gramado, na Serra gaúcha, diferentes grupos realizam campanhas para arrecadação de materiais.
Nesta segunda-feira, dia 29, a Defesa Civil prestou apoio no transporte de donativos que serão destinados à Venezuela, contribuindo para que a ajuda humanitária chegue às pessoas que mais precisam.
Em prol do seu país
O venezuelano Miguel Ortiz, de 27 anos, mora no bairro Floresta desde o ano passado, em Gramado, e está no Brasil desde 2018, quando entrou pela fronteira de Roraima. Empresário do ramo de beleza, trabalha com barbearia desde os 16 anos, quando tinha seu próprio negócio no país vizinho.
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Miguel ainda tem parentes que vivem em Caracas. “Inclusive, os parentes da esposa do meu primo até hoje estão desaparecidos. Um menino, o mais pequeno, apareceu, mas sem vida. Caiu tudo. São milhares de desaparecidos, inclusive brasileiros. São muitos prédios e estruturas afetadas.”
Ortiz soube pela esposa dos terremotos, ao chegar em casa. “Tentei entrar em contato, não havia comunicação, então tu imagina a preocupação. E quando soube que foi um duplo terremoto, naquela magnitude, ao decorrer dos dias e meses é que vamos ver o impacto que foi”, lamenta.
Ao fazer uma live no TikTok, viu a necessidade de oferecer seu espaço para colaborar. “Tem muitos heróis lá, que estão dentro dos escombros, mesmo com movimento sísmico, ainda resgatando. Ficar se lamentando não vai resolver nada. Eu uso meu espaço, que é a barbearia, para oferecer o que tenho, para ser um centro de recepção. As portas estão abertas, para ajudarmos como pudermos”, pontua.
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“Remédios e alimentos é o que o povo mais precisa. Tem muitos heróis lá, que estão dentro dos escombros, mesmo com movimento sísmico, ainda resgatando. Então, medicamentos são uma das principais coisas para enviarmos para lá. Os alimentos também devem ter uma validade boa, pois não adianta mandar algo que vai vencer semana que vem”, reitera.
Em busca de uma nova vida
Miguel entrou no Brasil pela fronteira com Roraima, em 2018. Aos poucos foi avançando, para Boa Vista e após, Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, onde morou durante sete anos.
“A decisão de vir foi como falar para alguém: ‘tira um braço, ou tira uma perna. A decisão era mais ou menos assim, para poder continuar. Na minha cidade, eu tinha minha barbearia em 2015. Meu pai quem me convidou, naquele tempo havia a escassez, não tinha nada no mercado, um açúcar. Era crise, guerra, fome, perseguição. Meu pai, músico, recebeu convite para trabalhar em Boa Vista. Num primeiro momento recusei, por não falar português e não conhecer ninguém, achei que era loucura. Mas depois eu acabei concordando, para passar toda essa dificuldade aqui ou no meu país, pelo menos aqui no Brasil havia a possibilidade de eu avançar, pensava que aqui seria um perrengue momentâneo”, relembra.
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Miguel chegou a morar quatro meses na rua, e com as máquinas de corte de cabelo, foi que conseguiu começar a aprender a língua portuguesa. “Cobrava 5, 10 reais e cortando o cabelo dos brasileiros que aprendi um obrigado, oi, boa tarde, com licença, foi batendo papo. E sinto que valeu a pena tudo que passamos. Era difícil encontrar emprego. Na fronteira tinha muita coisa errada e na minha condição, não gerava confiança, não tinha parentes aqui, não tinha documentação, era fantasma andando na cidade”, revela.
Mesmo diante das dificuldades, nunca pensou em voltar para a Venezuela. “A ideia era ir vindo mais para dentro do Brasil. As pessoas diziam que tinha que ir avançando, lá tinha muito migrante. Diziam que o Brasil não era isso aqui, que tinha que conhecer o Sul, São Paulo, Mato Grosso”, pontua.
Ele afirma que começou a sentir o que é o Brasil a partir do momento que esteve em Campo Grande. Primeiro, Miguel foi, em seguida, a sua esposa – na época, namorada. A história do casal, inclusive, é marcada pela vinda ao Brasil. Eles se conheceram na fronteira e, hoje, possuem uma família – inclusive, uma filha de seis anos que nasceu no País.
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“Uma ONG, que se chamava Boa Vista – Um Coração que Acolhe, ajudava qualquer pessoa que precisava, construiu abrigos, fez uma interiorização para trazer o pessoal para o Mato Grosso do Sul, após avaliação e entrevista. E eu sou um projeto deles, jamais vou esquecer o que fizeram por mim. Foi dessa forma que consegui sair da fronteira, fazer meu CPF, minha documentação, encontrar emprego”, justifica.
Tanto ele, quanto a empresa, trabalharam muito, com dois a três empregos, cada um. O dinheiro economizado foi utilizado para comprar as passagens aéreas para ela trazer os filhos, que ainda estavam na Venezuela. “Hoje nossos filhos falam mais Português do que Espanhol, apenas de em casa falarmos mais o Espanhol. Acaba sendo um portunhol”, brinca.
Ortiz reitera que se regularizar no País foi tranquilo. “O Brasil abriu as portas sem condição nenhuma, nos acolheu, ajudou e aproveitamos essa oportunidade. Tiramos CPF de forma gratuita, foi fácil”, diz.
A vinda para Gramado foi marcada, ainda, por desafios – mas sempre pelo otimismo de crescimento. “Nunca tinha ouvido falar de Gramado, minha esposa me comentou: ‘tem uma cidade no Rio Grande do Sul, muito bonita, com clima frio’. Em fevereiro ela falou, em março chegamos aqui, vendemos tudo e viemos”, relembra.
Ele conseguiu abrir sua barbearia em janeiro deste ano e tem como clientela tanto estrangeiros, que se identificam com a possibilidade de falar espanhol, quanto gramadenses. “Comecei cortando em domicílio, e enquanto isso, trabalhava numa pizzaria. Cortava cabelo de manhã e fazia pizza à noite. Com uma semana em Gramado, tinha um grupo com 25 clientes fixos. Sou uma pessoa que não gosta de pedir nada de graça, por isso ia e me apresentava. Ia pelo caminho mais difícil, mas é ali que tem história”, celebra.
Como ajudar
A campanha continua ativa e os cidadãos e empresários podem contribuir com os seguintes insumos prioritários: alimentos não perecíveis; produtos de higiene pessoal; produtos de limpeza não tóxicos; e fraldas para crianças e adultos.
Outros itens fundamentais neste momento são os hospitalares e de primeiros socorros, tais como luvas descartáveis, máscaras, gazes, ataduras, esparadrapos, soro fisiológico, álcool 70%, algodão, seringas descartáveis lacradas e demais materiais básicos de cuidado, desde que estejam dentro do prazo de validade e em condições adequadas para uso.
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Outros objetos essenciais de ajuda humanitária, desde que em bom estado e adequados para envio, também são aceitos. Neste momento, não há necessidade de envio de roupas.
Locais de arrecadação
Gav Matriz -Avenida Borges de Medeiros, número 2454 – Centro – Gramado
Escritório QRV Multisserviços – Rua Senador Salgado Filho, número 89 – Centro – Gramado
Barbearia Venestilo – Rua Tristão de Oliveira, número 397 – Sala A1 – Floresta – Gramado.