Um novo episódio de chuva intensa previsto para este fim de semana pode agravar de forma significativa a situação dos rios e das áreas já afetadas por cheias na região metropolitana de Porto Alegre e nos vales do Sinos, Caí e Paranhana.
A MetSul Meteorologia projeta volumes de 100 mm a 200 mm entre o final de sábado (28) e a manhã de domingo (29). Isso significa que, em poucas horas, o volume de chuva pode ultrapassar toda a média histórica de chuva do mês de junho, que é de 130 mm. O cenário se agrava uma vez que, até esta segunda-feira (23), essa média já foi superada (e muito) em quase todo o Rio Grande do Sul. Em Campo Bom, por exemplo, foram 223,9 mm e, em Novo Hamburgo, 340 mm.

Foto: Dário Gonçalves/Arquivo GES-Especial
A preocupação se intensifica porque os níveis dos rios seguem elevados. Segundo medições da tarde desta quinta-feira (26), o Rio dos Sinos, em São Leopoldo, marcava 4,76 metros, já acima da cota de inundação (4,50 m). O Guaíba estava em 2,87 m, muito próximo do transbordamento, que ocorre a partir de 3 metros. No Vale do Caí, o rio media 6,08 metros em São Sebastião do Caí, enquanto o Paranhana já apresentava sinais de elevação em Taquara, com 4,06 m (a cota é 5 m).
A MetSul reforça que o cenário previsto não se compara com a catástrofe de maio de 2024, quando choveu o “extremo do extremo”. Ainda assim, o risco não pode ser subestimado. O alerta é para uma situação semelhante à vivida em diversas enchentes registradas no segundo semestre de 2023, com alagamentos urbanos, transbordamento de arroios, riscos de deslizamentos e elevação crítica dos principais rios do Estado.

Foto: Dário Gonçalves/Arquivo GES-Especial
Riscos elevados
Além dos altos volumes previstos, outro fator agrava o risco: o solo está encharcado por quase duas semanas de chuvas, o que compromete a absorção de novas precipitações. Isso aumenta o risco de deslizamentos de terra em áreas de encosta, especialmente na Serra e nos vales.
De acordo com a Defesa Civil estadual, a instabilidade avança a partir do sábado pela manhã na Metade Norte, ganhando força à tarde e à noite. O período mais crítico deve ocorrer entre o final de sábado e a manhã de domingo, com volumes expressivos acumulados em poucas horas. A previsão é de chuvas fortes acompanhadas de raios, vento e eventual queda de granizo.
A situação é especialmente delicada na Região Metropolitana, onde as estruturas de drenagem urbana estão sobrecarregadas. Com o Guaíba ainda alto, os sistemas de bombeamento, arroios e canais enfrentam dificuldade para escoar a água da chuva. Isso pode levar a alagamentos severos mesmo sem o transbordamento dos grandes rios.
Em cidades como Porto Alegre, Canoas, Gravataí, Alvorada e Cachoeirinha, o risco é considerado acentuado. A Defesa Civil estadual alerta para a possibilidade de inundações em áreas sem monitoramento e de enxurradas em zonas urbanas, além da chance de nova elevação do Guaíba a partir da próxima terça-feira (1º), quando a vazão dos rios deve alcançar a capital.
A recomendação, tanto da MetSul quanto da Defesa Civil, é de atenção redobrada em áreas de risco e acompanhamento dos alertas oficiais. A perspectiva de agravamento hidrológico exige ação coordenada das prefeituras e da população, com atenção especial para o que deve ocorrer entre sábado à noite e domingo pela manhã.
Municípios se articulam com planos de contingência
Com o alerta sobre o risco de volumes de chuva acima da média histórica de junho neste fim de semana, cidades dos vales do Sinos, Caí e Paranhana mobilizam planos de contingência e monitoramento preventivo. Em comum, todas reforçam a prontidão das estruturas de abrigo, equipes de campo e comunicação com a população.
Em Três Coroas, no Vale do Paranhana, a previsão local indica acumulado de 103 mm entre a tarde de sábado (28) e a manhã de domingo (29), segundo o coordenador da Defesa Civil, Augusto Dreher. Ele afirma que o gabinete de crise se reúne nesta sexta-feira (27) para ativar o plano de contingência e detalhar medidas à população. “O nível do rio está favorável, mas a atenção será redobrada nas áreas com histórico de deslizamentos”, afirmou. Abrigos e veículos para remoção de moradores em áreas de risco estão prontos para uso, se necessário.
No mesmo vale, Taquara acompanha a previsão de cerca de 60 mm de chuva. Embora o Rio dos Sinos esteja baixando, o coordenador Alessandro Santos reforça que o município estará atento à evolução nas cabeceiras dos rios. “O abrigo será ativado, se necessário, conforme a emergência”, disse.
Já em Parobé, a Prefeitura mantém três abrigos prontos e equipes de todas as secretarias em alerta. A estrutura também conta com caminhões para o transporte de moradores e um ponto específico para recebimento de móveis doados. Durante as últimas chuvas, 400 pessoas foram afetadas, e a cidade agora reforça a vigilância nas áreas de risco e canais urbanos, com ações de apoio direto às famílias. “Seguimos mobilizados para agir com a mesma agilidade e solidariedade demonstradas no último episódio”, afirmou o prefeito Gilberto Gomes.
Em Sapiranga, o plano de contingência prevê monitoramento de cursos d’água e regiões de encosta, com foco nas áreas urbanas e rurais. Os ribeirinhos em áreas de risco são previamente orientados e atendidos por equipes locais.
Campo Bom projeta menor volume de chuva, 31 mm no sábado e 43 mm no domingo segundo a Estação Meteorológica do município. O responsável, Nilson Wolff, avalia que os volumes, por ora, não devem impactar o Rio dos Sinos de forma significativa, já que o nível está em declínio. “Como o rio está baixando, estes volumes previstos não irão afetar o nível a ponto de causar nova enchente”, projeta.
Por outro lado, de acordo com os parâmetros da Defesa Civil, está prevista uma média de 100 mm de chuva para este final de semana. No entanto, o volume nas cabeceiras do Rio dos Sinos, que influencia diretamente o nível do rio em Campo Bom, é menor, estimado em cerca de 70 mm, o que representa um cenário menos crítico, mas que ainda requer atenção.
Por meio da Secretaria de Desenvolvimento Social, a Prefeitura está em estado de sobreaviso, com equipes mobilizadas e estrutura já montada para remoção e acolhimento de famílias, caso haja necessidade.
Sobre a previsão de chuva no final de semana, as equipes da Defesa Civil de Novo Hamburgo também estão atentas para uma provável elevação do nível do Rio dos Sinos. Além da precipitação local, a previsão aponta para grandes volumes nas regiões dos seus afluentes. “Atualmente, o Sinos está com mais de 6 metros. As ações de prevenção seguem as mesmas, com foco especialmente na limpeza e reparo da canalização pluvial para garantir o melhor escoamento possível da água da chuva”, informa a Administração.
Em São Leopoldo, a previsão de até 90 mm de chuva no sábado e 80 mm no domingo, com possibilidade de rajadas de vento de até 75 km/h, levou o Semae a reforçar ações de prevenção. A autarquia informou que equipes técnicas atuam na manutenção das casas de bombas e na desobstrução das redes de esgoto para reduzir o risco de alagamentos, especialmente em áreas críticas como os bairros Vicentina e Campina.
Em São Sebastião do Caí, onde o Rio Caí chegou a 12,90 metros na semana passada (cota é de 10,50), a Prefeitura monitora de perto a nova previsão. “Se chover o que está previsto, o rio pode voltar a extravasar. Já fizemos reuniões para nos antecipar e colocamos o plano de contingência em alerta”, informou a gestão municipal.
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