O Oceano Pacífico Equatorial Central-Leste atingiu, pela primeira vez, o patamar mínimo para a caracterização do fenômeno El Niño de acordo com os novos parâmetros científicos internacionais. A avaliação foi realizada pela MetSul Meteorologia com base nos dados mais recentes da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), a agência de tempo e clima dos Estados Unidos.
Segundo o boletim semanal da NOAA, a anomalia na temperatura da superfície do mar chegou a +0,5°C na Região Niño 3.4 — a área globalmente utilizada para definir a presença do fenômeno.

Foto: NASA/Reprodução/MetSul
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Embora o valor represente o limite inicial para o El Niño, esta foi, curiosamente, a primeira semana em que a região alcançou o patamar sob o novo sistema de monitoramento norte-americano, batizado de Índice Niño Oceânico Relativo (RONI).
O contraste entre os métodos antigo e novo
A análise da MetSul destaca a discrepância entre a nova metodologia e o sistema anterior. Se o monitoramento ainda seguisse o método tradicional — o Índice Niño Oceânico (ONI), utilizado até o início deste ano, a temperatura da superfície do mar estaria registrando uma anomalia muito maior: +0,9°C.
Pelo critério antigo, o Pacífico já estaria operando em patamar de El Niño pela quinta semana consecutiva. Os dados históricos recentes mostram essa evolução:
- 15 de abril: +0,5°C
- 22 de abril: +0,8°C
- 29 de abril: +0,9°C
- 6 de maio: +0,9°C
- 13 de maio: +0,9°C
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Por que a NOAA ainda não declarou o El Niño?
A MetSul Meteorologia explica que a agência norte-americana não deve oficializar o início do fenômeno imediatamente. Para que o El Niño seja formalmente declarado, é necessário que o aquecimento do oceano se sustente por várias semanas consecutivas, acompanhado pelo acoplamento das condições atmosféricas (como a mudança no regime de ventos).
Como o novo critério registrou o patamar mínimo há apenas uma semana, o processo ainda precisa de tempo para se consolidar.
Caso a metodologia antiga ainda estivesse em vigor, a NOAA possivelmente já teria anunciado o começo do evento, ou estaria prestes a fazê-lo. A título de comparação, no episódio de 2023, sob as regras antigas, o início do El Niño foi oficializado logo no começo de junho.
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Por que mudou o parâmetro?
A NOAA anunciou mais cedo neste ano uma mudança na forma de monitorar o El Niño e a La Niña.
A alteração busca tornar o acompanhamento do Pacífico Equatorial mais preciso em um planeta cada vez mais aquecido pelo aumento da temperatura média global. O ONI utilizava anomalias de temperatura da superfície do mar calculadas com base em médias históricas fixas de 30 anos.
“O problema é que, com o aquecimento global, os oceanos ficaram progressivamente mais quentes, o que poderia mascarar ou distorcer episódios de El Niño e La Niña ao comparar o presente com um clima passado mais frio”, aponta a meteorologista Estael Sias.
O novo RONI passa a usar uma abordagem relativa, levando em conta o aquecimento global de fundo para identificar se o Pacífico Equatorial está efetivamente mais quente ou mais frio do que o restante dos oceanos tropicais.
Assim, o índice tenta separar melhor o sinal natural da tendência de aquecimento causada pelas mudanças climáticas. “Na prática, a NOAA entende que o RONI poderá identificar de forma mais realista a intensidade dos eventos e evitar classificações exageradas ou subestimadas”, explica Estael.
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A mudança também pode alterar comparações históricas entre episódios antigos e atuais de El Niño e La Niña, já que os critérios de análise passam a considerar um oceano global significativamente mais quente do que décadas atrás.
Com a alteração, alguns períodos considerados antes neutros (sem Niño ou Niña) passaram a ser considerados como La Niña.
O que os modelos avaliados projetam
O fenômeno El Niño deve ter início formal no final deste outono, apresentando uma tendência de rápido fortalecimento ao longo dos meses de inverno.
Conforme a análise da MetSul Meteorologia, a esmagadora maioria dos modelos climáticos globais aponta que o evento atingirá seu pico de intensidade no último trimestre do ano, com potencial para se consolidar como um evento de intensidade forte a muito forte (Super El Niño).
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A atualização de 1º de maio do modelo climático europeu (ECMWF) elevou o alerta para a possibilidade de um Super El Niño histórico nos próximos meses. As projeções agora indicam aquecimento ainda mais intenso no Pacífico Equatorial, com anomalias perto de +3,2°C até o fim de 2026, pelo critério tradicional (ONI).
Se confirmado, o evento poderá rivalizar ou até superar os maiores episódios já registrados, como os de 1997-1998 e 2015-2016, que atingiram cerca de +2,8°C e +2,7°C respectivamente.
O modelo norte-americano também projeta um El Niño excepcionalmente forte. Pelo antigo índice ONI, algumas projeções superam +3°C, enquanto pelo novo índice RONI o aquecimento aparece um pouco menor, mas ainda em território de Super El Niño, entre 2,5ºC e 2,7ºC.
A maioria dos cenários indica forte intensificação no segundo semestre, com pico entre a primavera e o fim de 2026.
Impactos de El Niño
No Sul do Brasil, o El Niño costuma ter efeitos mais marcantes, com aumento significativo das chuvas e maior frequência de eventos extremos.
São comuns episódios de precipitação volumosa, que elevam o risco de cheias de rios e enchentes, principalmente no inverno e na primavera do primeiro ano do fenômeno e no outono do ano seguinte.
Temporais se tornam mais frequentes, assim como a ocorrência de ciclones, alguns deles intensos, enquanto as temperaturas tendem a ficar acima da média, apesar de eventuais incursões de frio.
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