A parceria entre pescadores e botos nos estuários do Sul acaba de ser elevada ao status de Patrimônio Cultural do Brasil. O reconhecimento oficial abrange a complexidade de um sistema de pesca único, onde o comportamento animal e o conhecimento humano se fundem para garantir a sobrevivência em comunidades gaúchas e catarinenses.

Foto: Iphan/Reprodução
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A decisão foi tomada nesta semana, terça-feira (11), pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Embora a prática se estenda por outros pontos da região Sul, o litoral gaúcho abriga cenários fundamentais para a presença dessa tradição. A foz do Rio Tramandaí é um dos principais locais onde o “pacto” se manifesta com maior frequência, ocorre também, de forma ocasional, no estuário do Rio Mampituba, em Torres.
Para os pescadores do Rio Grande do Sul, a relação com os animais ultrapassa a utilidade laboral e toca a identidade local. Os botos não são vistos como meros auxiliares, mas como indivíduos com nomes e personalidades próprias. Durante os meses de outono, entre maio e julho, os animais cercam os cardumes e sinalizam, por meio de saltos e movimentos específicos, o momento exato para o lançamento das redes de pesca.
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Dimensão ambiental e social
O parecer do Iphan destaca que o registro inova ao incluir a interação com espécies não-humanas como parte do patrimônio nacional. O reconhecimento ocorre em um momento de alerta ambiental: em 2025, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) elevou o risco de extinção dos botos-de-Lahille. Estima-se que existam apenas cerca de 330 no mundo, com a grande maioria concentrada nesta faixa do litoral brasileiro.
Para as comunidades pesqueiras do Litoral Norte gaúcho, o título representa um esforço na luta pela preservação ambiental. “Se nós não resolvermos o habitat dos botos, todos irão morrer”, alerta o pescador Reinaldo Florentino, que convive diariamente com os animais. Para ele, o desaparecimento da espécie seria a perda de um membro da família.
Com o reconhecimento do Iphan, o poder público assume o compromisso de salvaguardar não apenas o conhecimento técnico dos pescadores, mas também as condições ecológicas necessárias para que essa coabitação milenar continue existindo nas águas do Sul.
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