A pesca cooperativa entre botos e humanos ultrapassa gerações no Rio Tramandaí. Os animais da espécie boto-de-Lahille costumam ajudar pescadores do litoral norte na busca pelo sustento.
Conforme os profissionais que atuam na Barra do Rio Tramandaí, entre os municípios de Tramandaí e Imbé, o auxílio dos mamíferos é essencial. “A pescaria para nós é 99% com o boto e apenas 1% conseguimos pegar sem ajuda”, afirma Luciano da Luz, que há 23 anos pesca ao lado dos animais.

Foto: Juliano Piasentin/GES-Especial
A parceria é reiterada por Valdomiro Lentz Pereira, que se criou na região. “Faz 40 anos que pesco aqui, comecei aos 10 anos e o boto quando ele ta na barra, a gente pega um peixinho, quando não vem, a gente fica triste. É quase um familiar nosso.”
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Na pesca cooperativa, o boto cerca as tainhas, as aproxima do canal e indica o cardume aos pescadores. O sinal acontece quando o mamífero tira a cabeça para fora d’água. Nesse momento, os profissionais e amadores lançam as tarrafas, cobrindo o espaço entre botos e pescadores.

Foto: Juliano Piasentin/GES-Especial
Valdomiro salienta que os melhores peixes ficam com os parceiros. “Eles merecem.” Tendo a pesca como sua principal fonte de renda, Eduardo Müller destaca que a presença dos botos também garante a captura de peixes de qualidade. “Se estão aqui, significa que há vida em abundância. O peixe agreda na nossa alimentação e podemos vender um produto de qualidade ao turista.”
Paciência
Apesar da ajuda, é preciso ter paciência na hora de pescar. “Temos que ter habilidade para aprender com os animais. Às vezes eles [botos] mostram de lado [onde está o cardume], como mostra de bico. Então conseguimos saber onde os peixes estão, ou não. Quem não sabe, acaba aprendendo por estar ao nosso lado”, explica Valdomiro, que vive exclusivamente da pesca.
“O boto é essencial para nós”, diz Luciano, que aprendeu com o pai e pegou prática após anos de pescaria ao lado dos animais. “São diversas maneiras de mostrar onde está o cardume. Precisamos de paciência e ficar observando. Quando começamos a pescar, a gente começa a pegar o jeito deles, aos poucos vamos pegando conhecimento e aprendendo”, reforça.
O pescador garante que os botos mostram mesmo o peixe. “Quando não é tainha, é outro peixe, miúdo que pode passar na malha pelo tamanho.” Portanto, não há o boto mentiroso, como alguns falam. “Até já teve, mas ele morreu faz tempo. Agora todos mostram de verdade”, assegura.
Batizados com carinho
No total, 18 botos costumam frequentar a Barra de Imbé. Entre os mais famosos estão Geraldona, que desde 1992 ajuda os pescadores locais. Ela chegou a ser nomeada como Geraldão, antes da descoberta que se tratava de uma fêmea.

Foto: Juliano Piasentin/GES-Especial
Geraldona é mãe de Rubinha, Chiquinho e Furacão. Também já é avó de Esperança. Todos os botos foram batizados pelos próprios pescadores. “São da família. O Furacão eu mesmo que batizei. As fêmeas mais velhas vinham com os filhotes e a gente já colocava o nome”, afirma Valdomiro.
O boto, que tem cerca de 2 anos, é um dos mais ativos na Barra. “Ele a Geraldona estão aqui quase todos os dias”, diz.
Escurinho é outro que aparece com frequência e o espetáculo da natureza é observado por turistas que se aproximam, curiosos com o que estão vendo. É o caso de Susana Francisco, que costuma veranear em Imbé e levou os netos para conferir de perto. “É lindo de ver, algo que só a natureza nos proporciona. Os pequenos também ficaram encantados e é um orgulho poder trazer eles”, completa.
Os botos-de-Lahille são acompanhados por profissionais do Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (Ceclimar) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), por meio do projeto Botos da Barra.
Inclusiva, o tráfego de veículos aquáticos, como jet-skis, é proibido no Rio Tramandaí. Pranchas de Kite Surf também não são permitidas, aumentando a incidência de dos animais na região. A espécie está ameaçada de extinção. No Brasil, o fenômeno da pesca cooperativa se repete em Laguna, Santa Catarina.