Modelos climáticos indicam a iminência do retorno do fenômeno El Niño em 2026, com previsão de se desenvolver ao longo da segunda metade do ano. A ocorrência do fenômeno traz consigo cenários de preocupação acerca de impactos severos em diversos estados.

Foto: Dário Gonçalves/Arquivo/GES-Especial
Mas por que um El Niño hoje é mais perigoso do que décadas atrás? A MetSul Meteorologia aponta que a resposta está nas mudanças do clima do planeta, já que o El Niño ocorre em um planeta bem diferente d de 40 anos atrás. “A principal mudança está no aquecimento global: a atmosfera e os oceanos estão mais quentes, o que amplia o potencial de extremos”, explica a meteorologista Estael Sias.
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Na prática, isso significa que os impactos típicos do El Niño, como chuvas intensas no Sul do Brasil, podem ser mais severos do que no passado. Basta ver o que ocorreu entre 2023 e 2024 no Rio Grande do Sul.
Estael elenca vários eventos de El Niño intensos entre 1940 e 2025, “mas nenhum causou tantas enchentes como o de 2023-24”, observa.
Ela aponta o caso de Porto Alegre: o Guaíba superou os 3 metros (cota de transbordamento no Cais Central de Porto Alegre) em maio de 1941 com 4,76 metros; depois voltou a superar a cota apenas em setembro de 1967 (26 anos depois). Os 3 metros apenas voltaram a ser excedidos em setembro de 2023; em novembro de 2023; e em maio de 2024, quando chegou ao maior patamar da história, com 5,15 metros, somente meio ano após a última cheia que superou 3 metros.
A meteorologista aponta que dados de instituições como o Copernicus Climate Change Service, o Berkeley Earth, a NOAA e a NASA mostram com clareza essa transformação no clima: os anos de 2023 e 2024 foram os mais quentes já registrados no planeta. ‘E não por coincidência, esse período ocorreu sob influência de um episódio de El Niño, que adicionou calor extra à atmosfera global.”
Combinação eleva risco de episódios mais severos
O El Niño se caracteriza pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico equatorial, especialmente na sua porção central e leste. Esse aquecimento altera a circulação de ventos e desloca áreas de chuva pelo planeta.
No Sul do Brasil, historicamente, o fenômeno está associado a períodos mais chuvosos e maior frequência de temporais. “O que mudou nas últimas décadas é o ‘pano de fundo’ do clima. Os oceanos estão mais quentes e acumulam energia ao longo do tempo”, observa a meteorologista da MetSul.
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Quando um El Niño se forma, ele passa a atuar sobre esse cenário já aquecido. “É como se o fenômeno começasse com mais combustível disponível, potencializando seus efeitos”.
Ao mesmo tempo, uma atmosfera mais quente consegue reter mais vapor d’água, pois o ar funciona como uma esponja: quanto mais quente, mais água consegue segurar. Com mais vapor disponível na atmosfera, as nuvens têm maior capacidade de produzir precipitações volumosas em curtos períodos.
“O resultado é um aumento significativo do risco de eventos extremos. Tempestades podem descarregar volumes muito maiores de chuva, elevando o perigo de enchentes, alagamentos e deslizamentos de terra”, aponta.
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Esse cenário ficou evidente no recente desastre no Rio Grande do Sul, o maior da história do estado. Durante o episódio, uma combinação de El Niño, atmosfera aquecida e sistemas de chuva persistentes levou a acumulados excepcionais.
“Décadas atrás, um El Niño também traria chuva acima da média. Hoje, porém, a intensidade dessas precipitações pode ser muito maior”, avalia Estael.
Oceanos aquecidos
Outro fator importante é a temperatura dos oceanos, que tem atingido níveis recordes em diversas regiões do mundo. Esse calor adicional favorece a evaporação, ou seja, mais água passa do oceano para a atmosfera, alimentando sistemas de chuva.
Mas, atenção, o El Niño não é causado pelas mudanças climáticas. Ele é um fenômeno natural, que sempre existiu. “O que mudou foi o ambiente em que ele ocorre. Em um planeta mais quente, seus efeitos tendem a ser amplificados”, ressalta a meteorologista.