O climatologista José Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), enviou documento técnico à Casa Civil em março de 2026 advertindo sobre um “desastre térmico” no território brasileiro. Segundo a análise, há 80% de probabilidade de estabelecimento do El Niño no Oceano Pacífico durante o segundo semestre de 2026. Os impactos mais severos devem atingir especialmente as regiões Sudeste e Centro-Oeste a partir de setembro.

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O fenômeno se caracteriza quando o Oceano Pacífico equatorial mantém temperaturas pelo menos 0,5°C superiores à média durante três meses consecutivos. Isso provoca desequilíbrios climáticos com extremos de calor, seca e precipitação, conforme informações divulgadas por O Globo. O calor produzido pelo El Niño se adiciona ao aquecimento global e aos efeitos do desmatamento.
A Organização Meteorológica Mundial documentou que o período entre 2015 e 2025 foi o mais quente já registrado. O desequilíbrio energético da Terra alcançou o nível mais elevado desde que as observações começaram em 1960. O desequilíbrio energético representa a diferença entre a energia solar absorvida e a irradiada de volta ao espaço.
Ondas de calor aumentam no Brasil
Nos últimos cinco anos, aumentaram a área afetada e a frequência de ondas de calor no Brasil. O ano de 2024 registrou dez ondas de calor. Em 2023, ocorreram oito eventos desse tipo. O ano de 2025, mesmo sem El Niño, marcou sete ondas de calor.
Algumas ondas superam dez dias de duração. O efeito mais prejudicial não é o extremo pontual de temperatura, mas semanas consecutivas acima da zona de conforto térmico do ser humano, que oscila na faixa dos 23°C.
Estudos publicados na revista Lancet demonstram que o ar-condicionado é a única forma de aliviar sensação térmica superior a 35°C. Ligar um único aparelho por aproximadamente 10 horas diárias pode triplicar a conta de energia, mesmo com a bandeira tarifária verde.
As temperaturas mínimas têm subido mais do que as máximas, segundo Marengo. O termômetro permanece elevado durante o dia e não baixa de forma expressiva à noite. Sem ar condicionado, as pessoas não conseguem descansar adequadamente. Ventiladores se tornam ineficazes nessas condições.
“Vai acontecer, será muito quente e vamos sentir mais a partir de setembro. Mais que isso, é especulação”, declarou o climatologista.
Intensidade do fenômeno ainda é incerta
Marengo afirma ser impossível determinar neste momento a intensidade exata do fenômeno. Os modelos de previsão perdem precisão em períodos superiores a dois meses. A nota do Cemaden informa que “Para ser classificada como muito forte a anomalia (na água do Pacífico) teria que superar 2,0°C”.
O El Niño de 2024 não foi classificado como muito forte, mas teve efeitos devastadores. A tragédia no Rio Grande do Sul e a seca recorde na Amazônia ocorreram porque a Terra está mais quente do que nunca nos registros. Caso o El Niño seja classificado como forte ou muito forte, pode superar 2024 e levar o Brasil e o mundo a um patamar inédito de calor intenso e prolongado.
O ano de 2026 poderá superar 2024 como o ano mais quente da História da Humanidade. Não é possível determinar neste momento se o cenário na Amazônia será como o de 2023/2024, cuja seca brutal ficou marcada na imagem da maior mortalidade de botos-cor-de-rosa da História.
Impactos econômicos e na saúde
O climatologista ressalta que o calor é um assassino invisível e silencioso. O calor extremo e prolongado agrava doenças com efeitos extensos sobre a saúde. Além disso, reduz a produtividade, mata plantações, causa incêndios e mata animais.
O impacto econômico será direto no bolso dos brasileiros. O custo dos alimentos deve subir porque o calor constante somado a extremos de seca e chuva diminui a produtividade e leva à escassez de produtos, sobretudo hortifrutigranjeiros.
Na Amazônia, mesmo que chova abaixo da média, o impacto sobre o ciclo de cheias tende a ser limitado. Em setembro, quando o El Niño já deve estar configurado, o pico de cheia principal já terá passado. Um novo ciclo está previsto apenas para o fim de 2026. Mesmo que a seca se prolongue até o final do ano, o efeito esperado é um atraso no início do novo ciclo hidrológico. Isso afetará principalmente as áreas de nascente dos rios Solimões e Negro, e não toda a bacia amazônica.
Na Região Sul, se as chuvas ficarem acima da média, como costuma ocorrer em anos de El Niño, aumenta o risco de deslizamentos. Podem ocorrer desde quedas de barreiras em rodovias até deslizamentos em áreas urbanas. As áreas de maior preocupação incluem Grande Curitiba, litoral do Paraná, Norte Catarinense, Vale do Itajaí, Grande Florianópolis, parte sul de Santa Catarina, Serra gaúcha, região metropolitana de Porto Alegre e áreas de Santa Cruz do Sul e Santa Maria no Rio Grande do Sul.
Volumes de chuva superiores à média podem provocar cheias importantes em bacias como Uruguai, Taquari-Antas, Caí, Itajaí-Açu e Iguaçu. Os eventos de El Niño tendem a favorecer não só chuvas acumuladas acima do normal, como episódios pontuais de chuva intensa. Esses episódios são capazes de gerar enxurradas e alagamentos em áreas densamente povoadas, com destaque para as regiões metropolitanas de Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba e todo o litoral catarinense.
No Nordeste, se houver atraso na chuva, o impacto será maior no sertão. Muitos municípios dependem de barragens intermitentes que levam mais tempo para encher quando o período chuvoso atrasa ou é mais fraco.
No Centro-Oeste, se o El Niño se estabelecer na segunda metade de 2026, ele pode piorar a seca já em curso no centro-norte do Brasil. A situação se agrava se vier acompanhado por temperaturas altas, baixa umidade do ar e atraso no início da estação chuvosa 2026-2027. Esse conjunto de condições criaria um cenário particularmente favorável ao aumento do risco de incêndios florestais e em áreas de vegetação, principalmente a partir de agosto. O Pantanal está entre as áreas de preocupação.
No Sudeste, o calor é a marca do El Niño na região. O Sudeste é uma região que os climatologistas chamam de transição e sofre outras influências. Não existe aumento especial nos registros de extremos de chuva associados ao fenômeno.
Marengo afirma que os invernos estão ficando mais quentes. Isso não impede a ocorrência de episódios de frio intenso. O El Niño é desequilíbrio e ele também pode se manifestar com extremos pontuais de frio. Esses episódios são bem menos frequentes do que os de calor.
O Cemaden lembra que o El Niño não é o único fator por trás de extremos climáticos. O Oceano Atlântico Tropical também interfere no regime de chuvas da região Nordeste. Processos não climáticos, como mudanças no uso da terra e desmatamento, agravam secas e enchentes ao alterar a recarga dos reservatórios e o comportamento das bacias hidrográficas.
Os primeiros indícios do El Niño surgem durante o período natalino. Isso explica a referência ao “menino” Jesus na denominação do fenômeno. O desenvolvimento ocorre entre abril e junho, com manifestação dos efeitos mais severos nos meses posteriores, particularmente de outubro a fevereiro do ano seguinte.