Há um ano, em 5 de maio de 2024, um domingo, o sol voltava a brilhar na região, mas o alívio que ele trazia era quase que sufocado pelo drama de quem havia perdido tudo ou parte dos seus pertences e de seu lar e naquele momento estava esperando a água baixar.
O clima era de incredulidade frente à grande inundação causada pela enchente de rios e arroios que transbordaram até por sobre das, até então, estruturas protetivas contra as cheias. Vimos a força da natureza sobrepujar os esforços humanos – diques, muros, comporta, casas de bombas – para conter as consequências das enxurradas.

Foto: Fernando Gusmão/GES
Desde o dia 1º de maio de 2024 é que começou a se ter uma ideia do que viria naquele início de maio, quando o governador Eduardo Leite anunciava “o maior desastre do nosso Estado”. Mas ninguém estava preparado para tudo aquilo. Ninguém imaginava. Na capa do nosso jornal ABC estampávamos o sentimento daquilo tudo que víamos: inacreditável. A BR-116 inundada e a estrada de chão batido que seria construída formariam uma imagem inimaginável para nós.
Se alguém tivesse falado que cidades da região metropolitana seriam invadidas pelas águas dos rios e arroios, com a inundação batendo em um a dois metros nas casa e prédios (ou até mais em alguns locais), que lares seriam destruídos, que ruas seriam tomada por canoas, lanchas e jet-skis, enfim, ninguém acreditaria. Talvez pensasse em um alagamento no cordão da calçada, mas não com as águas encobrindo casas e engolindo tudo que tivesse dentro.
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Os dias seguintes àquele início de maio de 2024 foram de reação, de solidariedade e também de aflição em relação ao que viria pela frente. Passado um ano, as marcas das perdas ainda são visíveis. Se recuperou e se reergueu o que foi possível, mas ainda há muito a fazer. Ainda há centenas de pessoas sem um lar. Vivem provisoriamente. Um ano vivendo de forma improvisada.
E elas têm direito a um lar, a uma indenização. Afinal, o poder público falhou com estas pessoas. Nossos governantes – e aí vamos desde o Executivo ao Legislativo e até Judiciário – tinham o dever de resguardar a sociedade. É para isso que pagamos impostos e seus cargos. Não é para polarizarem em discursos políticos partidários. É para garantirem direitos fundamentais à dignidade, como saúde , educação e moradia.
A força da natureza foi brutal naqueles dias, e é preciso dizer, ela seria menos brutal se ambientalmente tivéssemos respeitados os limites. As ocupações residenciais e comerciais às margens de rios e arroios, que tiveram sua área de vazão limitada pelo avanço humano, são de responsabilidade de governos municipais, estaduais e federal. Em nome de políticas sociais capengas foi permitido que locais inundáveis se transformassem em habitáveis.
Para isso, criados foram os sistemas de contenção de cheias. Na realidade, uma limitação dos rios e arroios. E essa limitação, multiplicada pela devastação ambiental, fez com que a natureza explodisse naquela catástrofe de final de abril e início de maio de 2024. Não sem antes de ter dado avisos, em 2023, quando desde junho várias cidades do Rio Grande do Sul começaram a enfrentar episódios extremos do clima, com enxurradas e enchentes anormais.

Foto: Renato Silveira/Especial
Bem, apesar destes avisos, as autoridades se limitaram a reparar, e não a pensar em algo maior: a prevenção ao desastre. E se viu, após a catástrofe, que já se tinha em mãos estudos que apontavam as fragilidades de sistemas de contenção de cheias já ultrapassados na sua capacidade de proteção às cidades. Ou alguém acha que as novas pontes da BR-116 sobre o Rio dos Sinos, em São Leopoldo, construídas bem mais altas que as antigas, eram apenas um capricho estético ou rodoviário?
Sim, já se tinha conhecimento de que estas estruturas projetadas construídas no século passado, há mais de 50 anos, precisavam ser mais elevadas para segurança de todos. Mas os diques do Vale do Sinos não foram elevados. As comportas da capital – avariadas – não foram suficientes no famoso Muro da Mauá. Os sistemas de bombas para retirada de águas das zonas urbanas eram insuficientes e não previam a inundação das casas que os guardavam. Porque só depois de tudo é que foram buscar as tais bombas anfíbias. Elas já existiam há anos, mas só após a tragédia é que se viu a importância delas.
E cá estamos em maio de 2025. Um ano depois.
As marcas ainda são visíveis, até mais visíveis do que queríamos em alguns locais. E a grande pergunta é: se aquilo tudo voltasse a acontecer estaríamos preparados?
Prefeituras da nossa região metropolitana e de outras região do Estado (como o castigado Vale do Taquari – onde o bairro Passo da estrela de Cruzeiro do Sul foi praticamente varrido do mapa) tem buscado algumas ações para amenizar casos de enchentes, como desassorear rios e arroios, ou, como em São Leopoldo, elevar as estruturas dos diques.

Foto: Divulgação/Semae
Mas, um ano depois, a lentidão de estudos para um projeto mais robusto e conjunto em nossas bacias hidrográficas preocupa. Temos bilhões de reais para investir e poucas ações práticas que saíram do papel até agora. Sim, não dá para fazer tudo da noite para o dia. Mas, após um ano, já deveríamos ter algo avançando e não apenas ações isoladas de cada cidade.
Um ano depois, caso uma enchente como aquela ocorresse hoje estaríamos seguros?
Estamos engatinhando, e muito disso se deve à guerra política e partidária polarizada que vivemos atualmente. Tudo é visto como disputa política. E com novas eleições se aproximando (2026 logo está aí), os avanços são lentos, freados.
Um ano depois, as nuvens ainda pairam sobre nossas cidades. Que a natureza – violentada pelas afrontas de progresso e mudanças climáticas causadas pela cobiça humana – tenha piedade de todos nós.
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