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Fim de uma era

"A gente andava com as fichas no bolso": Orelhões que continuam em Canoas estão com os dias contados

Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) anunciou que recolherá 38 mil aparelhos no Brasil

Publicado em: 27/01/2026 às 11h:00 Última atualização: 27/01/2026 às 15h:44
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Se hoje basta um comando de voz ou o simples toque em um pequeno aparelho para ser estabelecida a comunicação imediata com quem se deseja conversar à distância, entre as décadas de 70 e 90 a situação era bem diferente.

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Era preciso ir longe atrás de um telefone público. Isso porque era preciso ser rico para possuir um aparelho em casa até a década de 90. E neste contexto, os populares orelhões têm lugar de destaque.

O aposentado Clóvis Brasil lembra bem da época em que deixava fichas para poder usar o telefone público | abc+



O aposentado Clóvis Brasil lembra bem da época em que deixava fichas para poder usar o telefone público

Foto: PAULO PIRES/GES

Eles ainda podem ser vistos por quem circula na área central e, mesmo que fora de operação, mantêm certo charme. Porém, esta realidade deve mudar e os orelhões se tornarão espécie em extinção.

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) anunciou que recolherá 38 mil aparelhos que ainda permanecem no território nacional até 2028. Os trabalhos começam neste ano e incluem o Rio Grande do Sul.

Segundo a Anatel, a retirada começa agora porque acabaram, no ano passado, as concessões do serviço de telefonia fixa das cinco empresas responsáveis pelos aparelhos no país.

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A remoção não será imediata, informou a Anatel, mas o anúncio já deu o que falar, já que os saudosistas preferem ver os orelhões onde estão até como uma lembrança de um “doce” passado.

O aposentado Clóvis Brasil, por exemplo, nem se importa que o aparelho instalado em frente à agência do Banco do Brasil, no Centro de Canoas, esteja inoperante. Ele é simpático à imagem da proteção sobre o telefone no gancho.

“Olha, cansei de gastar com fichas”, lembra. “O orelhão era absolutamente necessário, porque a gente usava para tudo. Falar com a mãe, mulher, o patrão. Era solução. Só precisava ser rápido, porque sempre havia fila.”

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Aos 66 anos, Brasil adquiriu, na metade da década de 90, uma linha fixa em casa e, posteriormente, um aparelho celular, mas isso demorou, porque era tudo “muito caro”, conforme o trabalhador.

“Usei orelhão por anos, porque o aparelho celular custava muito e não era sempre que eu estava em casa para ligar. Então, a gente andava com as fichas no bolso e gastava uns bons minutos até dar linha.”

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 Alex Jeffiny em uma das antigas cabines que permanecem instaladas na área central de Canoas | abc+



Alex Jeffiny em uma das antigas cabines que permanecem instaladas na área central de Canoas

Foto: Paulo Pires/GES

Cabines

Segundo dados disponibilizados pela Anatel mostram que mais de 33 mil orelhões estão ativos, enquanto cerca de 4 mil estão em manutenção no Brasil.

Em Canoas, é possível observar até mesmo as antigas “cabines” ao circular por vias do Centro como a Rua Ipiranga e a Rua Muck.

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As cabines eram usadas especialmente por quem queria namorar um pouco à distância, como lembra o analista de marketing Alex Jeffiny.

“Hoje a gurizada passa a noite conversando pelo WhatsApp, mas ir no orelhão e ligar era um jeito que a gente tinha de namorar à distância”, recorda. “Cansei de gastar fichinha namorando quando era guri.”

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Saudoso, o trabalhador de 56 anos brinca que antigamente era melhor, já que, sem redes sociais e a instantaneidade do mundo de hoje, algumas coisas permaneciam bem longe do olha crítico do público.

“Naquela época a comunicação era precária e isso era bom”, afirma. “Viver em uma geração que não tinha redes sociais era uma maravilha. Se a gente passava vergonha, o mundo não ficava sabendo”, se diverte ao lembrar.

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Wagner Moura em um orelhão, imagem que correu o mundo devido à divulgação do sucesso "O Agente Secreto" no exterior | abc+



Wagner Moura em um orelhão, imagem que correu o mundo devido à divulgação do sucesso “O Agente Secreto” no exterior

Foto: REPRODUÇÃO

Sobre o orelhão

Orelhão, oficialmente Telefone de Uso Público (TUP), é o nome dado para protetores de telefones públicos, projetado pela arquiteta e designer sino-brasileira, Chu Ming Silveira. Lançado em 4 de abril de 1972, inicialmente nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo.[2] Hoje, encontram-se orelhões instalados por todo o Brasil, em países da América Latina, como Peru, Colômbia e Paraguai, em países africanos como Angola e Moçambique, na China e em outras partes do mundo.

Facilitavam contatos urgentes, ajudavam a construir histórias, serviam como ponto de encontro e, muitas vezes, eram o único meio de falar com alguém fora de casa. Foi ali, ao ouvir o clássico “chamada a cobrar”, que muita gente esperava ansiosa até cair a ficha — literalmente — para completar a ligação.

O Agente Secreto

Imagens de um popular orelhão giraram o mundo neste começo de ano com o sucesso do filme “O Agente Secreto”, que tem como protagonista o ator Wagner Moura. Isso porque a fotografia mais propagada da produção indicada a quatro Oscars é justamente aquela em que o personagem Marcelo está em um telefone público.

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