O lixo que jogamos fora desaparece só das nossas casas, trabalhos e escolas. Mas todo esse resíduo vai parar em algum lugar. Parece óbvio, mas a consciência sobre o caminho do lixo e a importância da reciclagem ainda precisa aumentar. Principalmente, sobre quem transforma papel, papelão, plástico e resto de construção civil em matéria-prima para algo novo.
Tudo isso só esse possível graças a coletiva seletiva. Em Canoas, o trabalho dos catadores cooperativados está completando 15 anos em 2025. Neste período, foram recolhidos 15 milhões de toneladas de resíduos em toda a cidade.
O marco relembra a Lei nº 5.485 de 2010 que institui o serviço no município. Mas as cooperativas e as histórias dos catadores são muito anteriores a esta regulamentação.
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Foto: Paulo Pires/GES
E ela só existe pela luta e o pelo trabalho diário de pessoas como a Rosângela Pinto Oliveira, 63 anos. “Eu comecei em 2008, lá no lixão. Eram treze mulheres que trabalhavam lá. Como estávamos desempregadas, abriu a oportunidade de trabalhar no lixão e tirar uma renda. Enfrentamos todas as adversidades que se possa imaginar: preconceito, humilhação”, relembra.
“Eu sempre trabalhei nas mesas, pegamos o material da construção civil. Éramos a única cooperativa do Rio Grande do Sul que trabalhava com esse material. Hoje, eu sinto um prazer enorme em ser a pioneira nesse ramo”, destaca.
A recicladora começou na antiga Associação Sol Nascente, hoje Coopersol, que recicla plástico. Com essa oportunidade, Rosângela conseguiu terminar os estudos e ir atrás de uma formação no ensino superior. Hoje, é formada em Administração e tem especialista em Logística. “Eu comecei na cooperativa e não sabia nada. Fui atrás de bolsas, fiz tudo com bolsas. E hoje incentivo as pessoas a estudarem”, completa.
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15 milhões de toneladas em 15 anos
O impacto deste trabalho da Rosângela e de muitos outros cooperados está expresso em números. Nestes 15 anos de contratos, calcula-se que 15.473.934 toneladas de resíduos foram recolhidos pela coleta seletiva em Canoas, deixando de ir para o aterro sanitário. A conta foi feita pela empresa Apoena Socioambiental junto com as cooperativas.
Ao longo deste período, diferentes tipos de resíduos tiveram, e tem, a atenção das cooperativas. Papel, papelão, plásticos, vidros, metais e óleo de cozinha são os mais comuns. No município, ainda existe uma cooperativa que recolhe materiais eletrônicos como computadores, câmeras e celulares, a Coopertec.
Na visão da consultora técnica da Apoena, Ana Carolina Dutra, os cooperados são especialistas em reciclagem e contribuem para a geração de emprego e preservação do meio ambiente. “Além do impacto ambiental, tem a questão econômica. Eles geram emprego e renda, geram trabalho digno que, independentemente da formação, tem um espaço de inclusão. Gera uma economia para poder público que deixa de enviar isso para o aterro sanitário”, ressalta.
Tipos de materiais recolhidos
- Papel e papelão: + 8.245.867 kg
- Plásticos: + 3.271.977 kg
- Vidro: + 3.120.499 kg
- Metais: + 796.079,503 kg
- Plástico: + 3.271.977 kg
- Óleo de cozinha: + 25.515 L
Preservação dos recursos e combate à crise climática
- Energia: foram economizados 39 bilhões de kWh, equivalente a mais de 1 milhão de anos de consumo de uma TV LED ligada;
- Água: economia de 15 bilhões de litros, equivalente a mais de 30 bilhões de garrafinhas de 500 ml;
- Vegetação: 164.917 árvores deixaram de ser cortadas
- Petróleo: economia de 41,5 mil barris;
- Gases de efeito estufa: 3,7 milhões de toneladas de CO2 deixaram de ser emitidos na atmosfera, equivalente a 157 anos de um carro ligado em marcha lenta;
- Espaço em aterro: 5,3 milhões de m² deixaram de ser ocupados nos aterros, equivalente a 5,6 bilhões de rolos de papel higiênico.
Catador é profissão no passado, presente e futuro
“Como eu digo, tenho várias profissões, mas a principal delas é ser recicladora e luto por isso, para ser uma profissão legal. É como qualquer outra, como jornalista, advogado. É uma profissão”, define Rosângela Oliveira.
A história desses trabalhadores e dos espaços de coleta e reciclagem começa nos anos 1970. Naquela época, os catadores que atuavam no aterro da Fazenda Guajuviras de forma precária. Os trabalhadores integram hoje a Cooperativa Renascer, uma das mais antigas da cidade.
Desde então, vem sendo fundadas associações de reciclagem que mais tarde se tornaram cooperativas localizadas nos bairros Guajuviras, Mathias Velho, São Luis, Fátima, Mato Grande e Niterói.
Atualmente, são oito coletivos, formados por centenas de cooperados, que se dividem na coleta seletiva em Canoas. São elas: Cooperativa Amigos e Amigas Solidárias (Cooarlas); Cooperativa de Catadores de Material Reciclável de Canoas (Coopcamate); Cooperativa de Reciclagem – União Faz a Força (Coopermag); Cooperativa Renascer; Cooperativa Mãos Dadas; Cooperativa Mato Grande Canoense (CMGC); Coopersol e Coopertec.
Contratos ajudam, mas é preciso mais
Mas até chegar a prestação deste serviço para a sociedade, foram anos de luta. Os contratos só começaram a ser firmados a partir de 2010 com a Lei nº 12.305/2010, do governo federal que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos; e a Lei nº 5.485/2010, da Prefeitura de Canoas, que instaura o serviço público de coletiva seletiva de resíduos recicláveis.
Neste mesmo ano, a Cooperativa Amigos e Amigas Solidárias (Cooarlas) foi a primeira a assinar o contrato com o município. Desde então, os grupos seguem lutando para a consolidação e valorização da reciclagem.
Para a catadora Rosângela Oliveira, os contratos trouxeram uma visibilidade. “Mas a segurança está um pouco ameaçada porque os contratos são de ano em ano. Eles não têm segurança nisso, tem que renovar de ano em ano. Tem que ir atrás, provar tudo de novo que eles estão ali. Eu acho isso uma injustiça porque as cooperativas estão ajudando o meio ambiente, ajudando as famílias”, opina.
“Está faltando olhar mais para o reciclador, olhar mais, ter respeito e tratar como um profissional como outro qualquer. Com contrato, com incentivo de melhoria”, completa.
Como funciona a coleta seletiva em Canoas
Além do poder público, os moradores de Canoas também precisam reconhecer e colaborador com o trabalho dos recicladores. O recolhimento de resíduos recicláveis acontece na cidade com turno e dia da semana marcado. A Prefeitura de Canoas orienta como esse descarte deve ser feito:
- Aproveite o máximo do conteúdo das embalagens, assim você evita o desperdício.
- Passe apenas um pouquinho de água de reuso nas embalagens antes de descartar: com isto você ajuda a evitar insetos indesejáveis em sua casa, nas lixeiras e nas cooperativas. Também garante mais valor aos resíduos na hora da comercialização, ajudando na renda dos catadores.
- Embale todos os materiais cortantes, com cuidado, evitando acidentes durante o descarte, coleta e triagem. Dica: corte uma garrafa PET ou uma caixa TETRA PACK, coloque o vidro ou outro material cortante dentro e lacre. Assim o conteúdo ficará protegido e evitará acidentes.
- Os papéis devem estar secos.
- Não misture os resíduos da coleta seletiva com resíduos da coleta convencional.
- Acomode os resíduos seletivos em sacos plásticos;
- Veja o dia da coleta em seu bairro e entregue seu resíduo seletivo para os caminhões identificados da coleta seletiva
- Informe a secretaria do Meio Ambiente sobre qualquer irregularidade
Seminário Canoas Recicla com a Gente
As histórias e os impactos das cooperativas de coletiva seletiva foram celebradas na 4ª edição do Seminário Canoas Recicla com a Gente. As reflexões foram feitas na última quarta-feira (10) na Universidade La Salle (Unilasalle), no Centro. O evento contou com a participação das próprias cooperativas e de entidades parceiras.
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