O Plano Local de Ação Climática (Plac) de Canoas está pronto. Possui ações prioritárias, subações e prazos definidos a curto, médio e longo prazo. São medidas que a cidade quer e precisa para ser mais sustentável e cuidar melhor do seu meio ambiente e moradores.
No entanto, este documento de 98 páginas, lançado no mês passado, encontra as limitações financeiras do município para ser posto em prática. Esta é a avaliação da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SMMA), na figura do secretário Guilherme Haygert, em entrevista concedida ao jornal. (Leia a íntegra abaixo).
SIGA O ABC+ NO GOOGLE NOTÍCIAS!

Foto: Nicole Goulart/Especial
O titular da pasta elogiou o plano e quer fazer o que for possível com os recursos disponíveis na cidade, que ainda lida com as consequências da enchente. “São projetos que dá para implementar, que colocam Canoas em outro patamar no mundo, não só no Brasil. São projetos cientificamente comprovados que melhoram a qualidade de vida. A questão é o dinheiro. Não é impossível, mas é um obstáculo muito grande hoje dada a nossa situação”, afirma.
As ações contidas no plano foram pensadas e estudadas pela administração municipal em parceria com a entidade Governos Locais pela Sustentabilidade (Iclei). O documento foi desenvolvido entre maio de 2023 e dezembro de 2024.
Entre as 24 ações, oito deverão ser entregues daqui a dois anos, em 2027, por serem emergenciais. Enquanto que outras 10 possuem como prazo 2030. Na teoria, essas ações são de responsabilidade da gestão atual, mas de acordo com a SMMA será feito o que for possível.
FAÇA PARTE DA COMUNIDADE DO DIÁRIO DE CANOAS NO WHATSAPP
Confira a entrevista
DC: O Plac veio sendo desenvolvido nas últimas gestões e agora caiu neste governo. Como está sendo receber esse plano que também acaba sendo uma responsabilidade dessa gestão?
Secretário Guilherme Haygert: O Plac, que é um Plano de Ação Climática de Canoas, em que pese tenha começado em um determinado governo, é um plano para a cidade. É um plano que não vai se implementado em um ano ou a curto prazo. Só vai ser um plano que vai de fato ter alguma função e utilidade se for um compromisso da cidade, independentemente do governo.
Tivemos essa preocupação de não carimbar ‘esse é um plano de um governo x’. Fizemos toda a questão de fazer o lançamento dele e nunca dizer que nós começamos ou que fulano começou. É um plano que cada secretário que sentar aqui na Secretaria do Meio Ambiente, cada prefeito que sentar na cadeira da Prefeitura, vai ter o compromisso de continuidade.
Eu vou fazer todo o possível para cumprir as metas que cabem no período, o próximo governo tem que cumprir o que cabe no período dele e assim vai indo. Ele é um plano que nunca pode morrer, independentemente de quem estiver governo. É um plano de Canoas. Não pode ter partido.
O meio ambiente é importante e é uma responsabilidade nossa com as gerações futuras. É uma obrigação nossa e um compromisso nosso deixar um mundo melhor para quem vem depois. Se tivermos essa mentalidade, vamos ter sucesso no que o plano prevê. Essa é a preocupação: que seja um plano executado por todos.
DC: Então, o senhor garante que vai ser colocado em prática?
Haygert: Sim. Ele já está sendo colocado em prática. Os projetos que temos aqui na Secretaria do Meio Ambiente a todo momento fazem referência ao plano. Sempre tentamos adequar os nossos projetos. ‘Ah, qual é a meta do Plac? É reduzir em tanto a emissão’, então tem que tentar olhar para isso e cumprir metas. Ele é um norte, eu penso assim, de curto, médio e longo prazo.
DC: Todo o governo tem ciência desse plano e vai estar trabalhando para colocar ele em prática?
Haygert: Sim. É uma meta do governo tentar colocar, cumprir as metas previstas nele dentro do nosso período. Tem metas para daqui a 20 anos, mas aquelas a curto prazo é uma responsabilidade nossa, de quem está aqui agora. Cada um tem que fazer o papel. Lógico que se eu já puder cumprir as metas de médio prazo agora, é sucesso absoluto. A nossa meta é tentar trazê-las para agora.
DC: As discussões que foram trazidas no plano e as ações abarcam toda a necessidade da cidade ou tem alguma coisa que acha que ficou de fora?
Haygert: Não. O plano foi muito bem feito e tem um rigor científico. Não é um plano feito por bonito. Foi utilizado método, ciência. Realmente é que um guia que se for seguido vai dar certo. É um plano para colocar embaixo do braço e implementar.
Tem que dar o crédito a quem teve a iniciativa a quem deu continuidade e a quem finalizou. Um governo lá trás iniciou, outro deu continuidade e esse governo deu finalização ao plano. É hora de implementar. E de certa forma é uma honra para nós ter caído nessa época para ser implementado. De fato, para mim é uma honra poder assinar ele como entrega.
DC: Sobre as ações que são de responsabilidade da Secretaria de Meio Ambiente, se pudesse ranquear, quais ações acha que são as mais importantes?
Haygert: Acho que a mais importante é a descarbonização da economia. Quando se coloca ‘vamos descarbonizar a economia, vamos reduzir ou neutralizar as emissões dos gases de efeito estufa’, requer um desenvolvimento com um todo, um desenvolvimento sustentável. Ou seja, tem que investir em mais plantio de árvores e para isso nós finalizamos um plano de arborização de Canoas.
Esse plano mapeou todas as árvores do município e tem um plano de plantio: em tal lugar, devido às suas características, qual é a árvore que tem que ser plantada ali, o tipo de árvore. Vou dar um exemplo básico, que é um problema que acontece. Quando eu vou arborizar uma rua, eu tenho que pensar toda ela até no fio de luz. Não pode ser uma árvore que vai tocar no fio de luz. Se é uma área que alaga mais, não posso plantar uma árvore que vai morrer no primeiro alagamento. Tudo isso foi pensando.
Se eu implementar esse plano de arborização 100% dele, vamos conseguir cumprir metas de descarbonização. E árvore é o quê? É uma cidade mais bonita, menos quente.
Se conseguimos cumprir com essa arborização, cumprimos com o plano de ação climática. Uma cidade mais bonita atrai mais moradores. Atraindo mais moradores, atrai mais empresas e mais empregos. É um ciclo virtuoso. Com certeza a descarbonização é um norte. Não por descarbonizar em si, mas como vamos chegar até lá. Se eu fosse eleger, as mais importantes são as metas de descarbonização.

Foto: Paulo Pires/GES
DC: E essas metas, o município vai conseguir reduzir? Quais que já estão em andamento, por exemplo?
Haygert: Hoje, nós temos uma grande dificuldade que está sendo o desastre que aconteceu. O governo que assume agora tem, principalmente, a função de entregar as obras de diques para que não aconteça de novo. A preocupação primeira é restabelecer aquilo que já existia. Ou seja, não estamos começando do zero, estamos começando do -10. Tudo que nós fizemos, vamos entregar o que já existia melhorado.
A partir dali, vamos começar o jogo de somar mais, digamos assim. Claro que, em paralelo, vamos fazer outras coisas. O porém é que as obras e a saúde estão drenando uma enormidade de recursos. Então, a cidade se viu com uma dívida enorme. Isso atrapalha todos os outros projetos e a capacidade de investimento.
Eu gostaria de ter a cidade toda arborizada, todo o plano implementado. Só que somente o plano de drenagem sustentável custa, em média, R$ 80 milhões para toda a cidade. O que é prioridade agora: fazer plantio ou a obra do dique? Todo mundo vai na obra do dique, é unânime. Esse é o porém, as obras de reconstrução estão drenando os recursos.
Esse é um problema posto e quem está aqui tem que ter criatividade e inovação. Não podemos ficar esperando. Tenta fazer parcerias, tentar usar os Termos de Compensação Vegetal para criar projeto para implementar.
Ou seja, vai ser implementado alguma coisa, não vai ser 100%, mas um 10%, 15% nós vamos fazer. Só não pode ficar parado, tem que ir fazendo. É difícil implementar 100% tudo que nós queremos por conta de recursos financeiros. Isso é uma realidade hoje em Canoas.
DC: E esses projetos sobre tornar a cidade mais sustentável, quais são eles? Já estão em andamento?
Haygert: A drenagem urbana sustentável. O que é isso? É todo um conjunto de medidas sustentáveis para drenar a cidade. O que acontece hoje e por que alaga muito? Porque é muito cimento, muito asfalto, então a rua empoça. Estão entupidos e assoreados todo o sistema de drenagem e é isso que está ocasionando.
A drenagem urbana seria replanejar todas as ruas, as principais, quais que alagam. E qual é a solução de meio ambiente para a drenagem não só focado em engenharia, que é cimento, ai entra toda a parte de drenagem sustentável. Plantio de árvore, fazer valas verdes, jardins lineares. Isso é tudo é terra, grama, absorve mais a água do que o cimento – que não absorve nada.
Tem o asfalto sustentável, que não acumula água, ele drena. Mas não pode ser em qualquer rua. Se é uma rua muito movimentada, o asfalto esburaca. Então, tem que ser em ruas menos movimentadas. E temos ruas bem residenciais que é tranquilo. Colocar em uma BR não vai funcionar.
E o custo dele é de R$ 80 milhões para implementar todo o plano. Estamos com movimento para falar com um banco de fomento para movimentar isso. Qual é vantagem? Além de fazer a drenagem, fica uma cidade muito mais bonita. Dar uma reduzida no asfalto, no cimento, e ter mais áreas de escape verdes. Isso tudo ajuda.
Se for implementado 100%, com todos os recursos, provavelmente, conseguiríamos sanar problemas de alagamento em muitos pontos.
DC: No início do ano teve um plantio no Rio Branco. A ideia era recuperar as áreas que foram afetadas pela enchente. Isso continua?
Haygert: O plano de plantio continua. A diferença é que quando você tem um plano de arborização mais detalhado, consegue ser mais eficiente.
Teve um caso no passado, em Canoas, que foram plantadas determinados tipos de árvores porque eram muito bonitas. Todas morreram quase porque o solo não era adequado para isso. Não é plantar qualquer coisa, então precisa ter um para isso e ser mais eficiente. Se não daqui a pouco planta mil árvores, 500 ao longo do tempo vão morrer, outras 100 vão causar problema na rede elétrica e vão ter que ser podadas. O ideal é plantar mil e que as mil fiquem e gerem outras várias. Para isso serve o plano.
E o que eu quero dizer também com ser eficaz é que vamos plantar sempre focado nos pontos de calor da cidade, onde é mais feia, menos arborizada. E ai vamos escolher qual é a árvore ideal, que dê mais sombra, que vai neutralizar mais gases de efeito estufa, por exemplo. Tudo isso é analisado. A nossa ideia é plantar de forma eficiente. E, dentro do possível, não só plantar, mas deixar bonito o lugar.
Um exemplo, que ia ser implementado neste ano, mas infelizmente não pode e tinha verba, eram os jardins verticais nos nossos viadutos. Ao invés de ter um pilar cinza pichado, é um pilar com jardim vertical. Quanto mais bonito deixar determinadas regiões, mas valoriza o espaço, mais as pessoas vão cuidar também.

Foto: Paulo Pires/GES
DC: Voltando na questão de descarbonização. Indústria e transporte são as áreas que mais estão emitindo gás carbônico. Quais dessas áreas o município tem mais espaço para interferir?
Haygert: Existem duas formas de neutralizar emissões de carbono. Uma das formas é por meio de crédito de carbono. Estamos tendo estudos e uma ideia de como podemos usar crédito de carbono aqui na cidade para tornar Canoas carbono neutro. Isso é um forma e está sendo estudado.
A outra forma é por meio de incentivos às indústrias. Também estamos estudando formas de como podemos incentivar economicamente empresas para investirem em mudar sua matriz energética, por exemplo. O maior obstáculo é o financeiro. Tem várias ideias que dá para concretizar que se tivesse o dinheiro em cinco, seis meses estaria implementado.
A outra ideia é uma fazenda de usina fotovoltaica que está sendo estudada. Eu mesmo estou fazendo esse projeto. O seu conceito já está finalizado. E o obstáculo é o recurso financeiro. Para fazer uma usina de energia fotovoltaica que supriria toda a energia necessária para o município de Canoas, para tornar a energia 100% sustentável, custaria um investimento de mais ou menos R$ 220 milhões. Isso tornaria Canoas a primeira cidade do Brasil 100% com energia sustentável.
O próximo passo é como vamos fazer isso. Cheguei nesse número porque fiz o estudo. O passo que estou tendo fazer junto com o governo é como viabilizamos isso, de que forma. Será que dá para fazer uma concessão? Será tem que algum financiamento em banco de fomento? É essa parte financeira que estamos tentando fechar a conta.
Isso gera uma economia mensal enorme. O município gasta hoje entre R$ 1 milhão e R$ 1,5 milhão de energia elétrica. Essa conta reduziria até 90% se tivesse uma fazenda fotovoltaica. É questão de investimento.
LEIA TAMBÉM: Resíduos da enchente continuam entulhados no Parque Industrial Jorge Lanner
DC: O sobre a redução de resíduos, o que pode comentar a respeito?
Haygert: A redução de resíduos é um problema do mundo inteiro. Cada vez mais tem mais resíduos. Cada vez mais o alimento tem mais embalagem. Como vamos reduzir os resíduos? Como vamos convencer 350 mil canoenses a reduzir resíduos?
De que forma nós vamos enfrentar os resíduos já existentes? Isso é outra. Tem solução que daria para implementar rapidamente, mas o obstáculo é recurso.
Eu tenho uma despesa mensal, é um recurso enorme para transportar resíduos daqui para o aterro. É um gasto enorme. Não é investimento porque eu tenho que tirar e levar para um lugar que vai fazer o tratamento correto.
E também não só os resíduos gerados nas residências, também é aquele gerado em poda de árvores. São 2 mil toneladas mês só de galho. São todos os resíduos que veio da enchente, que são 80 mil toneladas, fora os resíduos volumosos, da construção civil etc.
Estamos fazendo um amplo estudo agora e o prefeito quer resolver de uma vez por todas os resíduos de Canoas. Se vai ser uma concessão, igual Porto Alegre, ou se vai ser outro caminho, está sendo estudado. Nunca é uma solução fácil.