Passados 20 dias desde que entraram em um antigo prédio desativado da Previdência Social, em Canoas, os Caingangues começam a reforçar a estrutura da “retomada” proposta quando chegaram na área.

Foto: Paulo Pires/GES
Hoje, os indígenas sediados no prédio contam, mesmo que improvisadamente, com água e também com energia elétrica, necessárias até pela presença de dez crianças que permanecem com a tribo.
Conforme o cacique Dorvalino Cardoso, o tempo foi passando e soluções surgiram. A água acabou garantida por meio de um caminhão-pipa que abasteceu um tanque. Já a energia foi cedida por um vizinho simpático à causa.
Dorvalino aponta que a simpatia da comunidade que vive e trabalha em torno do prédio é grande, já que o terreno em questão servia apenas para acumular lixo e animais mortos nos últimos anos.
“Eles gostam porque sabem que nada de mau está acontecendo”, explica. “Estamos ajeitando este lugar aos pouquinhos para criar nossa reserva. Só é um processo lento, mas vamos conseguir.”
E até como forma de retribuir o acolhimento, Dorvalino avisa que o líder espiritual Pedro Garcia preparará um ritual de “limpeza”, necessário para afastar o mau-olhado da área.
“É preciso deixar o tempo firmar primeiro, mas queremos organizar uma cerimônia para limpar o terreno. Será aberta à comunidade, então qualquer pessoa poderá participar. Faz bem para todos”, afirma.
Segundo o pajé, a cerimônia com canto, ervas e fumaça para afastar energias negativas faz parte do processo de retomada.
“Preciso que o tempo firme para coletar as ervas, aqui mesmo, na vegetação local”, esclarece. “Mas vamos fazer uma coisa bonita para afastar a energia ruim.”
Goteiras
Embora com estrutura melhor, os Caingangues buscam adequar o espaço às necessidades. Um problema surgido com a chegada da chuva diz respeito aos buracos no teto do prédio da Previdência.
Já durante a primeira chuva, foi possível perceber o problema. Graças à doação de lona, o problema foi solucionado, mas não por muito tempo, já que a água voltou a cair do teto devido à quantidade de chuva.
“Estamos em busca de doações de telhas para consertar o telhado, porque só com a lona não dá para ficar. Molha do mesmo jeito”, explica Dorvalino. “É ruim também por causa das crianças.”

Foto: Paulo Pires/GES
Retomada
Foi no dia 6 de maio que um grupo formado pelas etnias Caingangues e Xokleng ocupou um imóvel em frente ao número 3.010 da Avenida Santos Ferreira.
Quem acompanha a “retomada” em Canoas é Moisés Lompa, conhecido na Funai do Rio Grande do Sul por atuar como interlocutor entre os direitos dos povos indígenas e as autoridades do Governo.
À reportagem ele informou que por se tratar de um antigo prédio do Governo Federal em situação de abandono, o processo de retomada é avaliado como seguro.
“Canoas não tem uma reserva adequada destinada à população indígena”, frisa. “Embora a cidade conviva com indígenas há anos.”
O processo, no entanto, é moroso.
“Isso deve levar mais de um ano para que se garanta alguma movimentação”, avalia. “Nós vamos acompanhando a situação enquanto isso.”