A notícia da morte de Jimmy Cliff, aos 81 anos, anunciada na segunda-feira (24), mobilizou fãs ao redor do mundo e reabriu lembranças de uma passagem pouco conhecida do ícone do reggae pelo Vale do Sinos. Em 1997, o artista viveu uma semana de ensaios em Novo Hamburgo, num episódio que marcaria de forma definitiva a trajetória de músicos locais.

Foto: Divulgação
Naquele ano, Cliff estava escalado como uma das principais atrações do Hartz Festival, evento que seria realizado em Nova Hartz entre 18 e 21 de dezembro, com programação que incluía música, camping e esportes radicais. O festival acabou não acontecendo como previsto, mas, antes disso, o cantor e sua equipe passaram dias instalados no Hotel Suarez Executive, em Novo Hamburgo, e precisavam de um local para ensaiar. Foi então que o Estúdio Em Pauta, no bairro Primavera, entrou na história.
“Achamos que era zoeira”
O convite para receber a equipe do astro chegou quase por acaso. O gerente do hotel na época, que era aluno do músico Luis Fernando de Souza, o Cegonha, indicou o estúdio quando a produção do artista pediu sugestões de um local para ensaios. “Quando ele ligou dizendo que alguém do Jimmy Cliff iria entrar em contato, achamos que era zoeira. ‘Deve ser uma banda cover!’, pensamos”, relembra Cegonha. A dúvida só acabou quando a equipe do cantor apareceu para inspecionar o espaço e os equipamentos.
A partir dali, começou o que os músicos locais passaram a chamar de “reggae week”: três dias de ensaios intensos, com a banda, os produtores e, no último dia, a presença de Jimmy Cliff e de sua filha, Nabiyah Be, então com cerca de cinco anos.
A movimentação logo se espalhou pelo bairro. “A Rua Oswaldo Cruz parou”, recorda Cegonha. Fãs, curiosos, polícia e seguranças se aglomeraram diante do estúdio. Em meio ao tumulto, o próprio Cegonha acabou barrado ao tentar voltar de uma aula externa. “Demorei para convencer o guarda de que eu era o dono da escola.”
Enquanto a banda tocava na sala principal, músicos do Em Pauta ajudavam a entreter a pequena Nabiyah, enquanto ouviam, “embasbacados”, o som vindo da sala ao lado. Nos intervalos, Cliff conversava com o grupo, alternando frases em inglês e português, e chegou a autografar um CD da então nascente banda local, item que ninguém sabe onde foi parar.
A conversa seria decisiva. Cerca de seis meses depois, Cegonha estrearia a Banda Kid Cegonha, projeto que ele associa diretamente àquela vivência. “Foi uma conversa profética. Ali na nossa frente, com sua filha no colo, vimos uma figura simpática e amável, de uma simplicidade que contrastava com o seu tamanho enquanto artista e cantor”, resume.
A noite nas Bancas
Quando os ensaios finalmente terminaram, já tarde da noite, veio a pergunta inevitável: onde comer? Sem muita reflexão, Cegonha conduziu o comboio até as tradicionais Bancas de Novo Hamburgo, ponto de encontro popular até hoje.
Ali, Jimmy Cliff circulou, deu autógrafos e ainda pagou o lanche de quem estava por perto. Nenhuma imagem daquele momento existe. Isso porque a produção havia proibido registros, e a tecnologia da época não colaborava — estamos falando de 1997. Mas o episódio acabou se transformando em uma das histórias mais contadas por quem viveu aquele dezembro.
Nos ensaios, algumas fotos dos integrantes da banda foram feitas na área externa do estúdio, ao lado de moradores que passaram pela rua. A maioria delas, porém, se perdeu com o tempo.
Hartz Festival

Foto: Redes Sociais
O festival em Nova Hartz, conforme o cartaz oficial de 1997, teria atrações como É o Tchan, Olodum, Cidade Negra, Cidadão Quem, Gabriel o Pensador, Elba Ramalho, Alceu Valença e o próprio Jimmy Cliff. Morador de Sapiranga, Paulo Fassbinder esteve no festival e guarda até hoje na memória uma experiência que misturou expectativa, poeira, shows incompletos e uma logística que colocou à prova quem resolveu subir o morro em Nova Hartz naquela semana de dezembro.
“Teve pouco público na primeira noite, e já começaram a faltar recursos para pagar os artistas nas outras”, recorda. A abertura ocorreu numa quinta-feira, com apresentações de Gabriel o Pensador e É o Tchan. “Estava tudo muito empoeirado, o local havia sido patrolado, e o vento só piorava a situação. E não tinha muita gente”, conta.
A organização, segundo ele, chegou a distribuir ingressos gratuitos para quem participou da primeira noite, numa tentativa de aumentar o público da sexta-feira. Ele aceitou o convite e voltou. “Mas foi ainda mais vazio. E não teve show nenhum, exceto o Olodum, que subiu no palco na madrugada.”
O grupo baiano, segundo Fassbinder, decidiu se apresentar para não deixar o público sem nenhuma atração, apesar das dificuldades. “Depois do Olodum, teria o show do Jimmy Cliff. Mas ninguém tocou. Se não paga, não tem show.”
Mas Jimmy Cliff esteve lá

Foto: Paulo Fassbinder/Arquivo Pessoal
O sonho de ver o ícone do reggae no palco se concretizou para aqueles que acreditaram no festival desde a primeira noite. Sem se apresentar na sexta-feira, Jimmy Cliff esteve no local na quinta-feira e chegou a subir ao palco rapidamente, convidado por Gabriel o Pensador, mas apenas , mas o show não aconteceu.”
Além dos cancelamentos, a logística também foi parte da aventura. O acesso ao local era feito por ônibus que partiam da rodoviária de Nova Hartz até o ponto do evento, no alto do morro. “O problema é que o ônibus só voltava às seis da manhã”, conta. “Na sexta, eu cheguei em casa, tomei banho e fui direto trabalhar. Era o último dia na empresa”.
Apesar da expectativa de 100 mil pessoas nos quatro dias de festival, inclusive com venda de câmeras fotográficas descartáveis no local, o Hartz Festival não deu certo. O público ficou muito abaixo da expectativa, e no sábado, já não havia mais programação. “Foi uma pena. Acho que erraram na data e na divulgação. Dezembro já tinha formaturas, festas de fim de ano, muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.”
A edição acabou cancelada, mas a passagem do astro pelo Vale do Sinos ganhou contornos quase lendários entre músicos e moradores que tiveram a sorte de encontrá-lo na região.
Essa, contudo, não foi a única vez de Cliff em Novo Hamburgo. Quatro anos antes, o músico jamaicano se apresentou na Fenac, em 1993. A turnê também passou por Lajeado, na Expovale, além de outras cidades gaúchas, como Pelotas e Ijuí.