Após enfrentar dois cânceres e receber um prognóstico desolador, a moradora de Novo Hamburgo Doralice Salton Schneider, de 71 anos, deparou-se com dificuldades para conseguir o medicamento considerado essencial para o tratamento. A idosa afirma que, diante de entraves burocráticos e da falta de encaminhamento claro entre diferentes serviços de saúde da região, precisou recorrer à Itália para garantir a medicação.
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Foto: Arquivo pessoal
A luta de Doralice começou em 2017, quando ela foi diagnosticada com um tumor no fígado. Na época, conforme relata, um médico do Serviço de Atendimento Especializado (SAE) de Novo Hamburgo afirmou que não havia possibilidade de cura e estimou que ela teria até dois anos e meio de vida.
O tratamento dependia do uso contínuo do remédio Entecavir 0,5 mg, utilizado para controle da hepatite B e redução da progressão do câncer de fígado. No entanto, Doralice afirma que enfrentava dificuldades frequentes para obter a medicação devido à falta de médicos disponíveis para validar os exames e renovar as prescrições.
“Sempre que eu fazia os exames, eu tinha que levar ao SAE para que o médico liberasse a medicação, mas não tinha médicos e, quando contratavam outro, este não aceitava os exames que eu tinha feito, dava nova requisição, eu fazia os exames e, chegando na clínica, não havia nenhum médico de novo…”, relata a paciente.
Ela conta que essa realidade perdurou de 2017 a 2019, quando foi encorajada por familiares a buscar tratamento na Itália, onde moram. “Aqui teria cura. Como eu estava com muita dor, arrisquei, comprei passagens aéreas e viajei. Na época, eu precisei ficar seis meses para conseguir a cura, mas eu preciso da medicação até hoje”, relata.
Porém, em 2025, enfrentou um novo desafio: mais um diagnóstico de câncer, dessa vez no esôfago. Segundo a idosa, o controle anterior da condição hepática foi essencial para que pudesse realizar sessões de quimioterapia.
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Durante parte do ano, o fornecimento do medicamento foi viabilizado após solicitação médica da Itália encaminhada à oncologia do Hospital Bom Jesus, de Taquara. Porém, após seis meses, Doralice passou a enfrentar um impasse entre a oncologia e os serviços de saúde municipais de Novo Hamburgo, sem conseguir renovar o acesso ao remédio.
Sem solução, ela retornou à Itália em abril deste ano. Segundo ela, em apenas um dia após consulta médica no país europeu, conseguiu acesso ao tratamento novamente.
Ainda assim, a paciente luta pelo acesso ao medicamento no Brasil, para evitar o desgaste e gastos financeiros da viagem longa, além do afastamento da família nos períodos em que passa em tratamento.
O que dizem os órgãos de saúde
O Hospital Bom Jesus informou que o Entecavir não é fornecido pela Unidade de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon). Segundo a instituição, a medicação é de responsabilidade da rede municipal de saúde do município de origem do paciente, por meio da Vigilância Sanitária.
Já a Prefeitura de Novo Hamburgo declarou que o medicamento está disponível normalmente na Unidade de Dispensação de Medicamentos (UDM) e que não houve interrupção recente no fornecimento. Segundo o município, para retirada é necessário apresentar documento de identificação e formulário específico preenchido, assinado e carimbado por médico com registro válido no Brasil.
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Em nota enviada à reportagem, a prefeitura também afirmou que “nos casos em que o usuário necessita de acompanhamento pelo SUS, a Hepatite B (enfermidade para a qual a utilização do medicamento é recomendada) é um agravo atendido no Serviço de Atendimento Especializado (SAE) do Município, que dispõe de equipe e estrutura adequadas para o manejo clínico”.