Depois de um período turbulento e de muitas reflexões, o humorista Cris Pereira volta aos palcos neste domingo (19) com o espetáculo Cris Pereira 30 Anos, no Teatro Feevale, em Novo Hamburgo. A apresentação, que celebra três décadas de trajetória artística, ganha um significado especial por representar um recomeço na cidade onde ele nasceu e iniciou sua carreira.

Foto: Maiara Paganotto/Divulgação
“Esse show já seria especial. Não tem como eu comemorar 30 anos de carreira e não passar pela minha cidade natal, que eu cito nas minhas histórias. Mas ele acontecendo depois de uma situação tão desagradável, que nos faz refletir sobre tudo, me fez reconfigurar a cabeça, os sentimentos, os conceitos”, contou o humorista, em entrevista ao Jornal NH/ABCmais.
Cris diz que a resiliência tem sido o combustível para essa nova fase. “Coincidentemente eu voltarei aos palcos depois dessa situação desagradável, na minha cidade. Para mim, é um recomeço. Vi que estou sendo extremamente acolhido pelas pessoas, tanto que os ingressos estão quase esgotados”, relata.
“O fato de as pessoas não terem devolvido os ingressos mostra muito. Esse show mostrará que minha carreira não foi destruída, que o Cris Pereira continua em pé, na decência, na consciência e na inocência para seguir fazendo o que eu sei fazer, que é fazer as pessoas rirem”, acrescenta.
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Gratidão e reencontro com o público
Antes de dar vida aos personagens que marcaram sua trajetória, Cris vai subir ao palco “de cara limpa”, para conversar diretamente com o público. “Excepcionalmente nesse show, vou entrar antes dos personagens para bater um papo com as pessoas. Não é relembrar nada, não é me desculpar, porque não tenho pelo que pedir desculpas, mas é agradecer”, explica.
“Imaginar essa cena já me toca bastante. É ver que as pessoas não foram atrás da manchete, mas da história. Foram atrás da verdade. Estou de peito aberto e cabeça erguida, pronto para essa retomada.”
Segundo ele, esse primeiro momento será o mais emocionante da noite. “O momento ‘cara limpa’ será difícil porque serei eu, o Cristiano Pereira. Os personagens não passaram por dificuldades, eles seguem as vidas e os roteiros deles. O momento Cris será muito marcante, mas depois tenho certeza de que as pessoas irão se divertir muito com os personagens.”

Foto: Maiara Paganotto/Divulgação
Três décadas de palco, humor e personagens marcantes
O espetáculo Cris Pereira 30 Anos é uma espécie de antologia cômica — um “The Best Of” de personagens que o tornaram conhecido no palco, rádio e televisão. O humorista promete revisitar momentos de Jorge da Borracharia, Gaudêncio e Pedreiro Dinei, mesclando momentos clássicos e novidades.
“O Jorge me levou para as redes sociais; eu sou o tiozão do palco que foi para a internet. O Gaudêncio agrada todo mundo, fala de tudo, é o tiozão do interior que resgata laços familiares. E o Dinei é a grande novidade, a cereja do bolo. É incrível a aceitação dele, tanto que são os três que passam pela Praça É Nossa”, comenta.
Cris explica que seus personagens nascem de pessoas reais, observadas no cotidiano. “O Jorge vem daquele estereótipo de borracheiro machão, com pôster na parede, mas que por trás é um cara sensível. O Gaudêncio é inspirado em vários tios e amigos, inclusive meu pai, que é muito Gaudêncio. E o Dinei surgiu de uma relação real com um pedreiro, aquela convivência que vira quase um casamento”, ri.
Para ele, a criação de personagens precisa ser orgânica: “Eles nascem naturalmente, de um brilho, de uma paixão. E acabo testando nas redes sociais antes de levá-los ao palco.”

Foto: Maiara Paganotto/Divulgação
Surgimento no teatro infantil
Antes da fama nacional, Cris Pereira já acumulava experiência no teatro e no cinema. Ele começou no grupo Teatro Luz & Cena, fundado por sua família em Novo Hamburgo. “Comecei com o teatro infantil, e foi ele que me deu esse improviso, de conversar com a plateia. Devo muito ao Luz & Cena, em especial à Elisa Machado. Apesar de acompanhar meu pai, o Lourival Pereira, desde criança, quem me colocou no palco foi a Elisa”, recorda.
Cris também participou de festivais, séries e filmes como “O Tempo e o Vento”, além de trabalhos em rádio e televisão. “Sou ator antes de tudo, mas o palco é a minha paixão”, afirma.
Reencontros com personagens
Após o show especial deste domingo, Cris Pereira já mira 2026 com novas ideias. O humorista planeja o retorno de Jorge da Borracharia às redes sociais prometendo revisitar as histórias e reflexões do borracheiro que se tornou quase um terapeuta de seus clientes.
“A ideia é mostrar o Jorge quase 50tão, com novas vivências, relacionamentos e histórias. Até hoje as pessoas me chamam de Jorge, tanto que meu show solo se chama Meu nome não é Jorge”, comenta o artista.
Nenhum dos personagens, porém, está aposentado. Segundo Cris, todos vivem “um retiro”, mas devem voltar aos poucos aos palcos e às redes. Entre os planos, estão o retorno de Claudiovaldo Nogueira, o diretor artístico dos flanelinhas, e Rodson dos Anjos, o radialista egocêntrico e feio — muito feio.
“Temos o sonho de fazer uma temporada reunindo todos, incluindo a Virgínia Istar Uars, o Kirilove e o Dinei”, adianta. Gaudêncio também deve ganhar um novo projeto em 2026.

Foto: Maiara Paganotto/Divulgação
Entre as novas ideias, Cris revela que pretende criar uma espécie de “Jorge Contrário”. “O Jorge é um cara que não dá pinta, mas é. Eu queria fazer o oposto: alguém que dá pinta, mas não é. Fiz uma vez uma brincadeira com esse personagem e o público gostou muito”, conta.
Os bastidores dos bordões
Os bordões são a essência dos personagens. Marcas registradas que muitas surgem de improvisos. “Quando crio os personagens, já penso em uma fala engraçada para testar com o público. Às vezes, digo algo aleatório e as pessoas gostam ainda mais”, diz.
O “gosto, gosto, gosto” de Jorge da Borracharia, por exemplo, nasceu de uma fala meio gaguejada. Já o Gaudêncio popularizou bordões como “tá loco” e “rapaz do céu” que virou “Alberto do céu” na Praça é Nossa. O Dinei, por sua vez, usa frases como “meu pai do céu” e observações improvisadas, do tipo “se não dá pra confiar nas pessoas, imagina nos muros”.
Inspirações e propósito
Questionado sobre quem é o seu “Cris Pereira”. Ou seja, alguém que o inspira e o faz rir mesmo em tempos difíceis, o humorista é enfático: “A minha família é o meu centro. Mas artisticamente, o meu ‘Cris Pereira’ se chama Roberto Gómez Bolaños. Chaves e Chapolin me divertem com a pureza deles. Tenho uma referência de Chico Anysio na criação de personagens, mas o Bolaños é quem me leva para os meus 7 anos. É um humor puro, de família, que eu gosto muito.”
O artista lembra que também recebe mensagens de pessoas que se sentem tocadas pelo humor que produz. “Teve uma mulher em fase final de câncer que pediu para assistir a um show meu e foi, com enfermeiro e tudo. Depois disse: ‘agora eu posso ir em paz’. Eu acho que curo as pessoas porque elas veem verdade no palco”, relata.
E é justamente essa verdade, diz ele, que vai conduzir o espetáculo deste domingo. “Por isso quero falar antes do show, para que toda essa emoção seja extravasada. Depois, o palco será o lugar da celebração, da arte e da vida.”
Condenação
No dia 25 de setembro, Cris Pereira foi condenado a 18 anos e quatro meses de prisão por estupro de uma criança. O humorista nega a acusação. O processo tramita sob sigilo.
Serviço
Show: Cris Pereira – 30 anos
Data: Domingo, 19 de outubro
Horário: 18h
Local: Teatro Feevale – Novo Hamburgo
Ingressos: ocrispereira.com
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