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RECOMEÇO NO RS

Dois anos após as enchentes, milhares de famílias na região ainda dependem de aluguel social

Famílias atingidas pelas enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 seguem sem moradia definitiva e dependem de benefício

Dário Gonçalves
Publicado em: 01/05/2026 às 16h:01 Última atualização: 01/05/2026 às 17h:21
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Neste final de semana, o calendário marca dois anos desde os dias em que as águas trouxeram devastação ao Rio Grande do Sul. Não há o que celebrar.

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O que se registra é a memória de um período em que, nos primeiros dias de maio de 2024, milhares de famílias tiveram que deixar suas casas — muitos deles resgatados às pressas — para nunca mais voltar. As enchentes destruíram lares, bens, memórias e vidas, deixando marcas que atravessam o tempo.

Porta-retratos vazios nas paredes representam as memórias perdidas na enchente de 2024 | abc+



Porta-retratos vazios nas paredes representam as memórias perdidas na enchente de 2024

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial

Dois anos depois, a tragédia segue presente na rotina de quem ainda não conseguiu se reerguer. Entre reconstruções lentas, obras em andamento e promessas que ainda buscam se concretizar, há famílias que continuam sem um lugar que possam chamar de lar.

Para elas, o que deveria ser provisório se estendeu, e a espera por uma solução definitiva transformou-se em uma incerteza que persiste — mesmo com o passar dos anos.

O programa é destinado a famílias que viviam em áreas atingidas pela mancha de inundação de maio de 2024 e que tiveram perda total da moradia, sem possibilidade de reconstrução no local, conforme avaliação técnica.

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Na região, essa realidade se traduz em números que ainda impressionam. Somente em Novo Hamburgo e São Leopoldo, ao menos 1.090 famílias seguem dependentes do aluguel social — 339 no primeiro município e 751 no segundo — enquanto aguardam uma solução definitiva de moradia.

Com a inclusão de Canoas, que também concentra um dos maiores contingentes de atingidos, esse total deve crescer ainda mais, reforçando a dimensão de uma reconstrução que, dois anos depois, permanece incompleta.

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Principais cidades

Em São Leopoldo, 751 famílias seguem recebendo o aluguel social em razão dos impactos das enchentes de 2024. Em dois anos, outras 421 famílias deixaram o programa, em um processo gradual de transição para outras formas de atendimento habitacional ou retomada da autonomia.

O benefício pago é de R$ 970,02, com custo mensal aproximado de R$ 950 mil para o município. Desde 2024, os investimentos na modalidade somam R$ 5,9 milhões em recursos livres e R$ 6,5 milhões em repasses estaduais.

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A permanência no benefício é revisada mensalmente, com checagem de documentação, recibos de aluguel e visitas técnicas. O prazo inicial é de seis meses, podendo ser prorrogado conforme disponibilidade orçamentária.

No pós-enchente, o município afirma ter priorizado soluções de reassentamento, como o programa Compra Assistida, que já viabilizou 516 moradias definitivas.

Além dele, São Leopoldo também trabalha com unidades do Fundo de Arrendamento Residencial (FAR), enquanto aguarda a execução de novos empreendimentos habitacionais, como as 800 unidades previstas em portaria federal. Segundo a administração, a conclusão das obras em andamento é apontada como etapa central para reduzir o número de famílias no aluguel social.

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Procurada, a prefeitura de Canoas não respondeu aos questionamentos. Apenas disse que 1.339 famílias recebem ou receberam o benefício. “O investimento no pagamento do benefício neste mês foi de R$ 413.200,00, sendo R$ 55.500,00 custeados pelo município e R$ 357.700,00 provenientes de recursos do Governo do Estado”, limitou-se à nota.

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Novo Hamburgo

Em Novo Hamburgo, 339 famílias ainda permanecem no aluguel social, recebendo R$ 820,52 mensais. O município também contabiliza 43 famílias atendidas pelo Bolsa Moradia — com parte do custo dividido com o governo do Estado — e outras 197 já contempladas pelo Compra Assistida.

Somando as modalidades de auxílio habitacional, o investimento mensal do município é de cerca de R$ 280 mil, além de aproximadamente R$ 32 mil mensais oriundos de repasses estaduais. Nos últimos 16 meses, o gasto com as políticas de aluguel social e Bolsa Moradia se aproxima de R$ 5 milhões.

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A concessão e manutenção dos benefícios seguem legislação municipal e decretos que determinam revisões semestrais da documentação das famílias, com possibilidade de renovação sucessiva conforme critérios sociais e disponibilidade orçamentária.

Segundo o município, o objetivo é avançar na transição das famílias para moradia definitiva. Para isso, está em andamento a construção do residencial Morada do Sol, no bairro Canudos, citado como uma das alternativas para atender parte das famílias ainda em situação de vulnerabilidade habitacional.

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Aluguel social ainda sustenta recomeços provisórios

Na casa de número 37 da rua José Mayer Filho, na Vila Marrocos, em Novo Hamburgo, Karina Schorn dos Santos, de 30 anos, busca recomeçar sua vida junto às quatro filhas — Yasmin, 14, Nicole, 11, Larissa, 9, e Laís, 8 —, dois anos após perder sua casa na maior tragédia climática já registrada no Rio Grande do Sul.

Karina mora com as quatro filhos com o auxílio do aluguel social | abc+



Karina mora com as quatro filhos com o auxílio do aluguel social

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial

A nova moradia — composta por sala e cozinha, dois quartos e uma área — está longe de ser chamada de lar e também foi atingida pela enchente de 2024. Mas é onde a família está se reerguendo graças ao auxílio de R$ 820,00 do Aluguel Social. “Minha renda é o Bolsa Família, não consigo pagar um lugar que não esteja dentro da área de risco”, conta Karina.

Em maio de 2024, ela precisou sair de casa, no bairro Santo Afonso, com as quatro meninas quando a água começou a tomar conta. Ao retornar ao local, viu tudo destruído. Não só a residência, mas todos os pertences, todas as memórias e lembranças felizes. Entre os destroços do que era sua casa, enfeites de Natal ainda contornam a estrutura de madeira, marcando uma época que nunca mais será vivida como antigamente.

“Foi um desespero sair de casa com quatro filhas no meio de toda aquela água chegando. Já tínhamos enfrentado uma enchente em 2023, a água chegou a um metro de altura, mas dessa vez, passou por cima, perdemos tudo.”

Casa onde Karina viveu metade de sua vida está destruída e tomada pelo mato | abc+



Casa onde Karina viveu metade de sua vida está destruída e tomada pelo mato

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial

Em busca do novo lar

Ao deixar sua casa, Karina e as filhas buscaram refúgio em Portão, na casa de um conhecido. Passado o susto, voltou para Novo Hamburgo, já na Vila Marrocos, onde pagou aluguel por cerca de um ano até ser contemplada com o Aluguel Social. “Eu tinha que decidir entre pagar o aluguel ou comprar algo para comer.“

Apesar de ter o benefício, as dificuldades não desapareceram. “Não é só uma mudança de casa, é uma mudança de endereço, de hábitos, de vida. É muito ruim. Além de não ter nada, tu perde tuas referências, amigos, vizinhos, comércio… Tudo é destruído”, afirma.

Na sala, porta-retratos vazios decoram a parede. Os objetos não contém mais fotos — perdidas na tragédia — mas exibem uma fotografia do que se perdeu irremediavelmente. “A sensação que tenho ao ver a casa que eu morava destruída é de muita tristeza. Morei ali desde os 15 anos, foi metade da minha vida, onde eu me criei. Então lembro das memórias das minhas filhas, e tudo foi destruído. Eu tinha memórias boas dali, e hoje é só tristeza”, lamenta.

Não bastasse viver com a dor do passado, o trauma também faz Karina temer pelo futuro. “Eu não gosto do inverno. O coração fica apreensivo com esse tempo de chuva e frio, tenho muito medo. Chega maio, já começa essa loucura.”

Sem ter sido contemplada no programa Compra Assistida, que garantia uma residência de até R$ 200 mil por meio do governo federal, Karina aguarda uma solução definitiva prometida pelo município, que prevê a construção de moradias para famílias que perderam suas casas na enchente.

150 famílias espalhadas entre a Região Metropolitana e a Serra

Entre Região Metropolitana, Vale do Sinos, Vale do Caí, Paranhana e Serra, ao menos 150 famílias seguem dependentes do aluguel social em razão das enchentes de 2024. Embora em número menor quando comparado aos grandes centros mais atingidos, esses casos mostram que os efeitos da tragédia ainda se espalham pelo Estado, alcançando municípios de diferentes portes e realidades.

Nos levantamentos feitos nas cidades da região, a permanência no programa revela situações que variam entre o estágio de transição para moradia definitiva e a manutenção do benefício enquanto famílias ainda aguardam soluções habitacionais estruturais.

Em Esteio, são 22 famílias atualmente e outras 58 já deixaram o programa após encaminhamento para alternativas habitacionais. O valor pago é de R$ 700 por família, com investimento mensal aproximado de R$ 15,4 mil para atendimento do grupo diretamente atingido pelas enchentes. Considerando todos os beneficiários do programa, o custo chega a cerca de R$ 56 mil mensais, com recursos municipais e estaduais.

Segundo o município, as famílias permanecem no programa principalmente pela ausência de novas soluções habitacionais em escala suficiente. Desde 2024, 35 famílias foram encaminhadas para moradia definitiva por meio do Compra Assistida, mesma modalidade adotada como principal estratégia de reassentamento. Não há, no momento, previsão para ampliação de novas unidades ou prazo estimado para redução significativa do número de beneficiários.

Já em Sapucaia do Sul, são 64 famílias no benefício, número que já chegou a 102 no período mais crítico após as enchentes de 2024. O benefício, segundo nova legislação municipal em vigor desde abril de 2026, tem valor de R$ 602,37 por família e investimento mensal de aproximadamente R$ 37,3 mil, totalizando cerca de R$ 1,08 milhão em recursos municipais desde 2024.

Nestes dois anos, parte das famílias foi encaminhada para diferentes soluções habitacionais: 24 por meio do Minha Casa Minha Vida Reconstrução, cinco reassentadas em imóveis retomados pela Caixa Econômica Federal e uma realocada em loteamento municipal.

Sapucaia também realizou revisões administrativas do programa, que resultaram na suspensão de benefícios por irregularidades ou mudança de situação social. Segundo a administração, novas avaliações seguem sendo feitas com base na legislação atualizada, enquanto seguem orientações para que famílias não retornem a áreas interditadas pela Defesa Civil.

Vale do Caí

Em São Sebastião do Caí, 35 famílias seguem recebendo o aluguel em razão direta das enchentes e outras 20 vinculadas a situações de extrema vulnerabilidade social. No recorte específico da tragédia, mais de 60 famílias já deixaram o programa no último um ano e meio.

O valor médio do benefício é de R$ 700 por família. Em abril de 2026, o investimento mensal do município foi de aproximadamente R$ 30 mil, já no acumulado desde janeiro de 2024, os recursos destinados ao programa somam R$ 971,5 mil em verbas municipais e R$ 337,3 mil de repasses estaduais. A legislação municipal prevê revisão periódica, geralmente a cada seis meses, com duração inicial de até 12 meses e possibilidade de prorrogação excepcional até a inserção em programas habitacionais.

Segundo o município, as famílias permanecem no programa principalmente pela insuficiência de renda e pela ausência de solução habitacional definitiva. Desde 2024, parte dos atingidos já foi encaminhada para alternativas de moradia, com destaque para mais de 300 famílias inseridas em programas como a Compra Assistida, além de projetos estaduais de habitação em andamento.

Também no Vale do Caí, municípios como Bom Princípio e Montenegro informaram não terem famílias recebendo este benefício

Vale do Paranhana

No Vale do Paranhana, o número de famílias ainda dependentes do aluguel social após as enchentes de 2024 é pequeno, mas revela situações pontuais de permanência no programa enquanto soluções habitacionais seguem em andamento.

Em Igrejinha, são cinco famílias atualmente atendidas. Três delas não foram contempladas pelo programa de Compra Assistida por não estarem inseridas na área inicialmente mapeada, enquanto outras duas aguardam homologação. O valor médio pago é de R$ 729, com investimento mensal de aproximadamente R$ 3,6 mil. Desde 2024, o município já destinou cerca de R$ 235,6 mil ao benefício.

Em Três Coroas, município que também sofreu com deslizamentos, apenas uma família permanece no programa. Desde as enchentes, outras 79 famílias já foram encaminhadas para moradia definitiva por meio do Compra Assistida. O município também contabiliza investimentos superiores a R$ 1,3 milhão desde 2024, com predominância de recursos próprios. Estão previstas novas unidades habitacionais e projetos de reassentamento em andamento.

Em Parobé, também há apenas uma família. O município já encaminhou 17 famílias para o Compra Assistida e outras oito para o programa estadual A Casa É Sua, com unidades já entregues. Outras 17 moradias ainda estão previstas para os próximos meses. Segundo a administração, o benefício segue em caráter temporário, até a conclusão das obras habitacionais em andamento.

Serra

Na região da Serra, o número de famílias ainda dependentes do aluguel social após as enchentes de 2024 é menor em comparação a outras áreas do Estado, mas os casos refletem diferentes estágios de reconstrução, desde situações pontuais ainda sem definição até processos avançados de reassentamento habitacional.

Em Gramado, duas famílias seguem recebendo aluguel em decorrência da catástrofe climática. Elas viviam em um imóvel que permanece interditado pela Defesa Civil. O retorno ao local ainda é incerto e depende de obras de contenção, podendo inclusive resultar em desapropriação da área, que é analisada por equipe técnica e conselho de habitação.

Cada família recebe R$ 1.518, totalizando R$ 3.036 mensais em investimento do município. Em 2024, 196 famílias chegaram a ser atendidas pelo programa, além de outras 125 que receberam auxílio financeiro em parcela única. Ao todo, o município também realizou políticas de indenização e desapropriação em áreas de risco, com investimentos que superam R$ 8 milhões.

Em Canela, 13 famílias permanecem no programa de Aluguel Social Emergencial em razão das chuvas de 2024. O mesmo número de famílias já deixou o benefício ao longo do período, após encaminhamento habitacional ou cessação das condições que justificavam o atendimento.

O valor médio pago é de R$ 1.359,52 por família, com investimento mensal de R$ 17,6 mil. Desde a criação do programa, o município já destinou cerca de R$ 416,7 mil ao benefício, com recursos próprios.

Segundo a administração, o programa é reavaliado mensalmente. As famílias seguem no sistema enquanto aguardam a conclusão do Loteamento Social Recomeçar, que deve reassentar parte dos atingidos. Até o momento, 44 famílias já foram encaminhadas para moradia definitiva, e outras 13 unidades habitacionais ainda estão previstas.

Em Nova Petrópolis, sete famílias ainda recebem o aluguel social e outras 21 famílias já deixaram o programa. O valor mensal é de R$ 700 por família, totalizando R$ 179,4 mil investidos com recursos próprios em dois anos.

A permanência no benefício ocorre, em grande parte, devido à interdição definitiva dos imóveis atingidos e à ausência de possibilidade de retorno. Segundo o município, todas as famílias estão cadastradas em programas habitacionais estaduais e federais, com parte já contemplada pela modalidade de compra assistida.

Não há prazo definido para encerramento do atendimento, já que parte das soluções habitacionais ainda depende de definição técnica e da construção de novas unidades em áreas disponibilizadas pelo município.

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