O trecho da BR-116 entre Novo Hamburgo e Porto Alegre aparece entre os mais perigosos do Brasil. Só em 2025, foram 22 mortes em 30 quilômetros de rodovia, sendo 12 delas concentradas no segmento entre Novo Hamburgo e São Leopoldo — o terceiro com mais óbitos no País em rodovias federais, segundo levantamento da Confederação Nacional do Transporte (CNT).

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
Diante dos números, a pergunta que fica é: o que está provocando tantos acidentes? Obras em andamento, mudanças no traçado, falhas na sinalização ou imprudência dos condutores?
Para buscar essas respostas, a reportagem percorreu os trechos apontados no estudo, conversou com motoristas e trabalhadores que atuam às margens da rodovia e questionou os órgãos responsáveis pela via. Entre intervenções estruturais ainda inconclusas, congestionamentos frequentes e comportamentos de risco no trânsito, o cenário revela uma combinação de fatores.
Obras, cones e faixas provisórias
No trecho entre os quilômetros 240 e 250, em Novo Hamburgo e São Leopoldo — o mais letal do Estado em 2025 — há intervenções simultâneas. Nas proximidades do viaduto de acesso à Unisinos, o asfalto foi recapeado, mas ainda não há pintura definitiva das faixas que delimitam as pistas.
Além disso, cones ocupam uma das faixas para sinalizar as obras. Com a sinalização provisória, motoristas trocam de pista entre os balizadores e, em muitos casos, atingem os próprios cones, que acabam arremessados para as demais faixas. A reportagem flagrou tanto carros de passeio quanto caminhões realizando manobras bruscas nesse ponto.
Situação semelhante ocorre em Canoas, próximo à Unilasalle. Balizadores redesenham temporariamente o traçado da rodovia e obrigam quem trafega no sentido interior-capital a utilizar pistas do sentido contrário para desviar das intervenções.
Em Sapucaia do Sul, nas imediações do acesso à RS-118, e também no quilômetro 265, em Canoas, trechos já recapeados ainda aguardam pintura definitiva, o que pode dificultar a visualização clara das faixas, especialmente em horários de maior fluxo.
Congestionamentos e efeito dominó
Para quem trabalha diariamente às margens da BR-116, os acidentes fazem parte da rotina. Mecânico em São Leopoldo, próximo à ponte sobre o Rio dos Sinos, Junior Machado, 41 anos, afirma que os engarrafamentos são o gatilho para colisões em sequência. Segundo ele, quando o trânsito trava, as freadas bruscas começam e, em seguida, ocorrem batidas simultâneas — especialmente no trecho após uma curva no sentido interior-capital.
Machado relata que, apenas nesta semana, já havia presenciado três ocorrências até a quarta-feira. Em um dos casos, uma carreta não conseguiu frear a tempo e atingiu diversos veículos à frente. “Na segunda-feira (9), uma mulher de carro rodopiou e deu de frente na mureta lá. Aí nós tivemos que sair correndo e arrancar ela de dentro do carro porque começou a sair fumaça. Nas sextas-feira é pior, não precisa nem ter engarrafamento.”
Ele também cita acidentes frequentes com motociclistas na curva e lembra que atropelamentos eram comuns no passado, reduzidos após a instalação de telas entre as pistas após implementação da terceira faixa.
Mudanças viárias e conversões proibidas
Outro ponto citado por motoristas é a alteração no fluxo de vias marginais. Jair Pinheiro Batista, 54 anos, também mecânico em São Leopoldo, afirma que a inversão da Rua Osvaldo Aranha tem contribuído para aumentar o número de acidentes nas imediações.
Segundo ele, antes era possível acessar a via diretamente a partir da BR-116. Com a mudança, o acesso passou a ocorrer pela Rua Brasil. Batista relata que ele mesmo foi atingido por uma caminhonete enquanto trafegava de moto, após o condutor tentar realizar uma conversão proibida.
Batista avalia que a sinalização no local é insuficiente e defende a revisão do sentido da via.
Caminhões na faixa da esquerda
O comportamento de parte dos condutores também é apontado como fator de risco. Motorista de Sapucaia do Sul, Alexandre Müller Vieira, 43, destaca a circulação de caminhões na faixa da esquerda.
Segundo ele, os veículos de grande porte reduzem o campo de visão dos demais motoristas e, ao ocuparem a pista destinada a veículos mais rápidos, acabam provocando mudanças bruscas de faixa e colisões.
O que diz o DNIT
Procurado, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) informou que “os óbitos não foram causados pela conservação da rodovia” e orientou que detalhes sobre os acidentes sejam solicitados à Polícia Rodoviária Federal (PRF).
O órgão afirma que estão em andamento obras de melhoramentos operacionais e de segurança nos Lotes 1 e 2 da rodovia. No Lote 2, foram executadas 22 novas passarelas em um trecho de 38,4 quilômetros entre Porto Alegre e Novo Hamburgo, somando cerca de 45 estruturas para travessia de pedestres desde 2020.
No Lote 1, que inclui ampliação de faixas, construção de 26 novos viadutos e pontes e implantação de nova sinalização, já foi concluído o segmento entre Porto Alegre e Canoas (até o Viaduto da Metrovel). A previsão é que até o fim de março sejam entregues cerca de 15 quilômetros entre Canoas e São Leopoldo.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
Segundo o DNIT, o trecho entre a Ponte dos Sinos e Novo Hamburgo está com as pistas principais concluídas, restando etapas finais de obras complementares. A sinalização definitiva deve ser implantada até junho, enquanto parte das intervenções estruturais seguirá até 2027. A autarquia informou ainda que mantém equipe de manutenção atuando diariamente na rodovia.
A Polícia Rodoviária Federal foi procurada, mas não respondeu até o fechamento desta edição.