Nesta quarta-feira, 15 de outubro, o Brasil celebra o Dia do Professor. A data traz a lembrança da necessidade de valorização daquela que é a profissão mais fundamental em meio à sociedade pois, é a partir dela, que todas as outras se formam.
Por muito tempo, “ser professor(a)” era uma das respostas que vinham na ponta da língua quando a pergunta era “o que você quer ser quando crescer?”. Hoje, no entanto, o cenário é diferente. Não raro “quero ser YouTuber” surge como primeira opção dos pequenos, que veem seus ídolos na tela, e não mais na sala de aula.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
Ao mesmo tempo, cresce a demanda de escolas que atuam em tempo integral. Em 2026, serão 515 em todo o Rio Grande do Sul. Até por isso, recentemente o Estado registrou o maior concurso público da história da Secretaria Estadual da Educação, com mais de 41 mil inscritos para 6 mil vagas em diversas especialidades.
O número expressivo chega em um momento em que a rede pública enfrenta o desafio de manter salas de aula com professores em todas as disciplinas. Em estudo recente, foi revelado que até 2040, o Estado terá uma defasagem superior a 10 mil professores.
Em Novo Hamburgo, a professora Milene Barazzetti Machado é uma das vozes que representam esse compromisso de vida com a educação. Aos 50 anos, ela soma quase 32 dedicados às salas de aula e hoje atua na Fábrica do Saber, espaço pedagógico ligado à Secretaria Municipal de Educação. “Sempre gostei de crianças e tive ótimos exemplos de professores. Acho que essa profissão veio muito naturalmente para mim”, inicia.
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Entre livros, histórias e gerações
Milene começou a carreira ainda jovem, após ser chamada em concurso municipal enquanto cursava Direito. “Durante o estágio, percebi que o que eu gostava mesmo era estar com as crianças, lecionar, ensinar e viver o ambiente da escola”, relembra. A partir daí, vieram especializações em psicopedagogia, cultura afro-brasileira e, principalmente, em literatura infantil e juvenil, área à qual se dedica desde 2013 na Fábrica do Saber, que em 2025 celebra 23 anos.

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O espaço, localizado no bairro Ideal, é um dos polos pedagógicos da cidade, que atende as 91 escolas da rede com oficinas de escrita criativa, contação de histórias, mediação de leitura e palestras. “Recebemos estudantes de várias escolas e também fazemos parte do projeto Partiu Novo Hamburgo, que inclui a Fábrica do Saber entre os pontos de visitação para alunos de outros municípios. Promover a leitura é a minha grande paixão”, afirma Milene.
A vocação vem de família. Filha de professora de Língua Portuguesa, Milene cresceu cercada por livros e hoje é, também, escritora. Já são 11 títulos publicados, incluindo Sete Palmos, lançado neste ano nas Feiras do Livro de Caxias do Sul e de Porto Alegre.
“Eu virei escritora por causa dos meus alunos. Eles diziam: ‘professora, tu conta tantas histórias, mas onde elas estão?’ E elas não estavam publicadas em nenhum lugar, então foram eles que me motivaram a publicar”, conta.
Abraços valem mais que troféus
Entre prêmios e reconhecimentos, um dos episódios mais lembrados por Milene foi quando recebeu o Prêmio Amigos da Escola, destaque nacional na área de mediação de leitura. A conquista levou a professora até o Rio de Janeiro, onde deu entrevista na TV Cultura. Mas, para ela, as verdadeiras recompensas vêm no dia a dia:
“O que mais me marca é o abraço espontâneo das crianças, ou quando dizem que sou a melhor professora do mundo”, comenta, com um sorriso. “Também é emocionante quando encontro ex-alunas que hoje são coordenadoras ou diretoras de escolas e me dizem que escolheram essa profissão por minha causa. Essas coisas valem mais do que qualquer outra.”

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Apesar do amor pelo ensino, Milene reconhece que a docência enfrenta tempos difíceis com o desinteresse dos adolescentes e da sociedade como um todo para a profissão. “Quando são pequenos, muitos ainda sonham em ser professores, porque enxergam isso como algo mágico. Mas, conforme crescem, esse encanto vai se perdendo”, observa. “A profissão não é valorizada como deveria. Falta respeito, reconhecimento, melhores condições de trabalho.”
Ela destaca que a falta de valorização social e o desafio da disciplina em sala de aula são obstáculos frequentes. “Manter um ambiente tranquilo para a aprendizagem é cada vez mais difícil. Não é ser bravo, é garantir um momento de calma para que o aluno aprenda. Cada aluno tem o seu tempo, isso exige muito jogo de cintura e nem todos os jovens querem encarar esse desafio”, reflete.
Mesmo assim, o brilho na voz de Milene não deixa dúvidas sobre o caminho que escolheu. “Não me imagino em outra profissão. Sou professora, contadora de histórias e escritora. E o professor vai estar sempre dentro de mim. Quando conto histórias, também estou educando; quando escrevo, penso no que aquela professora gostaria de ler para seus alunos.”
Dicas de leitura e um livro inesquecível
Uma das maneiras de formar leitores é através da indicação de livros, tarefa que Milene adora. Para adolescentes, recomenda obras de aventura e suspense, como as de Agatha Christie e Raphael Montes; para adultos, cita Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, e os romances do gaúcho Jefferson Tenório.
Mas há um título que atravessou o tempo e segue como seu preferido: A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga, publicado pela primeira vez em 1976. “É o livro que marcou a minha infância. A personagem sonha em ser escritora, então, acho que isso me marcou bastante. Sempre fiquei com isso na cabeça e, como professora, virei escritora. Acho que foi daí que tudo começou”, confessa.

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Da sala de aula às bibliotecas, das histórias escritas às contadas, Milene Barazzetti Machado, ou melhor… a Professora Milene representa o amor pelo ensino. No Dia do Professor — e em todos os outros —, sua trajetória simboliza o desafio constante e a alegria de transformar vidas por meio do conhecimento.