O número de provas práticas de direção disparou no Rio Grande do Sul e levou o DetranRS a ampliar a oferta de exames no Estado. Em março deste ano, foram aplicados 54.387 testes práticos (em todas as categorias), contra 40.009 no mesmo mês de 2025 — um salto de 36%.
Por trás desse crescimento estão as novas regras para obter a Carteira Nacional de Habilitação (CNH), que deixou o processo mais barato e permitiu, também, a entrada em operação dos instrutores autônomos. A modalidade permite a formação de condutores fora dos Centros de Formação de Condutores (CFCs).

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
A mudança, regulamentada neste ano, altera a lógica tradicional do processo de habilitação: agora, candidatos podem contratar diretamente um instrutor credenciado pelo Detran, sem precisar necessariamente fazer aulas práticas em autoescolas.
Segundo o DetranRS, o aumento da demanda já vem sendo monitorado com atenção. O órgão afirma acompanhar “sistematicamente a evolução da demanda junto aos CFCs, o cadastro dos instrutores autônomos e a quantidade de aulas por eles registradas”, abrindo novas janelas de exames conforme a necessidade.
Embora o crescimento seja expressivo, o Detran sustenta que não há fila de espera no Estado. Em março, por exemplo, foram ofertadas 70.770 vagas para exames práticos, acima do total efetivamente preenchido.
Novo Hamburgo já sente os efeitos da mudança
Novo Hamburgo está entre os municípios onde o novo sistema já começou a ganhar forma. Conforme o DetranRS, há cinco instrutores autônomos cadastrados na cidade, e candidatos da região já utilizam a modalidade. O número é semelhante ao de São Leopoldo, que possui seis, e Sapiranga que conta com quatro. Canoas aparece com 11 instrutores cadastrados. Cidades como Gramado e Sapucaia contam com três; Canela, Esteio e Igrejinha com dois; e Estância Velha, Dois Irmãos e Nova Petrópolis com um instrutor cada.
Um destes profissionais é Adriano Miranda, de Campo Bom. Instrutor com mais de 14 anos de experiência, ele deixou recentemente um CFC para atuar de forma independente. Segundo ele, o processo para ingressar no novo modelo exigiu apenas o cadastramento específico no Detran, já que sua formação profissional permanecia válida.
“Os alunos chegam principalmente pelo site do Detran, onde podem buscar instrutores por cidade. O aluno que estou atendendo agora, por exemplo, me encontrou dessa forma. Por lá, tem todos os dados”, relata.
Miranda afirma que o conteúdo das aulas não muda em relação ao modelo tradicional. A diferença está na forma de contratação e em alguns atrativos específicos — no caso dele, o uso de carro automático. “As aulas funcionam da mesma forma que em um CFC. No meu caso, um diferencial é trabalhar com carro automático, o que acaba atraindo mais clientes”, explica.
Como funcionam as aulas com instrutor autônomo
Para atuar como autônomo, o profissional precisa ter a mesma formação exigida dos instrutores vinculados a CFCs e seguir as regras estabelecidas pelo DetranRS.
Os veículos usados nas aulas devem:
- ter no máximo 12 anos de fabricação;
- estar licenciados e em condições de trafegabilidade;
- usar identificação externa obrigatória;
- passar por vistoria e aprovação.
O duplo comando não é obrigatório, embora alguns instrutores optem por utilizá-lo. Além disso, o controle das aulas segue rígido: todas precisam ser registradas em sistema oficial, com validação biométrica de aluno e instrutor no início e no fim, além de filmagem integral dos 50 minutos de aula.
Na categoria B (carros), as aulas podem ocorrer em local ajustado entre aluno e instrutor, embora o Detran recomende que sejam feitas na região onde o exame será aplicado, para familiarização com o trajeto.
Busca por flexibilidade
Foi justamente essa flexibilidade que levou o morador de Sapiranga Rian Rodrigues, 34 anos, a trocar o modelo tradicional pelo autônomo. Ele iniciou o processo em um CFC de sua cidade, mas decidiu cancelar as aulas e migrar para o novo formato. “Eu comecei pelo CFC, mas depois cancelei para fazer com instrutor autônomo. A mudança foi rápida e valeu a pena”, conta.
Rodrigues contratou cinco aulas — acima do mínimo exigido, hoje reduzido para duas — para se sentir mais preparado. O principal motivo da troca foi a possibilidade de aprender em carro automático. “No CFC onde eu moro só havia carro manual. Como pretendo ter veículo automático e já tenho prática nesse tipo de câmbio, fazia mais sentido para mim”, afirma.
Ao cancelar as aulas no CFC, ele recebeu estorno parcial, com retenção de multa contratual.
A experiência também foi positiva para Dara Sarubi Almeida, 26, de Novo Hamburgo, que destaca a praticidade do novo sistema desde o início do processo. “Foi tudo muito tranquilo. Consegui marcar online, estudar de forma autônoma para a prova teórica e depois procurar um instrutor credenciado diretamente pelo site do Detran”, relata.
Segundo ela, a transparência nas informações transmitiu segurança durante todo o processo. “O Adriano sempre me mostrou tudo com clareza, explicou como funcionava e me orientou bastante. Como é algo novo, a gente pesquisa muito antes, porque existe receio e desinformação”, afirma.
Dara também aponta o custo como um diferencial importante. “A prova foi tranquila, o agendamento no site foi simples, e achei tudo muito mais fácil do que antigamente — e também muito mais barato. Acho que essa é a principal proposta desse novo modelo.”

Foto: Divulgação
Ela destaca ainda que buscou confirmar informações antes de iniciar as aulas, especialmente diante de dúvidas que circulam entre candidatos. “Pesquisei bastante para me sentir segura. Havia dúvidas, por exemplo, sobre fazer prova em carro automático e depois poder dirigir carro manual. Fui atrás das informações corretas e entendi como realmente funciona.”
Mercado ainda enfrenta desconfiança
Apesar da abertura do novo modelo, a adesão ainda é gradual. Segundo Adriano Miranda, a procura ainda está dando os primeiros passos. “Existe interesse, mas muitas pessoas ainda não confiam totalmente no trabalho do instrutor autônomo. Alguns CFCs têm feito comentários negativos, dizendo que o sistema não funciona ou que nem haveria provas, o que não é verdade”, afirma.
Para ele, a resistência tende a diminuir conforme mais candidatos concluírem o processo com sucesso. “À medida que as pessoas perceberem que o sistema está funcionando normalmente, isso deve mudar.”
Como contratar um instrutor autônomo
O candidato interessado deve:
- acessar o site oficial do DetranRS>Habilitação/CNH;
- consultar a lista de instrutores credenciados por município;
- entrar em contato diretamente com o profissional escolhido;
- combinar aulas e veículo conforme disponibilidade.
O exame prático continua sendo aplicado pelo DetranRS, com os mesmos critérios, circuito e avaliação usados para alunos oriundos de CFCs. A principal diferença está na gestão: no caso dos autônomos, o atendimento ao candidato é administrado diretamente pelo Detran, e não pelas autoescolas.

Foto: Divulgação
Segurança preocupa Detran
Embora reconheça o potencial de ampliação do acesso à CNH, o DetranRS admite preocupação com os efeitos da flexibilização federal sobre a segurança no trânsito.
“As conclusões ainda são precárias e somente quando passado alguns meses o modelo poderá ser mais bem avaliado. Todavia, há uma evidente flexibilização nos critérios para a avaliação na proposta do governo federal, e isto preocupa a autarquia quanto à segurança no trânsito”, informou o órgão.
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