Faltando exatamente um mês para a data que marca os 201 anos da chegada dos primeiros imigrantes alemães em São Leopoldo – município considerado o berço da colonização germânica no Brasil –, a São Leopoldo Fest, tradicional evento que comemora o fato, ainda está sendo programada.
FAÇA PARTE DA COMUNIDADE DO JORNAL VS NO WHATSAPP

Foto: Digue Cardoso/SL FEST
Mas duas ações esta semana serão importantes para a organização do evento, que já tem data e local agendados: de 24 a 27 de julho, no Largo Rui Porto, junto ao Ginásio Municipal Celso Morbach. A primeira ação é a abertura das propostas do pregão eletrônico para contratação da empresa que realizará a festa. O certame ocorrerá nesta sexta-feira (27), a partir das 9h.
Em nota, a Secretaria Municipal de Cultura e Relações Internacionais (Secult) ressaltou que o processo licitatório está em fase final, e que a festa neste ano “terá como temática central a valorização das raízes germânicas do município”, e contará com “uma ampla programação cultural, gastronômica e artística, celebrando a história e as tradições que marcam a identidade de São Leopoldo”.
“Importância histórica”
“A Administração Municipal reforça seu compromisso com a realização de um evento seguro, organizado e à altura da importância histórica e cultural da São Leopoldo Fest, destacando que todos os trâmites legais e administrativos estão sendo conduzidos com responsabilidade e transparência”, concluiu o texto enviado pela Secult.
CONHEÇA O PROJETO: Masterplan da Unisinos terá investimento de R$ 400 milhões em 10 anos
Escolha da corte
Outro evento importante é a escolha das soberanas da edição 2025 da festa, que ocorrerá neste sábado (28), a partir das 20h, no São Leopoldo Tênis Clube. A corte será composta por rainha, 1ª princesa, 2ª princesa e oma. As inscrições encerraram no domingo (15) e, de acordo com a Secult, 25 candidatas devem concorrer, sendo 23 para rainha e 2 para oma.
Fóruns não concordam com formato da festa
Apesar de ainda contar com pontos a serem definidos, a festa já tem causado polêmica entre o meio cultural leopoldense. Fóruns das Artes Cênicas e da Música divulgaram notas de repúdio ao formato da São Leopoldo Fest deste ano. Segundo eles, nos moldes em que foi colocada, a festa não valoriza os artistas locais e sua pluralidade.
Presidente do Fórum das Artes Cênicas, Amanda Flóis disse que o primeiro edital anunciado trazia uma programação já fechada para os quatro dias de festa. Depois, ele foi retificado, retiraram a programação e colocaram a determinação de que fossem escolhidas bandas dos gêneros MPB, rock e tradicionalista gaúcho. “O que pra classe artística é um desmonte total da cadeia cultural diversa que temos. As artes cênicas, por exemplo, não vão ter nenhum espaço, e há muitos anos sempre foi um palco de muita visibilidade para o teatro, circo e dança”, argumentou Amanda.
Ela também pondera que a Secult não procurou o Conselho Municipal de Políticas Culturais ou os fóruns antes de lançar o edital. Na noite desta terça-feira, durante reunião do conselho, o edital da São Leopoldo Fest seria uma das pautas abordadas, “a pedido dos conselheiros”, destacou Amanda.
LEIA TAMBÉM: MPF vai cobrar agilidade do Estado nas obras antienchentes
“Redução drástica da participação cênica local”
Na nota de repúdio, o Fórum das Artes Cênicas manifesta “profunda preocupação e indignação com as mudanças realizadas no evento, que historicamente acolheu a pluralidade de linguagens artísticas e promoveu o encontro entre artistas e público. As artes cênicas sempre ocuparam lugar relevante na programação da festa, com apresentações de rua, espetáculos para todas as idades e intervenções performáticas que enriqueciam a experiência cultural do evento. A redução drástica da participação cênica local, em favor de um formato engessado e exclusivamente centrado em uma narrativa cultural única, ignora a diversidade que compõe São Leopoldo”.
O texto também ressalta que o formato “fere diretamente uma diretriz prevista no Plano Municipal de Cultura de São Leopoldo, que estabelece que no mínimo 50% da programação dos principais eventos oficiais do município deve ser composta por artistas locais, sendo 25% dessas atrações em horários nobres da programação”.
“Ignorando a pluralidade cultural”
De igual forma, o Fórum da Música emitiu nota em que manifesta “profunda preocupação e descontentamento”, inicia. “A festa pertence à comunidade leopoldense e não à gestão municipal. É um momento que o artista local ganha visibilidade, trabalho, valorização. Destaca-se, durante anos, mais de 120 programações artísticas participavam desse grande evento. A festa fomenta a cultura e economia criativa local”.
O texto enfatiza ainda que no atual modelo “não estão contemplando a diversidade de gêneros, tão pouco respeitando a pluralidade da nossa população”. O Fórum também reitera a importância de “se dar o devido respeito a negritude dentro da celebração do aniversário da cidade”.
“A decisão de reduzir as apresentações a apenas quatro artistas locais ao formato dito germânico, ignorando a pluralidade cultural que define São Leopoldo, é inaceitável! Pedimos para ter no mínimo uma apresentação de cada gênero, já que o formato será menor”, destaca o texto.
ONDA DE FRIO: Veja imagens da geada no interior do RS nesta quarta-feira
“Mudança drástica da festa”
Nesta quarta-feira (25), o Fórum da Cultura Germânica emitiu Carta Aberta também sobre o formato da festa, salientando que historicamente tem o posicionamento de que São Leopoldo “deveria trabalhar e construir com a comunidade duas festas distintas e que celebrassem as potencialidades do nosso município”: uma festa de cunho majoritariamente turístico em julho, celebrando a Cultura Alemã; e uma grande festa com shows multiculturais que celebrasse a ampla diversidade cultural municipal, em Abril, quando é celebrado o aniversário da fundação da cidade.
“Neste ano, fomos surpreendidos como fórum, sem consulta prévia, da mudança drástica da festa, o que ao nosso ver não é correto e que deveria ter sido tema de um amplo debate com a cidade e com a comunidade cultural”, destaca o documento.
“Reforçamos que não somos contra uma festa germânica, pelo contrário, mas que esta não pode ser a única grande festa do município, que a migração e construção das duas festas, inclusive com a utilização do nome São Leopoldo Fest em alguma delas deve ser tema de um amplo diálogo, visando que o município e a comunidade cultural nada percam, pelo contrário, que o município possa ganhar mais um evento em seu calendário, que possa gerar mais turismo, valorização cultural e fomento à economia criativa de São Leopoldo”, complementa a carta.
O que diz a Secult
Procurada, a Secult enviou nota ressaltando que “a edição deste ano da São Leopoldo Fest tem como temática central a Cultura Germânica, em consonância com os objetivos históricos da festa, que desde sua origem se propôs a valorizar as raízes e a identidade cultural de São Leopoldo, berço da imigração alemã no Brasil”.
“É importante esclarecer que o formato atual da festa não tem como objetivo excluir ou invisibilizar as demais manifestações culturais da cidade, mas sim organizar a programação a partir de um eixo temático específico, promovendo uma curadoria coerente com essa proposta. Ressaltamos que a valorização da cultura local, inclusive das artes cênicas, segue sendo um compromisso da gestão, tanto na São Leopoldo Fest quanto em outras frentes e eventos realizados ao longo do ano”, continua o texto.
“A Prefeitura reafirma seu respeito à diversidade cultural do município e está aberta ao diálogo com os representantes dos diferentes segmentos artísticos (…). Por fim, destacamos que o processo ainda se encontra em fase preparatória, e que as contribuições da sociedade civil são bem-vindas e serão consideradas na medida do possível, dentro dos limites técnicos, legais e temáticos do certame”, finalizou.